Capítulo 07
Narradora: Sófia
Era quase uma da tarde quando Alice entrou no quarto sem sequer bater na porta.
— Meu Deus, Sófia, parece que passou um furacão aqui dentro.
Abri um dos olhos e encarei minha amiga.
— Você sabe que pessoas normais costumam dizer "bom dia".
— E você sabe que pessoas normais não desaparecem a noite inteira depois de conhecer um homem.
Revirei os olhos.
— Eu não desapareci.
— Não? Porque eu voltei para o quarto de manhã e encontrei esse cenário de guerra.
Ela apontou para os lençóis bagunçados e começou a rir.
— Você é impossível.
— E você está com cara de quem dormiu duas horas.
— Dormi menos.
— Percebi.
Alice se jogou na poltrona próxima à janela.
— Então?
— Então o quê?
— Vai fingir que não sabe do que estou falando?
Ignorei a pergunta.
Ela me conhecia bem demais.
Principalmente quando eu tentava evitar algum assunto.
— Foi o Ventania, não foi?
Meu silêncio respondeu por mim.
— Eu sabia.
— Não começa.
— Eu vou começar sim.
Peguei um travesseiro e joguei nela.
Alice desviou rindo.
— Você devia ver sua cara agora.
— Minha cara está normal.
— Não está não.
Levantei da cama antes que aquela conversa continuasse.
A última coisa que eu queria era discutir sobre Enzo Ventania.
Principalmente porque eu estava fazendo exatamente o que prometi não fazer.
Pensando nele.
O tempo todo.
Enquanto tomava banho.
Enquanto arrumava minhas coisas.
Enquanto observava o mar pela varanda.
Aquilo me irritava profundamente.
Porque eu não estava ali para me envolver.
Estava ali por um motivo.
Por uma missão.
Por uma vingança.
E homens como Ventania não mereciam espaço na minha cabeça.
Muito menos nos meus pensamentos.
— Você vai ficar aí parada ou vamos aproveitar o resto das férias? — Alice perguntou.
— Você aproveita por nós duas.
— Dramática.
— Realista.
Ela apenas riu.
Mas, quando fiquei sozinha no quarto, a primeira coisa que fiz foi pegar o celular.
A conversa com Ventania ainda estava ali.
O número dele salvo.
Aquilo me incomodou.
Porque eu deveria apagar.
Deveria esquecer.
Deveria seguir em frente.
Mas não fiz nenhuma dessas coisas.
Apenas bloqueei a tela e coloquei o aparelho sobre a cama.
Irritada comigo mesma.
No final da tarde resolvi caminhar sozinha.
Precisava organizar meus pensamentos antes de voltar para o Brasil.
O resort estava movimentado.
Turistas tiravam fotos.
Casais caminhavam pela praia.
Funcionários passavam apressados carregando malas e carrinhos.
Tudo parecia normal.
Até eu atravessar um corredor mais afastado.
Foi então que ouvi vozes.
Instintivamente diminuí o passo.
Dois homens conversavam próximos a uma área de serviço.
Um deles parecia nervoso.
O outro estava claramente irritado.
— Como ele conseguiu sair sem ninguém perceber? — perguntou o mais velho.
— Nós chegamos tarde.
— Eu não quero desculpas.
O homem deu um passo à frente.
— Você tinha uma única função.
O outro abaixou a cabeça.
— A gente tentou.
— Tentar não é suficiente.
O silêncio que veio depois fez meu corpo ficar imóvel.
— Casa Blanca não paga vocês para falhar.
Meu coração disparou.
Casa Blanca.
O nome atingiu minha memória como uma pancada.
Casa Blanca.
Eu conhecia aquele nome.
Tinha absoluta certeza disso.
Mas de onde?
Continuei parada.
Tentando ouvir mais.
Tentando entender.
— Vamos embora daqui — o velho ordenou.
— Sim, senhor.
Os dois se afastaram rapidamente.
Esperei alguns segundos antes de voltar a respirar normalmente.
Meu coração parecia querer sair pela boca.
Casa Blanca.
Eu já tinha ouvido aquilo antes.
Não era impressão.
Não era imaginação.
Eu sabia.
Mas por mais que tentasse lembrar, a resposta não vinha.
Fechei os olhos.
Forçando minha memória.
E então uma imagem surgiu.
Eu pequena.
Sentada na cozinha da casa dos meus pais.
Meu pai conversando com alguém ao telefone.
Minha mãe nervosa.
Os dois discutindo depois.
E aquela palavra.
Casa Blanca.
Não lembrava do contexto.
Não lembrava da conversa.
Mas lembrava do nome.
E isso foi suficiente para fazer um arrepio percorrer meu corpo inteiro.
Voltei para o quarto antes do pôr do sol.
Alice percebeu imediatamente que havia algo errado.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Mentira.
Sentei na cama.
— Você já ouviu falar em Casa Blanca?
Ela franziu a testa.
— Casa Blanca?
— É.
— Não.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Passei a mão pelos cabelos.
Aquilo não fazia sentido.
Se Casa Blanca era tão importante a ponto de ainda estar sendo mencionado depois de tantos anos, por que eu nunca tinha encontrado nenhuma informação?
Por que ninguém falava sobre isso?
Por que aquele nome desapareceu?
Naquela noite quase não consegui dormir.
Passei horas encarando o teto.
Tentando juntar peças que pareciam não se encaixar.
Durante anos eu acreditei saber quem era o culpado pela destruição da minha família.
Durante anos eu acreditei que Enzo Ventania era a resposta para tudo.
Mas agora uma dúvida começava a surgir.
Uma dúvida perigosa.
E se existisse algo que eu nunca descobri?
E se a história que eu conhecia estivesse incompleta?
E se meus pais escondessem segredos que morreram com eles?
Fechei os olhos.
Mas o sono não veio.
Porque pela primeira vez em muitos anos eu sentia que estava próxima de uma verdade.
E verdades costumavam ser muito mais perigosas do que mentiras.
Principalmente quando envolviam nomes como Casa Blanca.