ANA O interfone toco de manhã. — Sim? — Ana. Sou eu. Abre. Nem "oi". Nem "posso subir". Abre — no imperativo confortável de quem nunca soube pedir, e cinco meses depois de sair da minha vida ainda achava que tinha chave. Eu desci. Isso eu fiz certo, pelo menos: a conversa que ele queria ter no meu sofá ia ser na calçada, em pé, no tempo de uma calçada. Ele estava encostado num carro novo — claro que tinha carro novo — de braços cruzados e óculos escuros na cabeça, e quando me viu sair da portaria, desceu os olhos direto pra minha barriga. E sorriu. Não o sorriso bonito do repertório. Outro. Um sorriso de quem confere um extrato e encontra o saldo que esperava. — Então é verdade — disse ele, balançando a cabeça devagar. — A Vanessa me contou e eu não acreditei. Tive que vir ver. —

