Maike:
Malditos dois dias. Setenta e duas horas. Quatro mil trezentos e vinte minutos. O inferno pode ter muitas formas, mas nenhuma delas se comparava a essa: ter Samanta sob o mesmo teto que eu.
Massageei minhas têmporas e me recostei na poltrona do escritório, tentando ignorar a dor no cóccix depois da queda humilhante que sofri.
— Eu vou matá-la…
Cacilda — Ora, não exagere, Maike.
A voz fiel da governanta de meu pai se fez presente, sempre carregada de paciência, me irritou ainda mais. Ela cruzou os braços e me observou como se eu fosse uma criança tendo um chilique.
— Não exagere?! Explodi, soltando um riso sem humor. — A garota não sabe fazer absolutamente nada! Ela não sabe varrer, não sabe limpar, não sabe cozinhar, e eu tenho certeza de que nem sabe respirar direito!
Ela revirou os olhos, mas não dei espaço para que me interrompesse. — Hoje de manhã, quase morri porque escorreguei em um balde de água suja que ela deixou no meio da sala! Ontem, quebrou um prato atrás do outro, e eu não vou me surpreender se amanhã minha casa estiver pegando fogo!
Cacilda — Você está exagerando…
— Eu não estou exagerando! Levantei-me de súbito, fazendo a cadeira deslizar para trás. — Essa garota é um verdadeiro desastre ambulante! Está acabando com a minha casa, e só está aqui há dois dias!
Bati a mão na mesa com força, sentindo minha paciência se esvair. Nunca fui um homem calmo, mas Samanta estava me levando a um novo nível de desespero. — Eu a quero fora daqui!
Cacilda — Você sabe que não pode fazer isso…
— Posso e vou!
Cacilda abriu a boca para responder, mas um grito vindo da cozinha cortou o ar.
Nós nos sobressaltamos, trocando olhares antes que outro barulho ressoasse, um som alto e seco, como se algo estivesse sendo golpeado repetidamente. — O que diabos…?
Saí do escritório a passos pesados, e Cacilda me seguiu. Quando chegamos à cozinha, a cena que encontrei me fez desejar sumir da face da terra.
Samanta estava no meio do cômodo, segurando uma vassoura como se fosse uma espada e golpeando o liquidificador ligado. O aparelho vibrava descontroladamente sobre a pia, espirrando um líquido espesso para todos os lados.
— Para esse troço! Sai pra lá! Ai, ele quer me pegar! Ela gritou, dando mais uma pancada na máquina como se estivesse lutando contra um bicho feroz.
Levei um segundo para absorver o que estava acontecendo. O chão estava encharcado com uma mistura esquisita, um cheiro azedo impregnava o ar, e minha cozinha… minha cozinha…
Fechei os olhos e inspirei fundo. Quando os abri novamente, senti um calor subir pelo meu corpo, um ódio crescendo na minha garganta como um rugido prestes a explodir.
— SAI DA MINHA CASA!
Samanta parou de atacar o liquidificador e olhou para mim, surpresa.
— O quê? Para essa coisa. Ela gritou erguendo a vassoura mais uma vez.
— SAI DA MINHA CASA, AGORA!
Mas ela franziu o cenho e abaixou a vassoura.
— Eu num vô.
— Como é que é?!
— Eu num vô! Ela cruzou os braços e empinou o queixo. — Tio Dolfo disse que eu podia ficá!
Arregalei os olhos, chocado com tanta audácia.
— O quê?! Já está até chamando o meu pai de tio, ele não é nada seu.
Ela fez um bico e deu de ombros.
— A casa num é sua, é dele! Ele disse que eu podia ficá, então eu ficu!
Pisquei várias vezes, sem acreditar no que estava ouvindo. Meu coração martelava no peito, minhas mãos tremiam, e minha visão se embaçava de tanta raiva.
— Sua… sua…
Cacilda — Maike, não! Ela se colocou entre nós, erguendo as mãos. — Você precisa respirar!
— Respirar?! Ri, mas foi um riso sombrio, sem humor. — Eu preciso é de um exorcismo para lidar com essa lunática!
— Ei, num fala assim comigo não. Ou taco essa vassoura na sua cabeça! Samanta protestou, indignada.
Arregalei os olhos, abri e fechei a boca. Mas disse:
— Você não faz ideia do que é viver em uma casa! Apontei um dedo para ela. — Você não sabe limpar, não sabe cozinhar, não sabe usar um maldito liquidificador!
— Eu num tive essas coisa, tá bom?!
— E por que acha que sou obrigado a aturar isso?!
— Porque tio Dolfo disse que eu ficu aqui!
— EU NÃO ME IMPORTO COM O QUE ELE DISSE!
— ENTÃO VAI BRIGÁ COM ELE! Ela gritou de volta fazendo o meu coração palpita e os meus ouvidos zumbirem.
Cacilda — CHEGA! Ela gritou, batendo palmas. — Vocês estão parecendo crianças brigando por um brinquedo!
Respirei fundo, tentando manter o controle. Olhei ao redor e senti o desespero me tomar de novo.
Minha casa estava um caos. Minha paciência, destruída. E aquela garota… aquela garota…
Não falei mais nada. Apenas me virei e saí da cozinha, ignorando a confusão que deixei para trás. Minhas pernas me levaram direto para a área de lazer, onde me joguei em uma das cadeiras.
Peguei uma garrafa de uísque e despejei um pouco no copo. Levei a bebida à boca e deixei o líquido quente descer pela garganta, esperando que, de alguma forma, isso acalmasse o ódio fervendo dentro de mim.
Como eu ia me livrar dela?
Tomei mais um gole e fechei os olhos, sentindo o álcool fazer efeito.
A única coisa que eu sabia era que Samanta não podia continuar ali. Se ela ficasse mais tempo, eu acabaria enlouquecendo.
Ou cometendo um crime.