Aurora Soares
1 mês depois...
Minha vida tinha se tornado um inferno com Lorenzo nela. A gente não podia se ver que era discussão na certa, fora as vezes que eu saia de casa e fui provocada na rua por piranhäs dele. Não deixei barato com uma delas, depois tive que escutar ele reclamando no meu ouvido porque quebrei o nariz e duas costelas dela. A partir daquele dia, tentei todos os dias ignorá-lo e cada vez mais me irritava sua tentativa de contato.
Flashback on:
Resolvi sair a primeira vez para ir até a padaria, estava morrendo de vontade de comer um pedaço de torta de morango e se bem me lembro, foi nessa padaria que o vapor tinha vindo comprar algumas coisas para meu café da manhã e acabou levando a bendita torta, lembro do nome pela embalagem e o vapor que ficou na segurança da casa me explicou o caminho até aqui.
Caminho tranquila com meus fones bluetooth ligados em Billie Eilish, ela estava sempre comigo desde o maldito casamento ajudando a me afundar ainda mais na sofrencia que eu vivia ao lembrar do Salvatore e agora com Lorenzo. O pôr do sol estava lindo na linha do horizonte deixando o céu meio alaranjado, o ar fresco com o movimento das ruas me tranquilizando no final do dia quando vejo de longe a padaria.
Abro um sorriso ao saber que logo matarei minha vontade e até decido comer no lugar mesmo, está tudo aconchegante de longe posso ver as mesas antigas e a fachada em tons de rosa, avalio o nome da padaria "Delícias da Thais, padaria e confeitaria", entro devagar assim que chego na porta. Uma garota aparentemente com a minha idade está atrás do balcão repondo alguns mini nekad cakes quando percebe que estou indo na direção dela avaliando a vitrine de doces. Tudo bem organizado e de dar água na boca.
— Olá, boa tarde — oferece um sorriso gentil — Me chamo Thaís e hoje vou te atender, o que gostaria? — diz colocando as mãos para trás e sorrio achando um máximo ela tão nova ser a dona daqui aparentemente.
— Anh... Sou a Aurora e tô morando aqui faz pouco tempo — explico — Um vapor levou lá em casa esses dias, uma torta de morango e acho que foi daqui — dou um sorriso sem graça.
— O Hades? — pergunta e confirmo — Foi daqui sim, era pra você então que levou aquele tanto de comida — da uma risadinha — Estranhei quando ele veio aqui e saiu levando tantas coisas, o bom é que vendi bastante — ajeita o avental no corpo, toda alegre.
— Vim atrás da sua torta de novo, me diz que vai ter... — falo em tom de desespero e ela ri.
— Tem sim, vai levar ou quer comer aqui? — olho em volta e tá tudo vazio mesmo.
— Vou sentar ali na frente, pode mandar um pedaço bem grande — ela assente abaixando para pegar a torta — Tem café? — pergunto.
— Temos vários tipos, já te mostro o cardápio de bebidas — diz colocando a torta em cima da bancada atrás dela.
Aguardo ela cortar e pesar o pedaço generoso de torta no prato, ela deposita numa bandeja para levar até a minha mesa e me dá o cardápio de bebidas.
— Vou querer um capuccino grande e não precisa entregar tudo junto, pode deixar que eu levo meu prato até a mesa, não precisa se preocupar com isso — digo pegando no balcão o prato e ela me olha incrédula.
— Nossa... Nunca ninguém fez isso aqui... — diz chocada o que me faz dar risada.
— Depois se quiser me contar mais, pode ir até a minha mesa, vou adorar ter uma companhia — ela assente tímida com um sorriso leve no rosto.
Thaís parece ser uma garota legal e aqui no morro só vejo garotas saindo semi nuas, brigando ou se pegando com homens pelos becos.
Não demorou muito para ela trazer o meu café e se sentar na mesa junto a mim. Ali claramente era uma garagem que foi usada para se tornar um estabelecimento e fiquei curiosa com a história dela que parecia fazer tudo sozinha ali.
— Menina, eu te achei uma ótima pessoa só de te olhar e é bem raro isso aqui — falou rindo e dei um gole na bebida quente contendo o sorriso que brotou nos meus lábios.
— Tu não parece ser como as meninas daqui, gostei de ti... — fui sincera — Não sai muito de casa desde quando me mudei, mas pretendo mudar isso se você aceitar ser minha companhia — ela pareceu extremamente feliz e fiquei admirada com ela.
— Ai você é vai ser minha única amiga então, só trabalho por aqui e m*l saio — disse com a voz carregada — Eu vou adorar sair contigo e espero que sejamos boas amigas — seus olhos brilharam de emoção.
— Me conta, você trabalha aqui sozinha, não tem mais ninguém nessa contigo? — perguntei curiosa enquanto comia.
— É... Eu moro sozinha aqui desde meus dezesseis, aí eu vendia na rua quando não estava trabalhando no barzinho daqui do morro e fui dando certo com as receitas — conta tranquila — Agora faço tudo a noite para vender no outro dia, congelo algumas coisas e também faço por encomendas, mas nesses dias aí não abro aqui — assinto pensando no quanto ela faz aqui sozinha.
— Se precisar de ajuda, pode contar comigo — ela sorri olhando para trás de mim e eu procuro o que chamou atenção dela.
Uma garota meio loira com o short curto e um cropped branco estilo ciganinha, junto com outras duas no mesmo estilo.
— Nem liga se vier mexer contigo, ela fica com todo mundo aqui no morro e agora tá se envolvendo mais ainda com o dono daqui — fico surpresa que ela saiba disso, mas não deve ser tão difícil ficar sabendo que o Lorenzo pega essas meninas daqui — O Sinistro só fica com as selecionadas, digamos que ela é a preferida — a gente m*l chegou aqui e já tá assim.
— Não sabia que meu marido já tava desse jeito — murmurei baixo e ela agarra na minha mão nervosa.
— Não me diz que você é esposa dele? — assinto rindo — Aí Deus, me desculpa — dou mais risadas do seu desespero nítido.
— Relaxa que não é o que você tá pensando — tento acalmar ela.
A risada de gralha chama a minha atenção quando a menina coloca os pés aqui e se aproxima da gente.
— Quando escutei os vapor do Sinistro dizendo que a corna tava na rua, nem acreditei — diz pegando no meu cabelo e já sei que vai sair daqui machucada senão parar.
— Tira a mão de mim garota, nem me conhece e chega assim? — ela olha pra mim de cima a baixo com deboche e respiro fundo.
— Pelo amor de Deus, não briguem aqui — Thaís pede em tom desesperado e eu me levanto afastando ela de mim.
— Não se preocupa Thaís, não perco meu tempo com piranhä m*l comida — falo indo pra rua.
As três projetos de piranhä me seguem e antes que eu vire sinto agarrar meu cabelo. Que ódio dessa meninas que brigam assim.
Cravo as unhas no seu braço virando pra ela que não larga meu cabelo e ela faz uma careta sem soltar.
— Solta meu cabelo — peço grunhindo e ela dá um sorriso.
— Quero ver tu fazer eu soltar — desafia e as amigas dão risada — Não é porque tu é a fiel que vou baixar a cabeça pra ti não — dou um sorriso maquiavélico.
— Não vai soltar? — ela n**a — Eu não perco meu tempo brigando igual piranhä, mas se tu quis me peitar, vamos ver o que tu sabe fazer...
Não dou tempo para que fale mais nada e jogo ela no chão com uma rasteira que faz soltar meu cabelo, aí só escuto os gritos das amigas dela e sinto tentarem me puxar de cima dela. Dou alguns socos no rosto dela e abro um sorriso quando o sangue mancha minha mão, já me dou por satisfeita e me levanto rindo.
— Tu não é tão boa assim, não é? — tiro onda com ela que na adrenalina tenta puxar minhas pernas me arranhando com as unhas de gel.
— Piranhä, tu me paga vagabundä — deixo ela fazer força atoa, mesmo que rasgue minha pele.
Quando vejo que fica de quatro para levantar, dou dois chutes que pegam na costela que me fazem sentir o osso batendo no meu pé e ela cai em posição fetal gritando alto.
— Cíntia, merdä o Sinistro tá vindo — uma das amigas tenta puxar ela e eu cruzo meus braços entrando na Padaria.
Dou risada vendo a Thaís parada no meio do estabelecimento me olhando assustada, mas logo começa dar risada.
— Caraca, tu arrebentou ela — dou de ombros.
— Tu aceita pix? — pergunto mudando de assunto e várias motos param ali na frente.
— Aceito, pega meu cartão com meu whatsąpp e lá converso contigo... Acho que agora não dá tempo — me entrega um cartão e aponta com a cabeça atrás de mim e já sei que é Lorenzo entrando ali.
— Sua filha da püta, tu tá louca bater assim na mina? — puxa meu braço e eu puxo de volta.
— Não encosta em mim e deixa pra conversar em casa — aviso deixando ele lá sozinho.
Saio dali vendo que dois caras fortes ajudando a garota levantar do chão e ela grita não conseguindo ficar em pé, mas não me importo muito e pra mim é música para os meus ouvidos. Volto pra casa tranquila e m*l lavo as mãos já escuto a porta da sala ser aberta.
— CADÊ TU, SUA DESGRAÇADA — grita me fazendo rir quando saio do banheiro.
Atravesso o corredor tranquila e vou até a sala onde ele está. Lorenzo tirou a camisa deixando o peitoral malhado exposto com tatuagens no braço que me fazem engolir em seco.
— Porque tu bateu nela? — pergunta com raiva e eu dou uma risada amarga me sentando.
— Já perguntou pra tua amante? — ele desvia o olhar — Nosso acordo foi ser no sigilo e não pegar várias para o morro ficar me chamando de corna — falo tranquila — Hoje foi o primeiro dia que saí e fui afrontada por püta sua, tu que deveria colocar elas no lugar e manter tudo entre vocês dois, senão vou fazer igual... — aviso e ele parte para cima de mim igual um louco.
— Tu não vai ficar com ninguém! — decreta me fazendo dar risada — Se eu ficar sabendo, vou matar ele na tua frente e não quero te cobrar, mas vou, se tu ficar com qualquer pessoa e eu descobrir, torce para que eu nem imagine isso. — ameaça e dou de ombros.
— Se é porque tu vai matar, não tem problema — faço pouco caso — Assim me dá o direito de matar as piranhä que tu pegar — mexo nas minhas unhas tirando o sangue que ficou ali.
— Tu não vai encostar nunca mais nela e nem em qualquer mina, mó feião brigar na favela — ignoro ele — Quero saber de tu o que rolou pra deixar a Cíntia assim — fala com a voz mais tranquila.
— Ah, ela veio me afrontar e eu nem ia bater, mas puxou meus cachos — coloco meus cabelos pra frente e encaro ele — Mexer no meu cabelo não aceito — ele dá um sorriso de canto.
— Não quero tu perto dela, da pra ser? — eu assenti calmamente.
— Só mantém tuas putäs longe e tudo certo — ele ficou me encarando por um tempo, mas não disse nada.
Vestiu a camisa jogada no sofá e tirou o rádio da cintura subindo as escadas.
Lorenzo só podia ser louco achando que eu ficaria quieta sendo afrontada. Peguei no bolso do short o cartão da Thais e anotei seu número, pedi o pix junto com o valor que eu devia e guardei o celular.
Liguei a TV para assistir alguma coisa. antes de escolher algo fui impedida pelo Lorenzo que apareceu do nada puxando maxilar fazendo o encarar.
— Eu sou o dono daqui e tu tem que aceitar as regras de não brigar, vai me obedecer e deixar aquela mina em paz, entendeu? — parecia que tava possuído.
Levantei ainda tendo meu rosto segurado por ele que me olhava furioso, meus olhos encheram de lágrimas pela forma que estava sendo tratada e não permiti que descesse uma gota sequer dos meus olhos, enquanto olhava no fundo dos olhos dele e empurrei seu peitoral nu.
— Tu vai esconder bem tuas amantes de todo mundo daqui, senão eu não vou ser m*l falada sozinha nessa merdä de favela. Não pedi para tá aqui e eu não sai dessa maldita casa nenhum dia. Agora o dia que saí, fui ridicularizada por uma amante bem ralé sua e tu só torce para ela não passar por mim de novo, porque da próxima vez eu não vou te pena, vou matar ela! — gritei na cara dele que veio pra cima de mim me empurrando de costas no sofá.
Ele levantou a mão pra me bater e não pensei muito quando rolei pelo sofá deixando ele cair no estofado, mais rápida que ele, consegui me levantar e no tempo que virou de frente pra mim, soquei seu rosto algumas vezes até ser puxada de cima dele e ver o sangue no sofá bega claro.
— Pørra garota — escutei o estranho resmungar me largando no chão transtornada.
Só percebi que ele estava ajudando Lorenzo quando vi tirar sua camisa e limpar o rosto dele. Não machucou tanto, só cortou a boca que sangrava muito, o supercílio e o nariz escorria sangue.
— Tira ela daqui, Felipe — escutei Lorenzo falar e não esperei ninguém vir até mim.
Subi as escadas correndo o mais rápido que pude e tranquei a porta do quarto de hóspedes assim que entrei.
Flashback off
Vejo Lorenzo entrar pela porta da sala me encarando deitada no sofá novo que teve que comprar depois de inundar o outro de sangue. Finjo que nem o vi enquanto troco mensagens com Thaís, a gente combinou de ir para praia no domingo e a noite ir pra um pagode que fiquei sabendo que vai ter no antigo bar que ela trabalhava. Precisava espairecer a mente um pouco, já que aqui tava uma loucura dentro de casa.
Passava o dia inteiro aqui, as vezes ia ajudar Thaís com a confeitaria e saiamos para tomar açaí, até fiz amizade com o Felipe, ou melhor, Talibã, como gostava de ser chamado.
Eu aprendia a conviver a cada dia aqui no Vidigal, mas queria fazer valer a pena tudo que aprendi na Ndrangheta, Lorenzo quem não deixava eu fazer nada na boca. Por isso descontava minha raiva inteira nas putäs dele que vinham conversar comigo só de deboche, inventava coisas sobre ele e ria depois com a Thaís. Numa dessas Talibã escutou e prometeu não contar para ele, só que eu sabia que meus dias estavam contatos, até lá eu aproveitaria as boas risadas que eu causava.
— Aurora? — escutei ele me chamando na cozinha — Pow cara, já pedi desculpas e prometi não levantar a mão pra tu, vai ficar nessa até quando? — escutei ele se aproximando e levantei do sofá.
Calcei meu chinelo para subir as escadas e me trancar no quarto, mas fui impedida por ele que se enfiou na minha frente.
— Olha pra mim, meu rosto tá melhorando agora e sei errei com tu. Quero conviver contigo de boa, da essa chance pra nós — veio de papo estranho e franzi o cenho — Quero repetir nosso beijo e tentar dar certo — falou baixo passando a mão no meu pescoço e eu me esquivei.
— Se tu queria que eu falasse contigo. Pronto, tô falando — disse com o coração acelerado e ele tentou encostar em mim de novo, mas balancei a cabeça negando.
— Tu não me acha atraente? — perguntou sorrindo cauteloso e neguei mordendo o lábio.
Óbvio que era atraente e gostoso, só não valia a pena ser mais uma.
— Pow, quero tentar te conhecer e pá. Vai que o nosso relacionamento da certo? — jogou charme e tive que rir.
— Cara, tu come várias mina na rua e agora quer me comer também? Dá licença né, sou tuas piranhä não — dei risada e ele fechou a cara.
— To comendo ninguém cara — pareceu sincero e eu ergui uma sobrancelha em desconfiança — A mina que eu mais pegava tá ainda fødida depois da surra que tu deu, as outras sumiram ou tão me evitando, comecei a te ver de outra maneira — segurei o riso.
Claro que ninguém ia querer dar pra ele depois que eu espalhei pra todo mundo que tem HIV e só gøza com dois dedos no cü.
— COMO É AURORA? — saio dos meus pensamentos com o grito e percebo que falei o que pensava.
Merdä!
Saio correndo dando a volta no sofá e subo as escadas atrapalhada conseguindo me enfiar num quarto com ele vindo atrás na mesma velocidade. Escuto ele bater na porta e forçar a fechadura que tranquei segundos atrás.
— ABRE ESSA MERDÄ, DESGRAÇADA DO CARALHØ — bateu com força na porta — É SURDA PØRRA? ABRE AURORA — grita e tenho que respirar fundo para não ser atingida por suas palavras.
Toda vez é assim...
Não suportava escutar alguém me chamando de surda que vinha cada momento r**m que já passei por ter deficiência auditiva.
Me jogo na cama sentindo minha visão nublar com lágrimas grossas que começam a descer no meu rosto.
Ele só me procurou porque não tinha as da rua pra comer, se não fosse isso nem teria pedido desculpa daquela forma.
Claramente nunca poderia confiar nos homens...