Capítulo 06
Narrador: Ventania
Abro os olhos e a primeira coisa que vejo é a claridade fraca entrando pela varanda.
Por alguns segundos fico imóvel.
Era raro eu dormir tão profundamente.
Mais raro ainda acordar no quarto de uma mulher.
Viro o rosto.
Sófia estava dormindo.
O cabelo espalhado sobre o travesseiro.
A expressão tranquila.
Como se carregasse o peso do mundo nas costas.
Mas eu sabia que carregava.
Porque os olhos dela entregavam isso.
Pego o celular sobre a mesa.
Três da manhã.
Solto um suspiro e me levanto.
O silêncio do quarto era confortável.
Coisa incomum para mim.
Caminho até a varanda.
O resort parecia diferente naquele horário.
Mais calma.
Mais honesta.
Sem máscaras.
— Vai fugir?
A voz dela surge atrás de mim.
Abro um sorriso discreto.
— Já está acordada?
— Acordei, agora.
Ela se aproxima devagar e para ao meu lado.
Por alguns segundos ficamos apenas observando o mar.
— Você pensa demais.
— E você tira conclusões rápido demais.
— Talvez.
Viro o rosto em sua direção.
— Você fala isso como se me conhecesse.
— Não conheço.
— Então como sabe?
Ela dá de ombros.
— Porque reconheço certas coisas.
— Que coisas?
Sófia permanece em silêncio por alguns instantes.
— Pessoas que carregam perdas.
Aquilo me faz encará-la com mais atenção.
Porque não era uma resposta comum.
Nem superficial.
Era o tipo de resposta que vinha de alguém que já tinha sofrido.
— E você? — pergunto. — O que perdeu?
Pela primeira vez naquela noite vejo algo mudar em seu olhar.
Uma sombra.
Uma tristeza rápida.
Quase imperceptível.
— Meus pais.
A resposta sai baixa.
Sincera demais para parecer ensaiada.
— Faz muito tempo?
— Tempo suficiente para aprender a conviver.
Assinto.
Eu entendia aquilo.
Mais do que gostaria.
— E você?
Olho para o horizonte.
— Minha mãe.
Não entro em detalhes.
Mas, estranhamente, ela não insiste.
E talvez por isso a conversa continue.
Sem pressão.
Sem perguntas demais.
— Você mora sozinho no Rio? — ela pergunta.
— Não.
— Não?
— Tenho pessoas que considero minha família.
Ela sorri.
— Família não é só sangue.
— Exatamente.
Por alguns segundos ficamos em silêncio.
— E você?
— Tenho a Alice.
— Só ela?
— Ela já vale por dez pessoas.
Isso me faz rir.
Porque consigo imaginar perfeitamente.
Alice parecia o tipo de pessoa impossível de ignorar.
— Você trabalha com o quê mesmo?
A pergunta faz ela hesitar.
Muito pouco.
Mas eu percebo.
— Trabalho com eventos.
Mentirosa.
Não porque eu soubesse a verdade.
Mas porque aquela resposta parecia pronta demais.
Como se tivesse sido ensaiada.
Guardo a observação para mim.
— E você acredita em tudo que as pessoas te contam? — ela pergunta.
— Não.
— Nem em mim?
— Principalmente em você.
Ela ri.
Mas existe algo por trás daquele sorriso.
Algo que continua fora do lugar.
Algo que não consigo identificar.
E isso me incomoda.
Porque eu sempre fui bom em ler pessoas.
Sófia era a primeira, em muito tempo, que parecia um quebra-cabeça incompleto.
E eu começava a suspeitar que ela escondia muito mais do que mostrava.