Samanta:
Hoje é dia da tal festa chique. Eu já fui numa festa antes, mas parece que essa diferente. Pra mim até tudo a mesma coisa. A de hoje tem bolo e parabéns. Alessandro falou que ia ter um monte de gente, música ao vivo e comida boa. Comida boa me interessa.
Cacilda apareceu cedo pra me arrumar. Disse que eu tinha que ficar bonita. Mas bonita por quê? Eu já sou bonita. Só que ela insistiu, me botou no banho, lavou meu cabelo e começou a me ajeitar. Ela passa umas coisa, puxa daqui, amarra dali, me espeta, me puxa de novo... Afe, pra quê tudo isso? Eu só vou na tal da festa, num vou casar.
Cacilda — Para de ser mexe, menina. Ralhou quando tentei desamarrar a fita do vestido.
— Ai, tá me apertando! Como que respira com isso?
Cacilda — É assim mesmo. Quer ficar bonita ou não?
— Quero, mas sem morrê sufocada!
Ela riu e continuou me ajeitando. Quando terminou, me fez olhar no espelho. Eu quase caí pra trás. Meu cabelo tava preso de um jeito bonito, a roupa era diferente, brilhava um pouco.
Cacilda — Ficou linda! Ela sorriu, orgulhosa.
— Tô parecendo... sei lá, uma princesa.
Ela riu e me empurrou pra fora do quarto. Quando passei pela sala, o ricaço de nariz empinado tava lá, com uma caneca de café. Ele tem corrido de mim parecendo até que tenho doença r**m.
Ele olhou pra mim de cima a baixo e franziu a testa.
— Espero que não chegue de manhã bêbada.
— Não sou cachaceira igual a você, bebo safado.
Cruzei os braços, com medo de mexer na roupa e ela desmoronar.
Ele bufou e bebeu o café.
Que que deu nele? Parece que engoliu um limão. Dei de ombros e saí. Alessandro já tava me esperando. Ele sorriu quando me viu e disse que eu tava bonita. Eu sorri de volta, porque ele é muito educado.
Entramos no carro dele e seguimos caminho. Olhei tudo pela janela, tentando entender pra onde a gente tava indo.
Alessandro — A festa vai ser em um salão lindo, Samanta. Tem luzes, tem música ao vivo... você vai gostar. Ninguém vai humilha-la, prometo.
Sorri, mas fiquei pensativa. Música ao vivo? Quero ver isso.
Quando chegamos, vi um monte de gente. Mulheres com vestido brilhante, homem de terno, tudo muito chique. Fiquei parada um tempo, com medo de entrar.
Alessandro — Vamos? Ele estendeu a mão.
— Eu entro, mas se alguém me empurrá, eu empurro de volta!
Ele riu e me guiou pra dentro. Acho que nunca vi tanta gente junta. Era bonito, mas meio assustador. Mesmo assim, ergui a cabeça e entrei, porque num sou de me acovardá.
***
Horas mais tarde...
A festa tá horrível. Um bando de gente metida, tudo se achando mais bonito que o outro. Ficam falando umas coisa difícil, rindo baixinho, como se tudo fosse engraçado. Nada de comida decente, só uns troço pequeno que m*l dá pra sentir o gosto.
Tô sentada num canto, sem ter o que fazer. Quero ir embora. Alessandro sumiu faz tempo, e eu tô começando a ficar com raiva. Levantei e fui atrás dele, mas quando perguntei pra uma moça vestida de brilho, ela disse que ele tinha ido no banheiro.
Ótimo. Agora tenho que esperar.
Mas quer saber? Não vou esperar nada! Vou é embora. Só tem um problema: que caminho eu tomo?
Respirei fundo e me virei pra porta, pronta para ir embora. Mas assim que cheguei perto, parei. Olhei pra um lado, olhei pro outro. Pra onde eu ia agora? Qual caminho que tem que pegar? Eu nem sei onde tô!
Foi quando ouvi uma voz.
Homem — Ela está aqui, p***a! Dessa vez façam o trabalho de vocês direito. Sim, dê um jeito. Quero ela de volta! Espero que não haja falhas.
Meu corpo congelou. Eu conheço essa voz.
O homem tava com um troço no ouvido, falando baixo, mas eu ouvi. E quando ouvi, tive certeza. É uma das vozes do cativeiro.
O desespero bateu. Um calor subiu pelo meu pescoço, e minha mão começou a tremer.
Não esperei mais nada. Saí dali rápido, empurrando quem tava no caminho. O desespero tomou conta, minhas mão tremia, meu peito tava apertado. Eu corri, corri sem olhar pra trás. Só queria sumir!
Mas aí, ploft!
Malditos salto!
Caí com tudo no chão. Joelhos ralaram, mão bateu forte no chão frio, mas não parei pra sentir dor. Arranquei eles sem pensar, jogando pra longe, e me levantei de novo. Meu pé doía, mas eu num ia parar. Não podiam me pegá. Não podiam me levá de volta!
As lágrima começaram a caí, mas num parei. Continuei correndo, correndo sem rumo, sem direção. Só queria fugir. Só queria sumir!
Não esperei. Saí dali o mais rápido que pude.
Meus pés tentavam acompanhar o medo que tomava conta de mim. Eu corri. Corri sem pensar, sem olhar pra trás. Só queria sumir dali.