Capítulo 3

967 Words
Capítulo 03 Narradora: Sófia Assim que entrei no quarto, fechei a porta atrás de mim e me encostei nela por alguns segundos. Ventania. De todos os cenários que eu imaginei para aquele encontro, nenhum deles terminava comigo presa aos olhos dele daquele jeito. Caminho até a varanda do quarto e observo o mar iluminado pela lua. A brisa quente da noite bagunçava meus cabelos enquanto eu tentava organizar meus pensamentos. Durante anos eu construí aquele momento dentro da minha cabeça. Durante anos eu alimentei o ódio. Mas estar frente a frente com ele era diferente. Muito diferente. — Você está pensando nele de novo. A voz de Alice me faz virar. — Não começa. — Começo sim. Ela se joga na cama e cruza os braços. — Você passou anos falando desse homem. Agora finalmente encontrou ele e está aí parecendo uma adolescente confusa. Reviro os olhos. — Eu não estou confusa. — Não? — Não. — Então por que está parada olhando para o nada desde que voltou? Não respondo. Porque nem eu tinha uma resposta. Meu plano continuava exatamente o mesmo. Me aproximar. Ganhar a confiança dele. Entrar na vida dele. E destruir tudo. Nada tinha mudado. Então por que aquela sensação estranha insistia em permanecer? — Vamos descer — Alice sugere. — Não estou com vontade. — Você nunca está com vontade. — Porque diferente de você eu não preciso conhecer um homem novo por dia. Ela gargalha. — E diferente de você eu sei aproveitar a vida. Antes que eu pudesse responder, ela fechou meu notebook. — Levanta. — Alice, — Levanta. Soltei um suspiro derrotado. Conhecia aquela mulher há anos. Quando ela colocava uma ideia na cabeça, não existia força humana capaz de fazê-la desistir. O bar do resort estava lotado. Música. Bebidas. Casais dançando. Pessoas tentando parecer felizes. Tudo aquilo me parecia artificial. Aceito uma taça de vinho enquanto observo o movimento. Foi então que meus olhos encontraram ele novamente. Ventania. Sentado em uma das mesas mais afastadas. Calmo. Observando . Perigoso. Como um predador esperando o momento certo para atacar. Meu coração acelerou. Não por atração. Pelo menos era isso que eu insistia em repetir para mim mesma. Era ódio. Precisava ser. — Ele está olhando para cá — Alice comentou. — Problema dele. — Mentira. — O quê? — Você percebeu no mesmo segundo que eu. Ignoro a provocação. Mas ela estava certa. Eu tinha percebido. E aquilo me irritava. Porque significava que eu também estava olhando para ele. Desvio os olhos imediatamente e levo a taça aos lábios. Aquilo não fazia parte do plano. Eu não deveria reparar na forma como ele se movimentava. Não deveria reparar na maneira como parecia dominar qualquer ambiente sem sequer abrir a boca. Muito menos deveria me importar com o fato de ele estar olhando para mim. Mas era difícil ignorar. Ventania era exatamente o tipo de homem que chamava atenção sem fazer esforço. Enquanto todos ao redor pareciam desesperados para serem vistos, ele fazia o contrário. Sentava. Observava. E deixava que o mundo girasse ao redor dele. — Você está fazendo de novo — Alice comentou. — Fazendo o quê? — Olhando para ele. Reviro os olhos. — Você está obcecada por essa história. — Não. Você que está. Solto uma risada sem humor. Se ela soubesse. Se soubesse quantas noites eu passei imaginando aquele homem morto. Se soubesse quantas vezes eu acordei lembrando do enterro dos meus pais. Se soubesse que cada passo da minha vida me trouxe até esse momento. Não estava obcecada. Estava esperando. Esperando a oportunidade certa. Esperando o momento certo. Esperando ele baixar a guarda. — Você vai ficar olhando para ele a noite inteira? — Alice pergunta. — Não. — Então faça alguma coisa. — Como o quê? — Eu não sei. Você passou anos querendo encontrar esse homem. Agora ele está aqui. Ela tinha razão. A oportunidade estava diante de mim. E eu não podia desperdiçar. Meus dedos apertaram a taça por alguns segundos. Talvez aquele fosse o momento de dar o primeiro passo. Não para a vingança. Ainda não. Mas para me tornar alguém impossível de ignorar. Volto a olhar para a mesa dele. Os olhos de Ventania encontraram os meus quase imediatamente. Como se ele estivesse esperando. Como se já soubesse que eu voltaria a olhar. Meu coração erra uma batida. Ódio. Era apenas ódio. Precisava continuar sendo. Sustento seu olhar por alguns segundos antes de virar de costas e caminhar em direção ao bar. Não olho para trás. Não precisava. Eu podia sentir. Sentir que ele continuava observando. Sentir o peso daquela atenção seguindo cada passo meu. Parei diante do balcão e pedi outra taça de vinho. O espelho atrás das garrafas refletia parte do salão. E através dele consegui enxergar a mesa onde Ventania estava. Ele permanecia sentado. Calmo. Imóvel. Mas seus olhos continuavam em mim. Um arrepio percorreu minha coluna. Pela primeira vez desde que comecei a planejar minha vingança, percebi que estava entrando em um jogo muito mais perigoso do que imaginei. Porque homens como Ventania não chegavam ao topo sendo ingênuos. Eles sobreviviam porque aprendiam a identificar ameaças. E eu precisava tomar cuidado. Precisava me aproximar sem despertar suspeitas. Precisava fazer ele acreditar que tinha controle da situação. Quando na verdade seria eu puxando as cordas. — Você está com uma cara estranha — Alice comentou ao reaparecer ao meu lado. — Estou pensando. — Isso nunca acaba bem. Soltei uma risada baixa. Talvez ela estivesse certa. Porque naquele instante uma ideia começava a surgir na minha cabeça. Uma ideia perigosa. Uma ideia arriscada. Mas que talvez fosse exatamente o que eu precisava para me aproximar de Enzo Ventania. E, pela primeira vez desde que cheguei naquele resort, senti que meu verdadeiro plano estava prestes a começar.
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