Capítulo 29

896 Words
Alessandro: O cheiro de pipoca doce e terra molhada me invadiu como um soco. Eu conhecia aquele lugar. Conhecia aquele momento. O parquinho, o balanço enferrujado rangendo como um lamento, o céu pintado de fim de tarde… e ela. Alicia. Ela gargalhava com os pezinhos suspensos no ar, o cabelo preso em duas marias-chiquinhas balançando com o vento. Ela olhou pra mim, os olhos brilhando, e gritou: — Anda logo, Sandro! Quero o de morango! Eu sorri, achando fofo. Eu tinha 15 anos, ela era a minha menininha. Achei que não haveria m*l algum em deixá-la por alguns minutos para buscar o bendito sorvete. Um de morango e um de chocolate. Era só isso. Eu me vi correndo de volta com os picolés derretendo na mão. E o balanço... vazio. — Alicia?! Gritei, o peito apertado, o mundo ao redor se desfazendo em neblina. — ALICIA! A voz ecoou, mas não teve resposta. Só o som do vento, e o ranger do metal. Então, tudo mudou. Como se alguém trocasse os slides da minha mente. A luz ficou mais fria. A cena se distorceu. Eu estavamos na festa de aniversário da Alessia, Samanta, com aquele vestido lindo, sorria radiante. Ela me olhava com uma alegria, enquanto falava alguma coisa que eu não entendia. E então vi. Uma mão. Um vulto. Samanta sendo puxada para longe, como se o passado estivesse se repetindo. — SAMANTA! Gritei no sonho, desesperado, sem saber mais o que era lembrança e o que era tormento. Acordei num pulo, o corpo suado, o peito arfando como se tivesse corrido uma maratona. — Samanta… Murmurei, a voz rouca. Passei as mãos no rosto. Eu não entendia. Por que estava sonhando com as duas ao mesmo tempo? Alicia e Samanta. Uma parte de mim gritava que não era coincidência. Mas onde estava minha irmã? Onde estava Alicia? Eu prometi que a encontraria. E todos esses anos… nada. Nenhuma pista. Nenhum sinal. Mas a promessa... ela ainda vive em mim. Me deitei de novo, encarando o teto escuro, o coração batendo lento, pesado. — Eu vou te encontrar, Alicia… Sussurrei, mais para mim mesmo do que para o mundo. — Eu juro. Fechei os olhos outra vez. E deixei o sono me levar, ainda com o nome de Samanta preso entre os dentes. [...] O cheiro de café fresco subia da cozinha como um convite, mas meu corpo ainda pesava como se eu tivesse lutado a noite inteira contra fantasmas que só eu podia ver. Desci as escadas devagar, com os músculos tensos e a mente nublada. Cada degrau era um lembrete de que a madrugada tinha sido c***l. — Bom dia, mamãe! Vitória — Bom dia, meu filho. Minha mãe disse com aquele sorriso cansado. Ela segurava a xícara com as duas mãos, como se o calor da cerâmica pudesse afastar o frio que morava dentro dela desde aquele dia. — Dormiu bem? Completou, com olhos gentis, mas que procuravam mais do que só uma resposta. Sentei à mesa, sem responder de imediato. Peguei a caneca que ela empurrou na minha direção e fitei o líquido escuro como se ele tivesse todas as respostas que me faltava.— Sonhou com a Alicia de novo? Ela perguntou, num sussurro. Engoli seco. — Sonhei. Admiti. Mas não disse o resto. Não contei que Samanta também estava lá. Que vi a mesma cena se repetir como uma maldição. Era estranho. Incômodo. Quase como uma traição. Meu pai apareceu na porta da cozinha, ajeitando os óculos enquanto franzia o cenho. Emiliano — Filho, a gente já falou sobre isso. Você precisa se libertar dessa culpa. Você e Alicia eram só crianças. Levantei os olhos, sentindo aquela pontada familiar de raiva e dor. — Eu burlei a segurança, pai. Fiz isso porque ela queria brincar ali, naquele parquinho. Ela pediu, e eu quis agradar. Eu amo a minha irmãzinha, nem pude vê-la crescer. E se fizeram algum m*l para ela? Eu não consigo dormir bem desde aquele fatídico dia. Minha mãe suspirou, abaixando os olhos. O meu pai cruzou os braços. Emiliano — E quem sequestra uma criança assim, no meio do dia, sem deixar rastro… Ele fez uma pausa, como se pesasse cada palavra. — Só alguém que sabia exatamente onde vocês estariam. Cada passo. Cada minuto. Meu coração congelou. — Como assim? Perguntei, a voz mais baixa que o normal. Emiliano — Eu sempre achei estranho. Ele disse. — Sempre. É como se tudo tivesse sido planejado. Como se alguém… de dentro… alguém próximo, tivesse passado informações. Uma onda de náusea me subiu pela garganta. O café perdeu o gosto. Meu estômago virou um nó. — Você acha… que alguém da nossa confiança…? Ele não respondeu. Mas o silêncio dele foi resposta suficiente. Eu me levantei, repentinamente inquieto, o coração pulsando nas têmporas. O rosto de Samanta piscou na minha mente, como se ela tivesse algum papel nisso tudo. Mas por quê? Minha mãe outro dia comentou alguma coisa sobre ela, disse que queria vê-la novamente. Mas não tive coragem, seria mais uma frustração. Tantas moças se apresentaram como minha irmã, com interesse de ser a filha do governo. Outras até deram em cima de mim. Talvez ela esteja achando a semelhança entre Samanta e Alicia, muita coincidência. Mas eu precisava descobrir. E mais do que nunca… precisava entender o que o destino estava tentando me mostrar.
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