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1304 Words
O Palácio Laurent estava irreconhecível. Candelabros de cristal desciam do teto como constelações artificiais, espalhando reflexos dourados sobre o mármore polido. A música envolvia o ambiente com sofisticação e mistério. O Baile de Máscaras Montclair era mais do que tradição — era território de predadores sociais vestidos de seda. E naquela noite, Emily decidiu que não seria presa. Não seria órfã. Não seria protegida. Não seria futura herdeira. Seria apenas instinto. Seu vestido preto moldava-lhe o corpo com precisão elegante. A f***a lateral revelava a curva firme da perna quando caminhava, e a máscara prateada destacava o contorno delicado de seu rosto, deixando seus lábios como a única promessa visível. Ela desceu as escadas lentamente. E então o viu. Não foi apenas notar. Foi reconhecer. Ele estava encostado em uma coluna, como se o salão inteiro lhe pertencesse e ele estivesse entediado demais para reivindicar. A máscara n***a escondia parte do rosto, mas não o suficiente para disfarçar a linha forte do maxilar. O cabelo escuro estava impecavelmente alinhado para trás — não rígido, mas perfeitamente ajustado, como se cada fio soubesse exatamente onde deveria estar. O terno sob medida abraçava seus ombros largos e descia pelo torso com precisão cirúrgica. Não era apenas elegância. Era estrutura. Força. Controle. Emily inclinou levemente o rosto. Observou-o como um gato observa algo que decidiu caçar — silenciosa, estratégica, curiosa. Ele não sorria. Mas havia algo nos olhos dele. Algo atento. Algo que a estava estudando da mesma forma. Ela percorreu com os olhos a largura dos ombros, o corte do paletó, o modo como ele apoiava o peso do corpo em apenas uma perna — relaxado, mas pronto. Era o tipo de homem que ocupava espaço sem pedir permissão. E ela sentiu. Sentiu a vontade inesperada de descobrir se os músculos sob aquele tecido eram tão firmes quanto pareciam. Sentiu curiosidade sobre como aquelas mãos se moveriam fora da pista de dança. Sentiu o impulso imprudente de ser imprudente. Ele percebeu que estava sendo observado. E veio. Cada passo dele era seguro, sem pressa, como um predador que sabe que a presa não vai fugir. Ou talvez… que também quer ser caçado. — Posso roubar esta dança? — a voz grave vibrou baixo, como um toque invisível na pele. Emily ergueu o queixo levemente. — Só se prometer que não vai tentar descobrir quem eu sou. Os olhos dele percorreram o contorno do rosto dela, demorando-se nos lábios. — Prefiro imaginar. Ela colocou a mão na dele. O contato foi elétrico. A palma dele era quente, firme, envolvente. Ele não segurou demais. Mas também não foi delicado. Na pista de dança, ele a conduziu com precisão impecável. A mão na cintura dela era sólida — não invasiva, mas determinada. Cada giro era calculado. Cada aproximação parecia intencional. Emily levantou o olhar para ele. De perto, podia sentir o perfume amadeirado, sofisticado, masculino. Os músculos sob o tecido do paletó se moviam com fluidez contida. Ela percebeu como ele mantinha a postura reta, como seus antebraços tensionavam levemente ao conduzi-la. E algo dentro dela aqueceu. Ela imaginou — por um segundo longo demais — como seria deslizar as mãos pelo peito dele. Sentir a firmeza. Testar o controle. O pensamento a fez sorrir discretamente. — Você parece perigosa — ele murmurou. — E você parece gostar disso. Os dedos dele pressionaram levemente sua cintura. O ar entre os dois mudou. Já não era apenas dança. Era tensão. Quando a música terminou, ele não a soltou de imediato. A proximidade fez o coração dela acelerar — não de nervosismo. Mas de antecipação. Ele aproximou o rosto do dela. — Vamos sair daqui. Não era um convite comum. Era uma proposta carregada de intenção. Emily sabia que deveria manter o controle. Mas naquele momento, o controle era exatamente o que ela queria perder. Nos jardins, sob a luz suave das lanternas, ela se virou para ele. O vento moveu discretamente os cabelos dela. Ele ergueu a mão e afastou uma mecha do rosto dela — gesto simples, mas carregado. Ela sentiu. Não apenas o toque. Mas a promessa. Ele a olhava agora com menos distância e mais desejo contido. Emily aproximou-se um passo. Sentiu o peito dele quase tocando o seu. E foi então que a decisão se formou inteira dentro dela. Ela queria senti-lo. Não como futura executiva. Não como protegida de ninguém. Mas como mulher. — Última chance para desistir — ele disse, voz baixa. Ela segurou a lapela do terno, puxando-o apenas o suficiente para que seus corpos se encostassem. — Eu não costumo fugir do que desejo. E o beijo aconteceu. Intenso. Profundo. Escolhido. As mãos dele desceram firmes pela curva das costas dela. Ela sentiu os músculos sob a camisa quando deslizou as mãos pelo peito dele, explorando, confirmando o que já imaginava. Sólido. Quente. Real. Aquela noite não seria um erro. Seria uma escolha. E Emily nunca escolhia errado Ele despertou com a sensação de ausência. Não foi o silêncio que o fez abrir os olhos. Foi o frio. A cama ao lado estava vazia. Por um segundo, ele permaneceu imóvel, tentando distinguir sonho de realidade. O quarto ainda guardava o perfume dela — leve, feminino, impossível de ignorar. Ele virou o rosto. A máscara ainda estava sobre metade do próprio rosto. Sentou-se lentamente. Então viu o cartão. Pegou-o entre os dedos, lendo a frase escrita com caligrafia firme: "Algumas histórias são perfeitas porque não continuam." O canto da boca dele se ergueu, mas não em diversão. Em desafio. — Veremos — murmurou para o quarto vazio. Ele se levantou, passando a mão pelo cabelo escuro, agora levemente desalinhado. A memória da noite não vinha fragmentada — vinha inteira. A forma como ela o olhava. Como um felino que escolhe. Não que implora. A maneira como ela tomou a iniciativa do beijo. Como segurou a lapela do terno sem hesitar. Ela não era inexperiente. Também não era ingênua. Era estratégica até no desejo. Ele fechou os olhos por um instante, recordando o toque dela percorrendo seu peito, a maneira como reagia sem perder completamente o controle. Mas foi outro detalhe que o fez abrir os olhos novamente. A marca. Pequena. Delicada. Em forma de meia-lua. Na parte superior da coxa esquerda. Ele tinha memória quase fotográfica. Sempre tivera. E aquela imagem gravou-se como assinatura. Ele caminhou até a janela da suíte e afastou a cortina. O amanhecer coloria o céu com tons de dourado e azul pálido. Lá embaixo, convidados começavam a deixar o palácio. Carros luxuosos partiam um após o outro. Ele poderia descobrir quem ela era. Bastava perguntar. Cruzar listas. Usar contatos. Mas algo nele hesitou. Se ela queria ser mistério… Ele respeitaria o jogo. Por enquanto. Dobrou o cartão e colocou-o no bolso interno do paletó. Não como lembrança. Como promessa. --- Na ala principal do palácio, Emily atravessava o corredor com passos firmes, apesar da noite em claro. Seu coração ainda batia em ritmo diferente — não por arrependimento. Mas por intensidade. Ela entrou discretamente na ala reservada à família Montclair. Ao fechar a porta de seu quarto, encostou-se nela por alguns segundos. Respirou fundo. O que fizera não combinava com a imagem que construíra ao longo dos anos. Ela sempre foi disciplina. Controle. Planejamento. Mas aquela noite fora escolha pura. E ela não se arrependia. Caminhou até o espelho. O batom estava levemente borrado. O cabelo desalinhado. E havia algo diferente no olhar. Algo mais vivo. Ela tocou levemente o próprio reflexo. — Uma noite — sussurrou para si mesma. — Apenas isso. Seria suficiente. Ela jamais imaginaria que aquele homem de máscara n***a voltaria para sua vida. Não como memória. Mas como necessidade estratégica. E muito menos imaginaria que, anos depois, seria obrigada a propor a ele algo ainda mais perigoso do que uma noite sem nomes:
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