Capítulo 32

1104 Words
Fechei a mochila com força, como se quisesse acabar com aquele sentimento i****a que crescia no peito. Me levantei e fui direto ao encontro dela. Era hora de falar, deixar claro que a partir de amanhã ela ia ter uma rotina nova. Que eu ia ensiná-la. Que ela ia aprender. Saí do escritório decidido, mas não a encontrei em lugar nenhum. — Samanta! Chamei pelo corredor, pelo jardim, pela sala. Silêncio. Fui até a cozinha, onde Cacilda picava legumes com aquela calma irritante de quem sabe tudo, mas finge que não sabe nada. — Cadê a selvagem? Perguntei direto. Ela ergueu os olhos, cortou mais uma cenoura e respondeu como se não tivesse a menor pressa: Cacilda — Deve estar passeando pela propriedade. Ela é curiosa, Maike. E não para quieta. Franzi a testa. — Ela nunca foi tão longe sozinha. Cacilda — Bom, não vi saindo… mas também não a vi voltando. Ela não tem noção do tamanho deste lugar. E se tivesse fugido? Um aperto estranho me tomou o estômago. Um tipo de preocupação que me dava nos nervos só de existir. Fui até a varanda e encarei o verde extenso da minha propriedade. O lugar era grande, mas ela não conhecia tudo. Exceto se... Não, impossível. Mas e se não fosse? Meus passos se aceleraram por puro impulso. Peguei o caminho da trilha que leva aos fundos da propriedade, onde os funcionários raramente vão. Um lugar isolado, com mato alto, um rio escondido entre as pedras e uma cachoeira onde costumo ir quando preciso desabafar. Só eu conheço aquela trilha. Só eu. — Como ela teria descoberto? Murmurei, irritado. — Não tem lógica. Mas mesmo sem lógica, fui. O medo dela ter fugido me atravessava como uma lâmina invisível. Enquanto caminhava entre os arbustos, uma ideia me atingiu como um soco: e se foi exatamente ali que ela se escondeu quando chegou aqui? Por isso demoramos tanto pra descobrir que havia uma invasora. Ninguém vem a este lugar, onde somente eu costumo estar. Faz sentido, por mais que eu odeie admitir. Aumentei o passo. O barulho da água se aproximava. O som do riacho batendo nas pedras, o cheiro de terra molhada e folhas secas. O lugar onde costumo enfrentar meus demônios estava prestes a me apresentar um novo. Foi quando ouvi. A voz dela. Uma música infantil boba, cantada com doçura e um tom desafinado. O som se misturava ao canto dos pássaros e à água correndo. Me escondi atrás de uma árvore e a vi. Samanta. Sentada dentro do rio raso, com um passarinho nas mãos, molhando a ave com cuidado como se fosse uma boneca delicada. Ela sorria. Um sorriso que não tinha nada a ver com o mundo de onde veio. Um sorriso de criança. Inocente. Livre. E eu sorri também. Maldito sorriso i****a que escapou antes que eu pudesse segurar. Mas então ela se levantou. Caminhou até a beira do rio, com o passarinho nas mãos, e o soltou numa pedra. E foi aí que o meu mundo parou. Ela estava só de calcinha. Minha respiração travou. O peito se apertou. E eu engoli em seco como se o ar tivesse se tornado veneno. Eu a analisei. De cima a baixo. A pele molhada, os cabelos grudados nas costas, as pernas curtas e magras. O corpo ainda em formação, mas já com curvas que me fizeram ranger os dentes. — p***a… Murmurei, quase sem som. Era errado. Tudo. Mas naquele instante, minha mente ignorou qualquer limite. E o que dominou meu corpo foi um calor repentino, misturado à culpa, misturado à raiva… e ao desejo. A garota que invadiu minha casa, minha paz e agora… meu corpo inteiro. E naquele instante, percebi o quanto ela era também… perigosa. Muito perigosa. Meus olhos ainda estavam grudados nela quando tudo aconteceu rápido demais. — AAAAAAAAA! Ela gritou. O som da pele batendo contra a pedra molhada foi alto o suficiente pra me arrancar do maldito devaneio. — Samanta! Berrei, me afastando da árvore como um louco. Corri. Desviei dos galhos, escorreguei num pedaço de lama, quase fui eu quem caiu também. Mas continuei. o coração batendo tão alto que abafava todos os sons da floresta. Quando a alcancei, ela estava sentada, com a perna esticada, segurando o tornozelo e com os olhos marejados. — Você é burra, é isso?! Soltei, ofegante, ajoelhando ao lado dela. — Que diabos você pensa que está fazendo? Brincando de ninfa da floresta? Ela chorava. Tentava responder, mas a dor parecia maior que a teimosia. — Foi só um… só um escorregão… eu... ai... Ela gemeu, apertando mais o tornozelo. Suspirei, passei a mão no rosto, tentando recuperar o controle. — Claro que foi. Porque com você tudo é “só” alguma coisa. Só invadiu uma casa, só quase morreu, só se afogou num balde, e agora “só” escorregou numa pedra no meio do mato… de calcinha! Grunhi, revoltado. Os dentes cerrados pela tensão. Mas no fundo eu estava apavorado. Ela fez uma careta, como se quisesse retrucar, mas nem isso teve força pra fazer. — Você torceu o tornozelo. Ótimo. Porque nada pode ser simples com você, né? Nem tomar banho pelada no rio. — Eu num tava pelada! Ela rebateu, com a voz tremida. — Está quase, e isso já é o suficiente pra me causar um AVC. Ela arregalou os olhos, meio confusa, meio com vergonha. E chorou mais. — Ei, chega disso. Para de chorar. Falei, a voz mais baixa agora. Sem dizer mais nada, passei um braço por trás das costas dela e o outro sob os joelhos. Ela se encolheu, surpresa. — O que tá fazeno? — Colhendo flores. Rebati seco. — Está vendo alguma cesta aqui? Ela me olhou como se quisesse me xingar, mas o soluço veio primeiro. — Você vai me carregar? — Não, vou te arrastar pelos cabelos. Óbvio que vou te carregar, garota. Ela se calou, apertando os lábios. O rosto molhado de lágrimas, os olhos assustados, vulneráveis... e ainda assim cheia de resposta. Levantei com ela nos braços, sentindo o peso leve e desajeitado contra o meu peito. A pele dela ainda estava molhada e fria, o que me irritou mais do que deveria. — Que inferno, Samanta... Murmurei, enquanto caminhava pela trilha. — Eu devia te deixar aqui, pelada e gemendo de dor, para aprender a não fazer besteira. Mas não... eu sempre acabo fazendo o que não devo. Ela recostou a cabeça no meu ombro. Quieta. E foi isso que me deixou mais preocupado. Porque Samanta calada... Era sinal de que alguma coisa tava realmente errada.
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