Capítulo 31

781 Words
Maike: Hoje, eu resolvi colocar em prática aquilo que venho pensando há alguns dias. Pensei muito antes de tomar essa decisão, por dois motivos. Primeiro: Samanta está mexendo comigo de um jeito que eu nunca imaginei ser possível. É diferente. Ela consegue tirar de mim os dois lados, o melhor e o pior. Me tira do sério com uma facilidade irritante, e ao mesmo tempo me desarma com aquela boca atrevida, jogando na cara verdades que ninguém jamais ousou dizer. Segundo: ouvi ela contando para a Cacilda que queria aprender a ler e escrever. Isso chegou até os ouvidos do meu pai. Ele, sem pensar duas vezes, contratou um professor particular para ela. Mandei embora na hora. Quem vai ensinar Samanta sou eu. Com a minha paciência limitada e o meu método nada pedagógico. Por isso estou indo agora a uma papelaria escolher, com minhas próprias mãos, cada material necessário para as aulas. Sim, eu, Maike, numa papelaria, cercado de purpurina, laços e frescuras, escolhendo lápis com cheirinho de morango. — Estou saindo, Cacilda. Fique de olho na Samanta para ela não destruir nada enquanto eu estiver fora. Ela riu e rebateu: Cacilda — A menina está no pomar, Maike. Não seja implicante. Bufei. Quando passei pela varanda, vi Samanta ao longe, brincando com o Brutus, meu cachorro, que agora não me obedece mais. Ele se jogava no chão, deixando ela montar nele como se fosse um cavalo. Ridículo. Capacho completo. Entrei no carro irritado, saindo cantando pneus. Até os seguranças andam rindo para ela feito idiotas. Isso me irrita mais do que deveria. *** Na papelaria, fui direto para a sessão de material escolar, empurrando o carrinho com impaciência. Logo de cara, uma prateleira inteira cor-de-rosa me deu nos nervos. Um verdadeiro ataque aos olhos. Mas era exatamente o que ela ia gostar, não era? Peguei o primeiro caderno com glitter da prateleira. — Que diabos é isso? Murmurei, revirando os olhos. — Uma p***a de unicórnio com arco-íris e coraçãozinho? Ótimo... a cara dela. Joguei no carrinho. Continuei andando, analisando cada item com um desprezo fingido, mas prestando atenção em todos os detalhes. Caderno de capa dura, com folhas grossas. Canetas coloridas, daquelas que brilham. Um estojo peludo rosa-choque que parecia ter saído de um pesadelo infantil. Peguei o mais exagerado que encontrei. — Vai rir da minha cara... mas vai usar. Encontrei uma mochila com orelhas de gatinho e lantejoulas reversíveis. Suspirei fundo. — Ridículo... Mas testei a alça pra ver se era confortável antes de colocar no carrinho. Canetinhas, lápis com cheirinho de chiclete, uma borracha em forma de cupcake, post-its em formato de coração, até uma tiara com laço. Aquilo tudo era um insulto à minha masculinidade, mas cada escolha era pensada. Era irritante o quanto eu queria que ela ficasse feliz com aquilo. No fundo, eu já conseguia imaginar os olhos dela brilhando ao ver aquele circo rosa espalhado em cima da mesa. E isso me deixava mais puto ainda. Foi quando ouvi a voz dela. A única que eu não queria ouvir naquele momento. Brenda — Maike? Olhei por cima do ombro e lá estava ela, me olhando incrédula. — Que monte de tralha rosa é essa? Perguntou com uma expressão de desgosto. — Não é da sua conta! Respondi seco, voltando a olhar os lápis. Ela se aproximou mais, pegou a mochila da minha cesta e ergueu com desdém. Brenda — Isso é para quem? Para aquela marginalzinha que você resolveu abrigar? A trombadinha da favela? Respirei fundo. Não por calma. Mas para não perder o controle no meio da loja. — Brenda… Devolve isso! Falei baixo. Ela não obedeceu. Brenda — Você tá mesmo se rebaixando por ela? Que tipo de loucura é essa, Maike? Ela é só uma aproveitadora. Uma v***a que nem sabe escrever o próprio nome e muito menos se comportar. É uma selvagem! Eu EXIJO que você a mande embora da sua casa. Agora! Minha mão fechou em volta do carrinho. Olhei direto nos olhos dela. — A minha casa, as minhas decisões. E você não exige nada! Ela pode ser tudo isso aí, mas errou em uma... a única v***a aqui é você. Ela tentou disfarçar a surpresa. Brenda não estava acostumada a ouvir a verdade. Muito menos dito desse jeito, e ainda mais por mim. Peguei de volta a mochila da mão dela, joguei no carrinho e continuei andando, sem olhar para trás. — E por sinal… a "marginalzinha" tem mais coragem e verdade em uma palavra errada do que você teve durante toda nossa relação. Fui até o caixa, peguei tudo e saí da loja com tudo. Coração disparado e raiva borbulhando em minhas veias.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD