Capítulo 1
Capítulo 01
Narradora: Sófia
A música alta fazia o chão vibrar sob os meus saltos enquanto luzes vermelhas cortavam o salão da boate em flashes lentos e provocantes. O cheiro de bebida cara, cigarro e perfume masculino se misturava no ar abafado daquele lugar, mas eu já estava acostumada. Depois de dois anos trabalhando ali, eu tinha aprendido que homens ricos adoravam pagar para acreditar que estavam no controle.
Idiotas.
Apoio os braços no balcão enquanto observava o movimento da boate. Alguns homens me encaravam como se pudessem me comprar com uma garrafa de whisky e um sorriso torto. Outros apenas admiravam de longe. Nenhum deles me interessava.
Meu foco sempre foi outro.
Pego meu celular vendo dezenas de mensagens da Alice completamente surtada porque eu tinha sumido desde cedo. Reviro os olhos rindo fraco. Alice era a única pessoa que ainda conseguia arrancar alguma leveza de mim depois de tudo.
Mando uma mensagem rápida avisando que estava viva e guardo o celular novamente.
Minha atenção volta automaticamente para a televisão presa atrás do bar, onde o jornal falava mais uma vez sobre o Morro da Maré.
Sobre ele.
“Enzo Ventania.”
Só de ouvir aquele nome meu corpo inteiro endurecia.
O homem mais poderoso da Maré. O criminoso que todo mundo temia. O homem que eu culpava há anos pela morte dos meus pais.
Aperto o copo na minha mão tentando controlar a raiva que subia queimando pela garganta. Durante muito tempo eu sonhei em colocar uma arma na cabeça daquele desgraçado e acabar com tudo de uma vez. Mas matar ele rápido seria pouco.
Eu queria destruir aquele homem lentamente.
Queria fazer ele enlouquecer.
Queria arrancar dele o mesmo sofrimento que ele arrancou de mim.
— Você tá com essa cara de assassina de novo — Alice aparece ao meu lado roubando uma dose do meu copo.
— E você continua intrometida.
Ela ri.
Alice trabalhava comigo na boate e provavelmente era a única pessoa naquele lugar que me conhecia de verdade. Mesmo assim, ela não sabia de tudo. Ninguém sabia.
Ninguém sabia do plano que eu estava montando havia meses.
— Ele vai vir hoje — ela comenta casualmente.
Meu olhar sobe imediatamente para ela.
— Quem?
Alice arqueia a sobrancelha como se fosse óbvio.
— Ventania.
Meu estômago trava na mesma hora.
Era a primeira vez.
Durante meses eu ouvi histórias sobre ele. Sobre as mulheres. Sobre a violência. Sobre como ninguém respirava na Maré sem autorização dele. Mas Ventania quase nunca aparecia em lugares públicos.
E justamente hoje ele pisaria na boate.
— Como você sabe disso? — pergunto tentando manter a voz normal.
— O dono tá surtando desde cedo. Parece que ele fechou a área vip inteira pra ele e pros homens dele.
Assinto devagar enquanto sinto meu coração acelerar.
Aquilo parecia destino.
Ou uma armadilha.
Porque durante anos eu procurei uma forma de me aproximar dele… e agora o próprio Ventania estava vindo até mim.
Sem saber que estava colocando a maior ameaça da vida dele dentro do próprio caminho.
[...]
O movimento da boate aumentava cada vez mais conforme a madrugada avançava. Homens ricos, traficantes, jogadores, empresários e políticos se misturavam como ratos no mesmo esgoto luxuoso.
Mas o ar mudou no instante em que ele entrou.
Foi estranho.
Como se o lugar inteiro tivesse sentido.
Os seguranças se endireitaram primeiro. Depois os olhares começaram. Algumas mulheres pararam até de conversar.
Ventania entrou na boate cercado de homens armados, usando uma camisa preta social aberta no pescoço e aquela expressão fria de quem nasceu acostumado a mandar.
Ele não precisou levantar a voz.
Não precisou olhar para ninguém.
O poder dele já fazia isso sozinho.
Meu corpo inteiro travou quando nossos olhares se cruzaram pela primeira vez.
E foi pior do que eu imaginei.
Porque Ventania era perigoso exatamente do jeito que falavam.
Mais velho. Intenso. Frio. O tipo de homem que parecia carregar violência até na forma de respirar.
Mas os olhos…
Os olhos dele ficaram presos em mim.
Não no meu corpo.
Em mim.
Como se estivesse tentando entender alguma coisa.
— Merda — Alice murmura do meu lado. — Ele tá olhando pra você.
Mas eu já sabia.
E naquele instante, pela primeira vez em anos, eu tive certeza de uma coisa:
Meu plano tinha começado.