Capítulo 2

492 Words
Capítulo 02 Narrador: Ventania — Você quer que eu entregue uma carga desse tamanho confiando apenas na sua palavra? — o homem sentado à minha frente perguntou enquanto girava um copo de whisky entre os dedos. Mantive a expressão impassível. Durante anos eu aprendi que homens como aquele sentiam o medo. Bastava uma hesitação para perderem o respeito. — Se eu cheguei até aqui é porque tenho como cumprir o que prometo. Ele me encarou por alguns segundos. — Seu nome corre o Rio inteiro, Ventania. Dizem que você transformou a Maré em uma fortaleza. — Dizem muitas coisas. — E qual delas é verdade? Abri um sorriso frio. — A única que importa é que minhas cargas chegam ao destino. O silêncio se instalou entre nós. Negócios sempre foram assim. Homens tentando medir forças sem precisar sacar uma arma. No final, ele estendeu a mão. — Fechado. Apertei sua mão sem desviar o olhar. Mais um contrato fechado. Mais dinheiro entrando. Mais poder. Era assim que funcionava. Quando finalmente voltei para o resort já passava das sete da noite. Aquela viagem estava durando mais do que deveria e eu estava cansado de lidar com empresários, intermediários e gente que achava que podia negociar comigo de igual para igual. Eu só queria tomar um banho, beber alguma coisa e voltar para o Rio. Entro no hotel distraído olhando algumas mensagens no celular quando esbarro em alguém. O impacto foi suficiente para fazer a pessoa perder o equilíbrio. — Merda. Levanto os olhos. Uma mulher. A mesma mulher da boate. A mesma mulher que tinha prendido minha atenção sem motivo algum. Ela me encarou irritada. — Você costuma andar olhando para o teto? A pergunta me arrancou um sorriso involuntário. Fazia muito tempo que alguém falava comigo daquele jeito. — Costumo olhar para onde estou indo. — Então hoje resolveu mudar de hábito. Cruzei os braços observando ela melhor. Bonita. Muito bonita. Mas não era só isso. Tinha alguma coisa nela. Algo que me deixava curioso. Algo que eu não conseguia explicar. — Está me encarando por quê? — ela perguntou. — Tentando decidir se a culpa foi minha ou sua. Ela arqueou uma sobrancelha. — Foi sua. — Tem certeza? — Absoluta. Balancei a cabeça soltando uma risada baixa. Ela era atrevida. Perigosamente atrevida. — Qual é o seu nome? Por um segundo ela pareceu pensar. — Sófia. Nome bonito que prendi. E por alguma razão ele ficou preso na minha cabeça. — Ventania. Ela sorriu de canto. — Eu sei quem você é. Aquilo não me surpreendeu. A maioria das pessoas sabia. Mas havia algo na forma como ela disse aquilo. Nenhum medo. Nenhuma admiração. Nenhum interesse. Quase como se estivesse me avaliando. Como se estivesse tentando entender quem eu realmente era. E eu não fazia ideia do porque. Nem ela. Porque naquele momento nenhum de nos dois sabia que aquela simples troca de palavras era o começo da nossa ruína.
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