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1130 Words
O sol da manhã entrou lentamente pelas cortinas do quarto, espalhando uma luz suave e dourada pelo espaço silencioso. A casa ainda estava quieta, como se o próprio lugar soubesse que seus moradores precisavam de descanso depois de semanas tão difíceis. No quarto principal, a tranquilidade parecia quase frágil. Emily dormia profundamente. Pela primeira vez desde o acidente, seu rosto estava completamente relaxado. A respiração estava calma, regular, e o peso emocional que a havia consumido nos últimos dias parecia finalmente ter se dissipado durante aquela noite. Mas ela não estava sozinha. Alexander ainda estava na cama ao lado dela. Na verdade… eles estavam um pouco mais próximos do que qualquer um dos dois havia planejado. Durante a madrugada, Emily havia se aproximado inconscientemente. Agora estava parcialmente deitada contra ele, com a cabeça apoiada em seu peito e uma das mãos segurando levemente a camisa dele, como se ainda tivesse medo de que ele desaparecesse. Alexander abriu os olhos lentamente. Nos primeiros segundos ele apenas ficou olhando para o teto, ainda preso entre o sono e a consciência. Então percebeu o peso suave contra seu peito. Seu olhar desceu lentamente. Emily. Muito perto. Muito mais perto do que ele lembrava quando havia fechado os olhos. Ele piscou algumas vezes. Seu primeiro impulso foi se mover, mas parou imediatamente quando percebeu que ela estava dormindo profundamente. Alexander respirou devagar. A situação era… complicada. Eles estavam em um casamento de fachada. E agora estavam literalmente abraçados na mesma cama. Ele deixou escapar um pequeno suspiro silencioso. — Ótimo… — murmurou para si mesmo. Foi nesse momento que Emily começou a se mexer. Primeiro foi um pequeno movimento da cabeça. Depois seus olhos se abriram lentamente. Por alguns segundos ela permaneceu ali, ainda sonolenta, tentando entender onde estava. Então percebeu algo. Algo quente sob sua bochecha. Algo… sólido. Ela levantou o olhar lentamente. E encontrou o rosto de Alexander muito próximo. Muito. Muito próximo. Emily congelou. Alexander também. Os dois ficaram completamente imóveis por alguns segundos. O silêncio no quarto parecia quase ensurdecedor. Emily piscou. Depois piscou novamente. Então seu cérebro finalmente processou a situação. Ela estava deitada sobre ele. Literalmente sobre ele. Sua mão ainda segurava a camisa dele. E sua perna estava parcialmente cruzada sobre a dele. O rosto dela ficou vermelho instantaneamente. — Eu… — começou ela. Alexander levantou lentamente uma sobrancelha. — Bom dia? Emily imediatamente tentou se afastar. Mas no movimento rápido acabou se enrolando nos lençóis. — Espera…! Ela tentou se levantar… mas quase caiu da cama. Alexander reagiu por reflexo e segurou seu braço. — Cuidado! Emily ficou completamente vermelha agora. — Isso é muito constrangedor… Alexander soltou uma pequena risada. Não conseguiu evitar. — Eu não ia dizer nada. Ela olhou para ele com indignação. — Você estava acordado?! — Faz alguns minutos. — E você não me acordou?! Ele deu de ombros. — Você parecia confortável. Emily levou as mãos ao rosto. — Eu quero desaparecer. Alexander cruzou os braços, divertindo-se claramente. — Você foi quem pediu para eu dormir aqui. Ela apontou o dedo para ele. — Eu pedi para você dormir na cama, não para me usar como travesseiro humano! Ele riu novamente. — Tecnicamente… foi você quem me usou. Emily abriu a boca para responder… mas não encontrou nenhuma resposta boa o suficiente. Então apenas virou o rosto para o outro lado, completamente envergonhada. — Eu odeio esta manhã. Alexander levantou-se da cama ainda sorrindo. — Eu achei uma manhã bem interessante. Emily pegou um travesseiro e jogou nele. — Sai do meu quarto! Ele pegou o travesseiro no ar. — Esse também é tecnicamente meu quarto. — Não hoje! Alexander saiu rindo. Emily afundou o rosto nas mãos. — Meu Deus… --- Algum tempo depois, Emily desceu para o café da manhã ainda tentando recuperar sua dignidade. A cozinha estava iluminada pelo sol da manhã, e o aroma de café fresco preenchia o ambiente. Marta, a governanta, organizava a mesa com a tranquilidade de quem parecia fazer aquilo há décadas. — Bom dia, senhora Laurent. Emily sorriu educadamente. — Bom dia, Marta. — Dormiu bem? Emily hesitou. — Sim… relativamente bem. Marta colocou uma xícara de café diante dela. — O senhor Laurent já está no jardim. Emily congelou por um segundo. — Ele… está? — Sim. Parece estar de ótimo humor hoje. Emily estreitou os olhos. — Claro que está. Ela tomou um gole de café tentando se recompor. Mas antes que pudesse escapar para outro lugar da casa, Alexander entrou pela porta da cozinha. Ele usava uma camisa casual de mangas dobradas e calças claras. O cabelo estava levemente desalinhado pelo vento do jardim. E, pior de tudo… Ele estava sorrindo. Emily imediatamente desviou o olhar. Alexander sentou-se à mesa. — Bom dia, esposa. Ela quase engasgou com o café. — Não me chame assim. Marta fingiu não perceber nada e continuou arrumando a mesa. Alexander pegou uma torrada. — Dormiu bem? Emily olhou para ele com um olhar mortal. — Se você fizer mais algum comentário sobre a manhã… — Eu não disse nada. — Ainda. Ele levantou as mãos em rendição. — Tudo bem, tudo bem. Mas o sorriso no rosto dele continuava lá. E isso irritava Emily mais do que deveria. Depois de alguns minutos de silêncio, Alexander falou novamente: — Como você está se sentindo hoje? Ela respirou fundo. — Melhor. — Sem tontura? — Um pouco… mas nada sério. Ele assentiu. — Ótimo. Emily hesitou por um momento antes de perguntar: — A polícia… disse alguma coisa? O sorriso dele desapareceu imediatamente. — Ainda estão investigando. — Nenhuma pista? — Ainda não. Emily olhou para a mesa. A lembrança do acidente ainda era muito recente. Alexander observou a expressão dela. — Ei. Ela levantou os olhos. — Eu disse que nada vai acontecer com você. Ela respirou fundo. — Eu sei. Mas a verdade era que o medo ainda estava ali. Silencioso. Escondido. Alexander levantou-se da mesa. — Venha. — Para onde? — Você precisa de ar fresco. Emily hesitou, mas acabou se levantando. Eles caminharam até o jardim. O lugar estava lindo naquela manhã. As flores estavam abertas, o gramado perfeitamente cuidado e o sol iluminava tudo com uma tranquilidade quase reconfortante. Emily caminhou lentamente pelo caminho de pedras. Alexander caminhava ao lado dela. Por alguns minutos, nenhum dos dois falou. Mas o silêncio dessa vez era confortável. Finalmente Emily disse: — Obrigada. Alexander olhou para ela. — Pelo quê? — Por ontem à noite. Ele deu um pequeno sorriso. — Você estava com medo. — Ainda estou um pouco. Alexander observou o rosto dela. Então respondeu calmamente: — Eu estou aqui. Emily olhou para ele por alguns segundos. E pela primeira vez desde que tudo aquilo começou… Ela realmente acreditou nisso.
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