A noite caiu lentamente sobre a cidade, mas dentro do hospital o tempo parecia seguir outro ritmo.
Do lado de fora, os carros ainda cruzavam as avenidas iluminadas, pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas e os restaurantes próximos começavam a encher com o movimento noturno. A vida seguia seu curso normal para todos.
Mas naquele andar do hospital, tudo parecia mais lento.
Mais silencioso.
Mais pesado.
O quarto de Emily estava mergulhado numa tranquilidade quase frágil, iluminado apenas pela luz suave que escapava do corredor e pelos pequenos monitores que acompanhavam seus sinais vitais. O som constante das máquinas criava um ritmo quase hipnótico, como se lembrasse constantemente que ela ainda estava ali.
Viva.
Respirando.
Lutando para se recuperar.
Emily permanecia acordada.
Apesar do cansaço extremo que pesava em cada parte do seu corpo, o sono simplesmente não vinha.
Seu corpo estava pesado, dolorido, como se cada músculo tivesse sido forçado além do limite. Mesmo levantar levemente a cabeça exigia esforço.
Mas o pior não era a dor física.
Era a mente.
Havia coisas demais acontecendo dentro da sua cabeça.
Pensamentos demais.
Memórias demais.
Perguntas demais.
A notícia de que o acidente havia sido provocado ainda ecoava dentro dela como um sino insistente.
Alguém tentou me matar.
A frase parecia absurda.
Irreal.
Quase como algo que acontecia apenas em filmes ou notícias distantes.
Mas aquilo tinha acontecido com ela.
A lembrança do impacto ainda aparecia em flashes curtos dentro de sua mente.
O carro.
A velocidade.
O grito do motorista.
O som do metal se esmagando.
Emily fechou os olhos por um instante, tentando afastar a memória.
Mas outra imagem veio logo em seguida.
A mensagem.
O número privado.
As palavras cruéis que surgiram na tela do celular poucos minutos antes do acidente.
“Você deveria ter morrido junto com seus pais.”
Emily sentiu um arrepio percorrer seus braços.
Mesmo deitada sob os cobertores do hospital, uma sensação fria percorreu sua espinha.
Seu olhar se moveu lentamente pelo quarto até encontrar Alexander.
Ele estava encostado perto da janela, olhando para a cidade lá fora.
Os braços cruzados.
A postura rígida.
A expressão séria.
A luz fraca refletia parcialmente em seu rosto, criando sombras suaves que destacavam o contorno do seu maxilar e os olhos concentrados.
Parecia completamente absorvido pelos próprios pensamentos.
Durante aquela semana, ele praticamente não havia saído dali.
Os médicos comentavam.
As enfermeiras cochichavam.
Até Clara havia mencionado isso com um olhar surpreso.
Alexander chegava cedo.
Ficava até tarde.
Às vezes dormia na cadeira ao lado da cama.
Em algumas noites, Emily havia acordado brevemente e o encontrado ali, com a cabeça inclinada para trás, os olhos fechados, exausto.
Emily não sabia exatamente como se sentir sobre aquilo.
Porque, no fundo, tudo aquilo não fazia sentido.
O casamento deles era apenas um acordo.
Uma cláusula.
Um contrato.
Nada além disso.
Não havia promessas.
Não havia sentimentos envolvidos.
Ou pelo menos… era isso que eles tinham combinado.
Mas ainda assim…
Havia algo reconfortante em saber que ele estava ali.
Algo que aquecia discretamente seu peito quando ela o via naquela cadeira.
Como se, de alguma forma, ela não estivesse sozinha.
Alexander virou-se lentamente, como se tivesse sentido o olhar dela.
Os olhos dele encontraram os dela imediatamente.
— Não conseguiu dormir?
A voz dele era baixa, calma.
Emily balançou levemente a cabeça.
— Não.
Alexander caminhou até a cadeira ao lado da cama e sentou-se novamente.
Ele parecia cansado, mas ainda atento.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
O silêncio não era exatamente desconfortável.
Mas havia muitas coisas não ditas pairando no ar.
Perguntas.
Medos.
Pensamentos que nenhum dos dois ainda sabia como colocar em palavras.
— Você deveria descansar — disse ele finalmente.
Emily soltou um pequeno suspiro.
— É difícil descansar quando alguém tentou me matar.
Alexander não respondeu imediatamente.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou as mãos, olhando para o chão por alguns instantes.
Como se estivesse organizando os próprios pensamentos antes de falar.
— A polícia vai investigar — disse ele por fim. — Já estão analisando as câmeras da estrada e tentando identificar o outro carro.
Emily observava cada movimento dele.
Cada expressão.
Cada pausa.
Havia algo diferente na forma como Alexander se comportava agora.
Algo mais atento.
Mais protetor.
Como se aquela situação tivesse despertado nele um instinto que antes não estava ali.
— Você acredita que foi alguém da empresa? — ela perguntou.
Alexander levantou os olhos lentamente.
— É possível.
— Ou da família de Isadora.
Ele não respondeu.
Mas o silêncio dele foi resposta suficiente.
Emily lembrou-se imediatamente do olhar de Catherine naquela tarde.
Aquele olhar frio.
Duros.
Carregado de algo difícil de explicar.
Não era apenas antipatia.
Era algo mais profundo.
Mais sombrio.
Quase… ameaçador.
Ela engoliu em seco.
— Alexander…
— Sim?
— Você viu o jeito que Catherine me olhou hoje?
Ele franziu levemente a testa.
— Eu vi.
Emily desviou o olhar para o teto.
— Aquilo me deixou com medo.
Alexander ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois se levantou da cadeira e caminhou até a cama.
Ele parou ao lado dela.
— Emily.
Ela virou o rosto para olhá-lo.
— Enquanto você estiver comigo… ninguém vai tocar em você.
A frase foi dita com tanta firmeza que Emily sentiu algo estranho apertar dentro do peito.
Algo quente.
Algo inesperado.
Ela tentou disfarçar com um pequeno sorriso cansado.
— Você fala como se fosse meu guarda-costas.
Alexander deu um leve sorriso de canto.
— Talvez eu tenha que começar a agir como um.
Emily soltou uma pequena risada fraca.
Mas a verdade era que as palavras dele a haviam afetado mais do que ela queria admitir.
O silêncio voltou ao quarto.
Alguns minutos se passaram.
O corpo de Emily começava a ceder ao cansaço.
O peso da recuperação finalmente começava a vencer.
— Alexander…
— Hm?
— Obrigada.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Pelo quê?
— Por não ter ido embora.
Ele não respondeu imediatamente.
Apenas ficou olhando para ela.
Como se estivesse analisando aquela pergunta.
Como se procurasse dentro de si mesmo uma resposta que talvez nem ele ainda entendesse completamente.
Depois disse suavemente:
— Vá dormir.
Emily fechou os olhos lentamente.
E dessa vez o sono finalmente veio.
Sua respiração começou a ficar mais calma.
Mais profunda.
Alexander permaneceu ali por alguns minutos, observando o rosto dela relaxar aos poucos.
A tensão que sempre marcava sua expressão parecia ter desaparecido enquanto ela dormia.
Ela parecia mais jovem assim.
Mais tranquila.
Quando teve certeza de que ela estava dormindo, levantou-se silenciosamente.
Caminhou até o corredor.
A mãe dele ainda estava ali.
Helena Laurent levantou os olhos quando ele apareceu.
— Ela está dormindo?
Alexander assentiu.
Helena suspirou de alívio.
— Graças a Deus.
Alexander passou a mão pelos cabelos.
O cansaço agora começava a aparecer em seus próprios ombros.
— Mãe… isso não foi um acidente.
Ela o observou atentamente.
— Eu imaginei.
Ele apoiou o ombro na parede.
— Alguém tentou matar Emily.
Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você suspeita de alguém?
Alexander pensou imediatamente em várias pessoas.
Vincent.
Malena.
Catherine.
Todos eles tinham motivos.
Todos eles tinham ressentimentos.
E todos eles tinham muito a ganhar com a morte de Emily.
Mas ele ainda não tinha provas.
— Ainda não.
Helena cruzou os braços.
— Então descubra.
Alexander levantou os olhos.
O olhar dele estava mais duro agora.
Mais frio.
Mais determinado.
— Eu vou.
Ele olhou novamente para o quarto através do vidro.
Emily dormia tranquilamente agora.
Helena observou o filho por alguns segundos.
Depois perguntou calmamente:
— Você está fazendo isso apenas por causa do acordo?
Alexander não respondeu.
Mas a resposta estava clara em seu olhar.
Helena deu um pequeno sorriso discreto.
— Eu sabia.
Alexander franziu a testa.
— Sabia o quê?
— Que essa história de casamento de fachada não ia durar muito.
Ele soltou um pequeno suspiro cansado.
— Não comece.
Helena deu um leve tapinha no braço dele.
— Vá descansar um pouco.
Alexander voltou a olhar para o quarto através do vidro.
Emily dormia.
Por um momento ele apenas ficou ali.
Observando.
Pensando.
Alguém tentou matá-la.
E isso significava apenas uma coisa.
A guerra dentro da família de Isadora estava apenas começando.
E Alexander Laurent não tinha a menor intenção de deixar Emily Carter enfrentar essa guerra sozinha.