Capítulo 30

833 Words
Maike: Às vezes eu me pego encarando a estrada em silêncio, tentando entender como ela veio parar aqui. Samanta. A imagem dela descendo da caminhonete naquele dia ainda me persegue. Desorientada, magra, com o rosto sujo e os olhos perdidos. Jogada à própria sorte bem em frente à minha casa, como um estorvo que alguém quis se livrar. E desde então, algo não me sai da cabeça: de onde ela veio realmente? Quem a colocou naquele carro? E por quê? Ela anda mais quieta ultimamente. Desde o dia em que entrei no quarto e a peguei murmurando baixo, feito um sussurro para si mesma. Era como se estivesse fazendo planos... Eu sei que estava. Desde que se recuperou, redobrei minha atenção. A Cacilda voltou a cuidar dela como antes, agora que a chuva cessou, mas eu… Eu não sou mais o mesmo Maike de antes. Não consigo dormir tranquilo com a ideia de que, a qualquer momento, ela pode fugir… ou pior, alguém pode levá-la de volta. Por isso estou investigando aquele nome que ela soltou sem querer alguns dias atrás. Cotinha. Não está sendo fácil, existem milhares de Cotinha por aí. Entretanto, estou tentando puxar o caminho da caminhonete através das câmeras de segurança da cidade. Ainda não consegui todas as filmagens, mas não vou parar. Suspiro. Tem outra coisa que me inquieta: ela me lembra alguém. Mas não consigo definir quem. É como uma sombra no canto da mente, que desaparece toda vez que tento encarar de frente. Andei fuçando as câmeras do hospital também. As imagens do dia em que ela deu entrada estavam misteriosamente apagadas. Dei duas semanas para o setor de TI recuperar aquilo. Se não conseguirem... vão todos para o olho da rua. Agora estou aqui, observando pela fresta da cortina. Samanta canta alguma música desafinada e dança enquanto colhe frutas no pomar. Ela é linda. Muito linda. Balanço a cabeça, irritado comigo mesmo. Que i****a eu sou. Prometi que faria sofrer a primeira que ousasse se apaixonar por mim. Jurava que descontaria em qualquer uma tudo o que a Brenda me fez. Mas por que não consigo fazer isso com ela? Mesmo sabendo que Samanta está apaixonada por mim. Tenho planos pra ela. Pretendo ensiná-la a ler e escrever. Depois, vou contratar os melhores professores para educá-la em casa. Ela merece isso, mesmo que ainda não saiba. Ela é esperta. Toda vez que conversa com a Isabela, com a Cacilda… ou até comigo… o vocabulário dela muda. Ela se adapta. Já não fala tão errado como antes, só quando está nervosa. Outro dia, ela chorou na sala de cinema. Chorou mesmo, soluçando feito criança por causa de um filme onde a mocinha perdia o amor da vida dela para a morte. Uma baboseira melodramática. Mas aquilo mexeu tanto com ela que quase quebrou minha tela, gritando com o "i****a" que fez a mocinha sofrer. Ela é assim. Genuinamente ingênua. E talvez... justamente por isso, tão perigosa. [...] Minutos depois... Entrei na sala com a intenção de buscar meu celular, mas fui interrompido pela porta se abrindo com um baque leve. Samanta surgiu com um cesto abarrotado de frutas nos braços, tropeçando no tapete como sempre faz. — Eu num roubei, viu? Ela se apressou em dizer, os olhos arregalados e o tom defensivo antes mesmo que eu abrisse a boca. — A Cacilda que mandou eu acolhê as fruta antes que as abelha comesse tudo! Levantei uma sobrancelha, cruzando os braços. — Eu nem disse nada. Ela bufou, empinando o nariz. — Mas você ia dizer. Sempre pensa que eu tô fazendo besteira. — Só disse que você é encrequeira. E Deus queira que não tenha destruído minha cozinha de novo, como da última vez. Resmunguei, indo até o sofá e pegando o celular. — Eu num destruí nada, você que inventa essas coisas! Retrucou, seguindo na direção da cozinha com o cesto. — Só não sabia mexê nos troço! Mas agora tô aprendendo, tá? Num sou burra não. Revirei os olhos, mas antes que pudesse retrucar, vi quando ela pegou uma maçã do cesto e mordeu com vontade. O barulho foi seco, e logo depois o suco escorreu pelo canto da boca dela, deslizando lentamente pela pele. Ela passou a língua de leve pra limpar, a boca, sem pressa. Fiquei travado, acompanhando lentamente a língua fazer o percurso. Um segundo… dois… Praguejei por dentro e, engoli em seco. — Que foi? Tá olhando o quê, meu filho? Perdeu o que aqui? Ela perguntou, me encarando com o cenho franzido. Desviei o olhar num rompante, pigarreando. — Nada. Coloquei o celular no bolso e fui em direção à porta. — Vá levar as frutas para Cacilda antes que você às devore. Ela deu de ombros, como se eu não tivesse falado nada, e seguiu cantando baixinho, com o cesto no quadril e a maçã na mão. Fiquei mais uns segundos parado, só ouvindo os passos dela se afastando. Inacreditável. Essa garota vai acabar me deixando louco.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD