O silêncio que ficou entre eles não era confortável.
Era pesado.
Denso.
Carregado de coisas não ditas.
Emily foi a primeira a quebrá-lo.
— Eu vou me arrumar.
A voz saiu firme, profissional, como se estivesse em uma reunião e não… naquela situação.
Alexander apenas assentiu.
Mas não desviou o olhar.
Ela passou por ele.
Tentando não sentir.
Tentando não lembrar.
Tentando ignorar completamente o fato de que, há poucas horas, estavam perdidos um no outro.
Mas o corpo não esquecia.
E isso era o pior.
Ela entrou no closet.
Fechou a porta.
E só então soltou o ar que estava prendendo.
— O que você está fazendo, Emily?… — murmurou para si mesma.
Se encostou na porta por alguns segundos.
Fechou os olhos.
Mas bastou isso para que tudo voltasse.
O toque.
A voz dele.
O jeito como ele dizia seu nome.
Ela abriu os olhos rapidamente.
— Não.
Caminhou até o espelho.
Se encarou.
A mulher que estava ali não parecia a mesma de dias atrás.
Havia algo diferente.
Mais vulnerável.
Mais… viva.
E isso a assustava.
Muito.
Emily respirou fundo e começou a se arrumar.
Escolheu uma roupa impecável.
Elegante.
Impecável como sempre.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se estivesse no controle.
Porque era isso que ela precisava parecer.
No fundo, não importava o que sentia.
O mundo lá fora não podia ver isso.
Quando voltou para o quarto, Alexander já não estava mais ali.
Mas o quarto ainda carregava a presença dele.
O cheiro.
A energia.
Ela desviou o olhar.
Pegou a bolsa.
E saiu.
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O café da manhã foi… estranho.
Dona Marta, a governanta, já estava na cozinha, organizando a mesa com a precisão de sempre.
Quando viu Emily entrar, abriu um sorriso caloroso.
— Bom dia, senhora.
Emily respondeu automaticamente.
— Bom dia, Marta.
Mas havia algo diferente nela.
E Marta percebeu.
Ela sempre percebia.
Emily sentou-se à mesa.
Pegou a xícara de café.
Mas não bebeu imediatamente.
Estava distraída.
Completamente.
— Dormiu bem? — perguntou Marta com naturalidade.
Emily quase engasgou com o próprio ar.
— Sim.
Resposta rápida demais.
Marta arqueou levemente a sobrancelha.
Mas não comentou.
Alexander entrou na cozinha naquele exato momento.
Como se tivesse esperado.
Como se soubesse.
O olhar dele foi direto para Emily.
E ficou ali.
Por tempo demais.
— Bom dia — disse ele.
— Bom dia — respondeu Emily, sem olhar diretamente para ele.
Erro.
Porque ele percebeu.
Alexander sentou-se à mesa.
Calmo.
Seguro.
Perigoso.
— Dormiu bem? — ele repetiu a pergunta, mas dessa vez com um leve tom provocador.
Emily finalmente olhou para ele.
E se odiou por isso.
Porque aquele olhar…
Aquele maldito olhar…
Carregado de memórias.
— Sim — respondeu, firme.
— Que bom — disse ele, com um pequeno sorriso de canto.
Marta, que observava tudo, decidiu sabiamente se retirar.
— Vou verificar o jardim.
E saiu.
Deixando os dois sozinhos.
O silêncio voltou.
Mas agora era diferente.
Tenso.
Quase palpável.
Alexander apoiou os braços na mesa.
— Você sempre foge assim?
Emily colocou a xícara na mesa com mais força do que o necessário.
— Eu não estou fugindo.
— Está sim.
— Não estou.
— Está.
Emily respirou fundo.
— Eu só estou sendo racional.
Alexander inclinou levemente a cabeça.
— Racional?
— Sim.
Ela o encarou agora.
— Nós temos um acordo.
— Eu sei.
— E eu não vou estragar tudo por causa de uma… noite.
Alexander riu baixo.
— Uma noite?
Ele se inclinou um pouco para frente.
— Você realmente acha que foi só isso?
Emily não respondeu.
Porque não sabia o que dizer.
— Foi mais do que isso — ele continuou, mais sério agora.
— Para você talvez.
A frase saiu mais fria do que ela pretendia.
E isso o atingiu.
Ela percebeu.
Mas não voltou atrás.
Alexander recostou-se na cadeira.
O olhar dele endureceu levemente.
— Entendi.
Emily levantou-se.
— Eu tenho trabalho.
— Claro que tem.
Ela pegou a bolsa.
— Tenha um bom dia.
— Você também… esposa.
Ela saiu antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Mas o coração dela…
Ficou para trás.
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O prédio da empresa estava como sempre.
Imponente.
Organizado.
E completamente alheio ao caos que existia dentro dela.
Assim que Emily entrou, todos cumprimentaram.
— Bom dia, senhora Laurent.
— Bom dia.
— Bom dia.
Ela respondeu a todos.
Com um sorriso.
Perfeito.
Impecável.
Mas… falso.
Clara, sua secretária, percebeu imediatamente.
Assim que Emily entrou no escritório, Clara a observou atentamente.
— Aconteceu alguma coisa.
Não foi uma pergunta.
Foi uma afirmação.
Emily colocou a bolsa sobre a mesa.
— Não.
Clara cruzou os braços.
— Emily.
— Clara.
— Você está sorrindo demais.
Emily parou por um segundo.
— Isso é um problema?
— Quando é um sorriso forçado… sim.
Silêncio.
Clara aproximou-se um pouco.
— O que aconteceu?
Emily virou-se para a janela.
Observando a cidade.
— Nada que importe.
Clara suspirou.
— Isso tem a ver com o seu marido?
Emily não respondeu.
E isso já foi resposta suficiente.
Clara sorriu levemente.
— Eu sabia.
Emily virou-se imediatamente.
— Não é isso que você está pensando.
Clara arqueou uma sobrancelha.
— Ah, não?
— Não.
Clara deu de ombros.
— Então você só acordou hoje radiante, com esse sorriso amarelo e decidiu vir trabalhar como se estivesse em um comercial de felicidade?
Emily fechou os olhos por um segundo.
— Clara…
— Emily, eu te conheço.
Silêncio.
— O que ele fez?
Emily hesitou.
Mas por pouco.
— Nada.
— O que você fez?
Silêncio novamente.
Clara sorriu.
— Ah…
Emily passou a mão pelos cabelos.
— Não começa.
— Você dormiu com ele.
Emily ficou imóvel.
Clara arregalou os olhos.
— Você dormiu com ele.
— Clara…
— Meu Deus!
Emily respirou fundo.
— Foi um erro.
Clara soltou uma risada.
— Claro que foi, deve ter sido o erro mais gostoso da sua vida
Emily lançou um olhar irritado.
— Eu estou falando sério.
— Eu também.
Clara aproximou-se mais.
— E agora?
Emily olhou novamente para a janela.
— Agora nada.
— Nada?
— Nada.
Clara cruzou os braços.
— Você sempre diz “nada” quando algo enorme aconteceu.
Emily permaneceu em silêncio.
Porque, pela primeira vez…
Ela não tinha controle da situação.
E isso…
A deixava completamente perdida.
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Ao longo do dia, todos perceberam.
Algo estava diferente.
Emily estava impecável.
Como sempre.
Profissional.
Elegante.
Segura.
Mas havia algo…
Fora do lugar.
Ela sorria mais.
Mas não com os olhos.
Respondia tudo corretamente.
Mas parecia distraída.
Em uma reunião importante, um dos diretores chegou a perguntar:
— Senhora Laurent, está tudo bem?
Ela sorriu imediatamente.
— Perfeitamente.
Mas Clara, sentada ao lado, apenas observava.
Porque ela sabia.
Emily não estava nada bem.
E o motivo tinha nome.
Alexander Laurent.
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E enquanto isso…
Do outro lado da cidade…
Alexander olhava para o celular.
O nome dela na tela.
Ele pensava.
No beijo.
Na marca.
Na forma como ela tentou negar.
E no jeito como o corpo dela respondeu.
Ele sorriu levemente.
— Você pode fugir o quanto quiser, Emily…
A voz dele saiu baixa.
Quase um sussurro.
— Mas sempre vou ti encontrar