Capítulo 6

525 Words
Capítulo 06 Narrador: Ventania Abro os olhos e a primeira coisa que vejo é a claridade fraca entrando pela varanda. Por alguns segundos fico imóvel. Era raro eu dormir tão profundamente. Mais raro ainda acordar no quarto de uma mulher. Viro o rosto. Sófia estava dormindo. O cabelo espalhado sobre o travesseiro. A expressão tranquila. Como se carregasse o peso do mundo nas costas. Mas eu sabia que carregava. Porque os olhos dela entregavam isso. Pego o celular sobre a mesa. Três da manhã. Solto um suspiro e me levanto. O silêncio do quarto era confortável. Coisa incomum para mim. Caminho até a varanda. O resort parecia diferente naquele horário. Mais calma. Mais honesta. Sem máscaras. — Vai fugir? A voz dela surge atrás de mim. Abro um sorriso discreto. — Já está acordada? — Acordei, agora. Ela se aproxima devagar e para ao meu lado. Por alguns segundos ficamos apenas observando o mar. — Você pensa demais. — E você tira conclusões rápido demais. — Talvez. Viro o rosto em sua direção. — Você fala isso como se me conhecesse. — Não conheço. — Então como sabe? Ela dá de ombros. — Porque reconheço certas coisas. — Que coisas? Sófia permanece em silêncio por alguns instantes. — Pessoas que carregam perdas. Aquilo me faz encará-la com mais atenção. Porque não era uma resposta comum. Nem superficial. Era o tipo de resposta que vinha de alguém que já tinha sofrido. — E você? — pergunto. — O que perdeu? Pela primeira vez naquela noite vejo algo mudar em seu olhar. Uma sombra. Uma tristeza rápida. Quase imperceptível. — Meus pais. A resposta sai baixa. Sincera demais para parecer ensaiada. — Faz muito tempo? — Tempo suficiente para aprender a conviver. Assinto. Eu entendia aquilo. Mais do que gostaria. — E você? Olho para o horizonte. — Minha mãe. Não entro em detalhes. Mas, estranhamente, ela não insiste. E talvez por isso a conversa continue. Sem pressão. Sem perguntas demais. — Você mora sozinho no Rio? — ela pergunta. — Não. — Não? — Tenho pessoas que considero minha família. Ela sorri. — Família não é só sangue. — Exatamente. Por alguns segundos ficamos em silêncio. — E você? — Tenho a Alice. — Só ela? — Ela já vale por dez pessoas. Isso me faz rir. Porque consigo imaginar perfeitamente. Alice parecia o tipo de pessoa impossível de ignorar. — Você trabalha com o quê mesmo? A pergunta faz ela hesitar. Muito pouco. Mas eu percebo. — Trabalho com eventos. Mentirosa. Não porque eu soubesse a verdade. Mas porque aquela resposta parecia pronta demais. Como se tivesse sido ensaiada. Guardo a observação para mim. — E você acredita em tudo que as pessoas te contam? — ela pergunta. — Não. — Nem em mim? — Principalmente em você. Ela ri. Mas existe algo por trás daquele sorriso. Algo que continua fora do lugar. Algo que não consigo identificar. E isso me incomoda. Porque eu sempre fui bom em ler pessoas. Sófia era a primeira, em muito tempo, que parecia um quebra-cabeça incompleto. E eu começava a suspeitar que ela escondia muito mais do que mostrava.
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