Maike:
Eu estava puto. Muito puto.
Meu pai enfiou aquela garota dentro da minha casa como se isso aqui fosse um abrigo para perdidos. Como se eu tivesse obrigação de acolher gente que aparece do nada. Eu não faço obras de caridade.
Ela está dormindo como se estivesse em um maldito hotel de luxo. Eu devia ter jogado essa garota na estrada assim que a vi. Mas não. Meu pai, com aquela mania insuportável de querer consertar o mundo, decidiu que era uma boa ideia trazê-la pra cá. Como se minha paciência já não estivesse por um fio.
Ninguém sabe de onde ela veio, ninguém sabe com quem aquela ladra se meteu. Mas meu pai, como sempre, acha que pode salvar todo mundo. Como se o mundo fosse feito só de vítimas e não de aproveitadores.
Ele ficou louco. Só pode ser isso.
Eu não coloquei essa garota aqui. Eu não a quero aqui. E, no entanto, estou preso na minha própria casa.
Tudo porque eu não quero olhar para a cara dela quando acordar. Não quero ver aqueles olhos perdidos, aquela expressão inocente, como se não soubesse o que estava fazendo quando invadiu minha propriedade. Como se fosse apenas uma garotinha indefesa, e não uma invasora.
E para acabar de completar, meu pai foi embora e deixou Calcilda encarregada de cuidar dela. Como se fosse responsabilidade minha abrigar uma estranha. Como se minha casa fosse uma instituição de caridade.
Eu aperto o copo de uísque na mão, sentindo o vidro frio contra a pele. O líquido âmbar balança no copo, mas eu não bebo. Não agora.
Estou cansado. Mas não é um cansaço físico. É mental.
Desde aquele maldito dia, eu me fechei. Me isolei. E estava tudo muito bem assim, até meu pai decidir que podia trazer uma estranha para dentro do meu mundo. Meu mundo.
Ninguém tem o direito de cruzar esses portões sem minha permissão. E, no entanto, ela está aqui. Dormindo na minha casa, respirando o meu ar, ocupando um espaço que não pertence a ela.
Eu devia tê-la expulsado quando tive a chance.
Mas agora é tarde demais.
Respiro fundo, tentando conter a raiva que cresce no meu peito. Se essa garota acha que vai encontrar alguma coisa aqui, está muito enganada.
Aqui não há conforto. Não há acolhimento.
Se ela quiser ficar, vai precisar lidar comigo. E eu não sou um homem fácil de suportar.
Enquanto isso, vou pensando em uma maneira de tirá-la da minha casa. Do meu território.
Ela pode ter conseguido se enfiar aqui pelas boas intenções do meu pai, mas isso não significa que vai ficar. Não sob o meu teto.
Isso aqui não é lugar para invasores. E eu não sou um anfitrião bondoso.
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Samanta:
Eu acordei me sentindo uma princesa, tirei um cochilo bão ... Mas, pera... Eu num era princesa, né?
Abri os zóio e vi uma mulher linda, com um sorrisão tão bom que dava vontade de abraçá. Ela era diferente de tudo que eu já vi. Os cabelo era bem arrumadinho, a roupa cheirosa, e o jeito... Ah, o jeito dela era doce que nem doce de leite!
— Bom dia, menina! Como está se sentindo? A voz dela era tão tranquila que até dava sonin.
— Tô bem, tia! Quem é você?
— Me chamo Calcilda, mas pode me chamar de Cilda, se quiser. Seu Rodolfo me pediu para cuidar de você.
Olhei pra ela toda feliz. Nunca ninguém tinha me cuidado assim, não. E ela parecia saber o que fazia.
— É mesmo? Você vai me cuidar?
— Vou sim, mas primeiro, banho! Você precisa tomar um banho bem gostoso.
Minha alegria sumiu na hora.
— É... Banho? Assim, água de verdade?
Ela riu, e meu coração ficou quentinho.
— Claro, minha menina! Um banho quente, daqueles que relaxam até a alma! Vem comigo.
Ela me puxô pelo braço e me levou pra um banheiro que parecia casa de rico! Gigante, cheio de espelho, com uma banheira tão grande que dava pra nadar dentro.
— Poxa, isso aqui é chique que nem castelo!
Calcilda riu de novo, me ajudando a tirar a roupa suja.
— Vamos, mocinha, a água tá quentinha.
Entrei e senti o calorzinho me envolver. Ai, que delícia! Comecei a cantar logo, porque banho bom pede uma cantoria.
"Eu tô tomando banho de princesa, a água quentinha, minha pele tá lisa!"
Calcilda gargalhou.
— Onde aprendeu essa música?
— Ah, num sei, saiu da cabeça mesmo! Você gostô?
— Adorei! Agora lava bem esses cabelos, que depois eu vou pentear.
Fiquei brincando com a espuma, cantando mais alto, me sentindo uma estrela.
"Tô aqui no banho, me sentindo rainha, vou sair brilhando, cheirando bonitinha!"
Calcilda pegou um vestido enorme grosso e ficou esperando, rindo de mim.
— Agora chega, Samanta, sai daí antes que fique igual uva passa. Venha, coloque esse roupão.
Saí rindo, e ela me enrolô no troço fofinho. Me sentô numa cadeira e começou a secar meu cabelo com tanto carinho que me deu até sono.
— Você é muito boazinha, Cilda. Nunca ninguém me cuidô assim.
Ela sorriu, continuando a secar meus fios com todo o cuidado.
— Agora você tá segura, menina. E não precisa ter medo de nada.
Fiquei quietinha enquanto ela passava um pente devagar no meu cabelo, sem puxar nem nada. Era bom ser cuidada.
— E aquele grosso? O príncipe m*l dona do lugar bonito.
Ela parô um pouquinho e suspirô.
— Melhor você ficar longe dele, minha menina. Maike... é um homem difícil.
— Ah, então num é só comigo que ele é chato, né?
— Ele é fechado, não gosta de ninguém por perto. Mas deixa ele pra lá! Agora é hora de cuidar de você.
Deixei ela me arrumar toda, sentindo meu coração feliz.
Tava num castelo, tomando banho de princesa, e tinha até uma fada madrinha me ajudando. Depois todo aquela movimentação, acabei dormindo novamente.