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1229 Words
O dia passou de forma tranquila demais para alguém que havia passado pelas semanas turbulentas que Emily vivera. A mansão Laurent parecia respirar uma calma nova. Talvez fosse pelo número reduzido de funcionários, talvez pela forma como Marta mantinha a casa organizada e acolhedora, ou talvez simplesmente porque, pela primeira vez desde o acidente, Emily não estava em um hospital, cercada por máquinas e médicos. Ainda assim, algo dentro dela permanecia inquieto. Era como se o silêncio da casa escondesse pensamentos que ela ainda não queria enfrentar. Durante a tarde, Emily tentou se distrair. Passou um tempo na biblioteca da casa, observando as estantes cheias de livros antigos que Alexander aparentemente colecionava. Depois caminhou um pouco pelo jardim, acompanhada por Marta, que parecia ter uma energia quase maternal ao conversar com ela. — O senhor Laurent nunca teve muita gente nesta casa por muito tempo — comentou Marta enquanto observavam as flores. Emily arqueou uma sobrancelha. — Não? — Ele prefere silêncio. Emily olhou para o jardim. Aquilo fazia sentido. Alexander parecia o tipo de homem que carregava muitas coisas dentro de si, mas raramente deixava que alguém percebesse. — Mas ele mudou algumas coisas recentemente — continuou Marta com um sorriso discreto. Emily já sabia a resposta antes de perguntar. — Por minha causa? Marta deu de ombros de forma quase divertida. — Digamos que a casa ficou mais… viva desde que a senhora chegou. Emily não respondeu. Mas aquela frase ficou ecoando em sua mente pelo resto da tarde. --- Quando a noite chegou, a casa ganhou um clima diferente. A iluminação suave da sala de jantar criava uma atmosfera elegante e tranquila. Marta havia preparado um jantar simples, mas extremamente bem feito. Nada exagerado. Nada formal demais. Ainda assim, havia algo especial naquela noite. Emily entrou na sala de jantar vestindo um vestido simples azul escuro que Marta havia separado para ela. Seu cabelo estava solto, caindo suavemente sobre os ombros. Alexander já estava sentado à mesa. Ele levantou os olhos quando ela entrou. E por um segundo ficou completamente em silêncio. Emily percebeu. — O quê? Alexander inclinou levemente a cabeça. — Nada. — Isso foi um “nada” muito suspeito. Ele pegou a taça de vinho. — Você está diferente hoje. Emily franziu a testa. — Diferente como? Ele observou o rosto dela por alguns segundos. — Melhor. Emily desviou o olhar, um pouco sem saber o que responder. Sentou-se à mesa. Por alguns minutos o jantar seguiu normalmente. Conversas simples. Perguntas sobre como ela estava se sentindo. Algumas observações sobre o jardim. Mas pouco a pouco algo mudou. Talvez fosse o vinho. Talvez fosse o silêncio confortável que começou a surgir entre eles. Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, depois de tudo que viveram nas últimas semanas, a distância entre eles já não parecia tão grande. Alexander observava Emily com atenção. Havia algo diferente nela hoje. Algo mais leve. Mais… real. Ela também parecia perceber o olhar dele. — Você está olhando muito. Ele não desviou o olhar. — Estou. Emily tentou manter a calma. — Isso é um pouco estranho. — Talvez. — Então por que continua? Alexander deu um pequeno sorriso. — Porque você está bonita. Emily ficou completamente imóvel por um segundo. O calor subiu imediatamente para seu rosto. — Você… está brincando comigo. — Não. Ela pegou a taça de vinho rapidamente para disfarçar. — Você nunca fala essas coisas. — Talvez eu esteja começando. Emily olhou para ele novamente. E foi nesse momento que percebeu algo que a fez perder o ritmo da respiração por um instante. Alexander não estava brincando. O olhar dele era sério. Profundo. Quase… intenso demais. O silêncio caiu entre eles novamente. Mas desta vez não era confortável. Era carregado. Emily tentou voltar a comer, mas percebeu que Alexander ainda a observava. — O que foi agora? Ele apoiou o cotovelo na mesa. — Posso perguntar uma coisa? — Depende da pergunta. — Você realmente acha que consegue fingir para sempre? Emily ficou confusa. — Fingir o quê? — Que entre nós não existe nada além de um contrato. O coração dela falhou uma batida. — Alexander… — Eu estou falando sério. Ela colocou lentamente o garfo sobre a mesa. — Nós fizemos um acordo. — Eu sei. — E você mesmo disse que manter distância seria mais fácil. Alexander inclinou-se um pouco para frente. — E você ainda acredita nisso? Emily abriu a boca para responder. Mas não conseguiu. Porque naquele momento ela percebeu algo perigoso. Ela também estava começando a duvidar disso. O silêncio entre eles ficou mais pesado. Alexander levantou-se lentamente da cadeira. Emily observou cada movimento dele. — Alexander… Ele parou ao lado dela. Muito perto. — Você também sente isso. Não foi uma pergunta. Emily levantou-se rapidamente. — Isso é uma péssima ideia. — Por quê? — Porque nós sabemos como isso termina. Ele deu um pequeno passo à frente. Agora estavam separados por apenas alguns centímetros. — Como? Emily respirou fundo. — Em um ano. A voz dela saiu mais baixa. — Quando o contrato acabar. Alexander observava o rosto dela com atenção. — Você já decidiu que vai embora? — Sempre foi o plano. Ele levantou uma mão lentamente. E tocou o rosto dela. Um gesto suave. Quase cuidadoso demais. Emily sentiu um arrepio percorrer todo o corpo. — Alexander… Ele não disse nada. Apenas aproximou-se um pouco mais. E então aconteceu. O beijo não foi impulsivo. Foi lento. Quase hesitante no início. Como se ambos estivessem cruzando uma linha invisível que sabiam que existia. Quando os lábios deles finalmente se encontraram, algo mudou. Não havia violência. Não havia pressa. Era apenas… intenso. Profundamente intenso. Emily sentiu o coração disparar. E por alguns segundos ela esqueceu tudo. O contrato. O acordo. O medo. Mas então algo dentro dela despertou. Ela se afastou abruptamente. — Não! Alexander ficou surpreso. — Emily— Ela deu alguns passos para trás. Os olhos dela estavam cheios de conflito. — Isso não pode acontecer. — Por quê? — Porque eu não sou estúpida! A voz dela saiu mais alta agora. — Eu não vou me permitir acreditar nisso. Alexander franziu a testa. — Acreditar em quê? Ela respirou fundo, tentando controlar as emoções. — Que isso é real. O silêncio caiu novamente. Emily balançou a cabeça. — Em um ano você vai seguir sua vida. — Emily— — E eu não vou passar por isso de novo! Os olhos dela estavam cheios de dor agora. — Eu já perdi pessoas demais na minha vida. Ela virou-se rapidamente. — Eu não vou me apegar a alguém que vai desaparecer. E saiu da sala. Subindo as escadas quase correndo. Alexander permaneceu imóvel por alguns segundos. O gosto do beijo ainda estava presente. Mas não era isso que ocupava sua mente. Era outra coisa. Algo que havia acontecido no instante em que os lábios deles se encontraram. Uma memória. Antiga. Muito antiga. Uma noite anos atrás. Um baile de máscaras. Uma jovem misteriosa. Um beijo roubado sob luzes douradas. Alexander franziu lentamente a testa. A sensação era exatamente a mesma. A mesma suavidade. A mesma forma. O mesmo detalhe impossível de ignorar. Ele sussurrou para si mesmo: — Não pode ser… Mas no fundo ele já sabia. Ou pelo menos estava quase certo. Emily. Emily era a jovem mascarada daquela noite.
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