Capítulo 4

479 Words
Capítulo 04 Narrador: Ventania Aquela viagem já estava me deixando sem paciência. Eu queria voltar para a Maré. Queria voltar para a minha rotina. Para o meu território. Para onde tudo fazia sentido. Mas naquela noite havia uma distração inesperada. Sófia. Pela segunda vez no mesmo dia meus olhos encontraram ela. E eu me perguntei por quê. Não era como se eu nunca tivesse visto uma mulher bonita. Muito pelo contrário. Mas havia alguma coisa nela. Alguma coisa que me fazia querer observar mais um pouco. Ver mais um pouco. Como se ela escondesse algo. — Tá olhando pra onde? — um dos meus homens perguntou. — Lugar nenhum. Voltei a atenção para o copo em minha mão. Mas quando ergui os olhos novamente, ela já não estava mais lá. Estranhamente, aquilo me incomodou. E eu não gostei nem um pouco dessa sensação. Eu não era um homem acostumado a perder tempo pensando em mulheres. Nunca fui. Meu mundo sempre girou em torno de negócios, poder e sobrevivência. Relacionamentos complicavam as coisas. Criavam fraquezas. E fraquezas custavam caro. Talvez por isso eu estivesse irritado. Porque não fazia sentido aquela mulher ocupar espaço demais nos meus pensamentos. — Você está com cara de quem quer matar alguém — um dos meus seguranças comentou. — Talvez eu queira. Ele soltou uma risada. — Então está tudo normal. Ignorei o comentário. Meu olhar percorreu o salão mais uma vez. Música alta. Gente bêbada. Casais se agarrando. Nada que me interessasse. Até que a encontrei novamente. Perto do bar. Sozinha. Com uma taça de vinho na mão. Observando tudo ao redor. Diferente das outras mulheres que tentavam chamar atenção, Sófia parecia não se importar com ninguém. E talvez fosse exatamente isso que chamava atenção. Ela não tentava impressionar. Não tentava se aproximar. Não tentava ser notada. Mas ainda assim era impossível não notar sua presença. — A garota de novo? — meu segurança perguntou ao perceber para onde eu estava olhando. Lancei um olhar frio para ele. O suficiente para encerrar qualquer conversa. Ele imediatamente voltou a prestar atenção na bebida. Melhor assim. Voltei a observar Sófia. Por alguns segundos. Nada mais. Era o que eu dizia para mim mesmo. Mas quando percebi, já fazia vários minutos. Foi então que ela virou o rosto. E nossos olhares se encontraram novamente. Dessa vez ela não desviou imediatamente. Sustentou meu olhar. Como se estivesse me desafiando. Como se não tivesse medo. E isso era raro. Muito raro. A maioria das pessoas baixava os olhos quando me reconhecia. Ela não. Ela apenas me encarava. Como se estivesse tentando me decifrar. Como se estivesse procurando alguma coisa. E pela primeira vez naquela viagem eu senti curiosidade de verdade. Não pela mulher. Mas pelo mistério. Porque havia algo em Sófia que não se encaixava. Algo que eu ainda não conseguia entender. E eu odiava não entender as coisas.
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