Eu não costumo sair de uma reunião sem encerrar o assunto.
Sempre considerei isso uma falha estratégica.
Mas naquele dia eu simplesmente saí.
Ainda me lembro da expressão de Emily Carter quando me levantei da mesa naquele restaurante. A maneira como ela tentou manter a postura profissional enquanto eu deixava claro o que pensava da proposta.
Um casamento.
Um acordo.
Uma solução empresarial disfarçada de compromisso pessoal.
Eu caminhei até o carro com a mandíbula travada.
Meu orgulho estava ferido.
Não porque a proposta fosse absurda.
Mas porque ela fazia sentido.
Esse era o problema.
Eu estaria me vendendo.
Quando entrei no carro, meu motorista perguntou:
— Para o escritório, senhor Laurent?
Respirei fundo.
— Sim.
Durante o trajeto, tentei afastar aquilo da mente.
Concentrei-me nos números da empresa, nas reuniões marcadas para o resto da tarde, nos relatórios que precisava revisar.
Mas a conversa continuava voltando.
Emily Carter.
A forma calma como ela explicou a situação.
O jeito direto como colocou a proposta sobre a mesa.
Sem rodeios.
Sem drama.
Sem fingir que aquilo era algo além de um acordo.
Um casamento de conveniência.
Era quase... admirável.
E irritante ao mesmo tempo.
Quando cheguei ao escritório da Laurent & Vale, o ambiente estava exatamente como eu havia deixado.
Funcionários trabalhando em silêncio.
Diretores andando pelos corredores com expressões tensas.
A falência iminente de uma empresa tem um cheiro próprio.
E isso começa do topo até em baixo.
Eu já estava começando a reconhecê-lo.
Passei o resto da tarde em reuniões.
Com advogados.
Com consultores financeiros.
Um investidor que parecia interessado até descobrir o tamanho real das dívidas.
Quando finalmente entrei no meu escritório, já passava das oito da noite.
A cidade brilhava além da janela.
Sentei-me na cadeira e afrouxei levemente a gravata.
Então abri novamente o relatório financeiro principal da empresa.
Eu já havia analisado aqueles números dezenas de vezes.
Mas naquela noite eles pareciam ainda piores.
Dívidas.
Contratos perdidos.
Projetos cancelados.
A Laurent & Vale não estava apenas em dificuldades.
Ela estava sufocando.
Passei a mão pelo rosto.
Pela primeira vez em anos, tive que admitir algo para mim mesmo.
Talvez eu não tivesse recursos suficientes para salvá-la sozinho.
Aquele pensamento ficou ecoando na minha mente.
E, inevitavelmente, trouxe outro junto.
Emily Carter.
Eu levantei-me da cadeira e caminhei até a janela.
A proposta dela havia sido direta.
A Montclair Holdings tinha capital suficiente para estabilizar a empresa.
Investimento.
Parceria.
Casamento.
Eu soltei um pequeno riso sem humor.
Era quase irônico.
Passei anos recusando investidores que queriam controlar parte da empresa.
E agora a solução poderia vir de algo ainda mais inesperado.
Um casamento.
Não consegui evitar pensar novamente nela.
Emily Carter não parecia o tipo de mulher que faz propostas desesperadas.
Ela parecia… controlada.
Inteligente.
Calculada.
Mas havia algo mais.
Algo que eu não conseguia identificar.
Eu tinha a estranha sensação de já ter visto aqueles olhos antes.
Não lembrava de onde.
Mas a sensação era forte o suficiente para me incomodar.
Afastei-me da janela e peguei meu telefone.
Hesitei por alguns segundos.
Então liguei para minha mãe.
Ela atendeu no terceiro toque.
— Alexander?
— Ainda está acordada?
— Claro. Eu estava esperando sua ligação.
Sentei-me novamente na cadeira.
— Por quê?
— Porque você não costuma ignorar problemas.
Sorri levemente.
Ela me conhecia bem demais.
— Recebi uma proposta hoje.
— De quem?
— Emily Carter.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— A nova CEO da Montclair?
— A própria.
— Que tipo de proposta?
Eu hesitei um segundo.
— Um casamento.
Minha mãe não respondeu imediatamente.
Depois de alguns segundos, ouvi um pequeno suspiro.
— Interessante.
Franzi a testa.
— Essa não foi exatamente minha reação.
— E qual foi?
— Eu recusei.
Outro silêncio.
— Imagino.
Levantei-me novamente e comecei a caminhar pelo escritório.
— Ela quer manter o controle da empresa.
— E você precisa salvar a sua.
Direta como sempre.
— Eu sei.
— Então qual é o problema?
— Orgulho, talvez.
Minha mãe riu suavemente.
— Orgulho nunca pagou dívidas, Alexander.
Pare de andar.
— A senhora aceitaria uma nora de fachada?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Eu aceitaria uma solução.
A resposta foi simples.
Prática.
Como sempre.
— Além disso — ela continuou — Emily Carter tem uma reputação impecável.
Encostei-me na mesa.
— Eu percebi.
— Poderia ser um acordo interessante.
Olhei novamente para os números espalhados sobre a mesa.
A empresa precisava de um milagre.
Talvez aquilo fosse o mais próximo que eu teria.
— Não precisaríamos nos amar — murmurei.
Minha mãe respondeu calmamente:
— Nem todo casamento começa com amor.
Fiquei em silêncio.
Mas a verdade já estava se formando na minha mente.
Ela tinha razão.
Eu não precisava amar Emily Carter.
Nem prometer sentimentos que não existiam.
Era apenas um acordo.
Um contrato.
Uma solução para dois problemas diferentes.
Mas havia outra coisa que me incomodava.
Eu realmente queria descobrir por que aquela mulher me parecia tão familiar.
Talvez aceitar a proposta me desse essa resposta.
Voltei para a cadeira e desliguei o telefone.
Olhei para o relógio.
Ainda não era tarde.
Peguei o paletó.
Talvez fosse hora de terminar aquela conversa.
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O prédio da Montclair Holdings estava quase vazio quando cheguei.
A recepcionista parecia surpresa ao me ver.
— Senhor Laurent.
— Boa noite.
— A senhora Carter ainda está no escritório.
Assenti.
— Posso subir?
Ela hesitou apenas um segundo.
— Claro.
O elevador subiu silenciosamente até o último andar.
Quando as portas se abriram, o corredor estava quase escuro.
Apenas algumas luzes permaneciam acesas.
Caminhei até a porta do escritório principal.
Ela estava entreaberta.
Bati levemente.
E entrei.
Emily estava sentada atrás da mesa, olhando para a tela do computador.
Quando levantou os olhos e me viu, congelou.
Eu encostei a porta atrás de mim.
Observei a surpresa em seu rosto por alguns segundos.
Então disse calmamente:
— Sobre a sua proposta…
Dei alguns passos em direção à mesa.
— Acho que podemos conversar novamente.