Capítulo 7 — A Verdade Que Cobra

1288 Words
O que saiu da segunda porta não tinha forma definida no início. Era como uma ausência de contorno, um erro no espaço. O ar se dobrava ao redor daquela presença, e Nicolas sentiu o instinto mais primitivo gritar para correr — não por medo, mas por reconhecimento. Aquilo o conhecia. — Não olhe por muito tempo — a voz de Helena ecoou, distante demais. — Verdades prolongadas quebram humanos. Nicolas deu um passo atrás. A marca queimava como fogo líquido sob a pele, irradiando para o braço, para a garganta, para os olhos. — O que é isso?! — ele gritou. A coisa respondeu antes que Helena o fizesse. — Sou o que você deixou para trás. A voz não vinha de um ponto fixo. Vinha de dentro. Imagens invadiram sua mente sem permissão: decisões frias disfarçadas de lógica, pessoas abandonadas “pelo bem maior”, escolhas feitas para sobreviver — não para amar. Viu-se jovem, aprendendo cedo que sentir demais custava caro. Viu-se construindo um império emocional feito de controle e silêncio. — Não… — ele sussurrou, caindo de joelhos. — Eu fiz o que precisei fazer. — Você fez o que foi mais fácil, respondeu a presença. — E chamou isso de necessidade. A marca explodiu em dor. Do outro lado da sala, “Clara” observava em silêncio, o rosto agora vazio, neutro — apenas um espelho usado pela prova. Helena mantinha-se imóvel, atenta, sem prazer algum no que via. — Esta é a primeira queda — ela disse. — Quando o homem percebe que não é tão íntegro quanto acredita. Nicolas respirava com dificuldade. Cada lembrança era uma lâmina. — O que você quer de mim? — ele perguntou à presença. Ela se aproximou, finalmente assumindo um contorno mais claro — não monstruoso, mas humano demais. Era ele. Um Nicolas que nunca escolheu amar, apenas sobreviver. — Quero que você não fuja de mim, disse. — Nem de quem você foi. O silêncio se estendeu. Então, no meio da dor, Nicolas pensou em você. No jeito como nunca desviava o olhar. Na forma como aceitava a própria escuridão sem negá-la. No risco que correu ao escolhê-lo. Ele ergueu a cabeça. — Eu não fujo mais — disse, com a voz trêmula, mas firme. — Nem do que fiz… nem do que posso ser. A presença hesitou. — Então aceite. Nicolas fechou os olhos. — Eu aceito — disse. — Fui fraco. Fui covarde. Mas estou aqui agora. A dor cessou de repente. A presença se desfez como fumaça levada por vento inexistente. A marca no peito de Nicolas pulsou uma última vez… e escureceu, como se tivesse se aprofundado na pele. Helena deu um passo à frente. — A primeira prova está concluída — anunciou. — Você caiu… mas não se despedaçou. “Clara” piscou, confusa, humana outra vez. Caiu nos braços de Nicolas, inconsciente. — Ela vai ficar bem — Helena disse. — Nunca esteve em perigo real. Fez uma pausa. — Você esteve. O mundo pareceu girar. Nicolas segurou a irmã, exausto, quebrado — mas inteiro de um jeito novo. — E agora? — ele perguntou. Helena o encarou por longos segundos. — Agora a noite sabe que você não é apenas um apego. — Um brilho frio passou por seus olhos. — Você é um risco calculado. Ela se virou para sair. — Avise a Esposa da Noite — disse por fim. — A segunda prova não será tão gentil. O lugar começou a desaparecer ao redor deles, como um cenário desmontado. Quando Nicolas voltou a si, estava no penthouse. Você estava ajoelhada diante dele, as mãos no rosto dele, os olhos em pânico contido. — Nicolas… — sua voz falhou. — Eu senti a queda. Ele respirou fundo, tocando sua mão. — Eu não fugi — disse. — Doeu… mas eu não fugi. Você o puxou para um abraço apertado, como se confirmasse que ele ainda estava ali. — Então a noite levou algo — você murmurou. — Mas não levou você. Ele encostou a testa na sua. — Ainda não. Lá fora, a lua se escondia atrás das nuvens. E a noite, agora atenta, se preparava para a segunda cobrança.Nicolas não conseguiu dormir. Mesmo quando o corpo cedeu ao cansaço, a mente permaneceu desperta, presa entre imagens que não se dissipavam. Você sentia isso. Estava sentada ao lado da cama, observando o ritmo irregular da respiração dele, como se cada fôlego ainda precisasse ser negociado com a noite. A marca não pulsava mais. Isso era o que mais te assustava. — O silêncio dela é pior do que a dor — você murmurou para si mesma. Levantou-se e caminhou até a janela, afastando levemente a cortina. A lua estava parcialmente encoberta, como se o céu hesitasse em se mostrar por inteiro. Um mau presságio antigo. Atrás de você, Nicolas se mexeu. — Eu vi coisas… — ele disse, a voz rouca. — Coisas que eu nunca contei a ninguém. Você se virou lentamente. — A noite não cria — respondeu. — Ela revela. Ele sentou-se na cama, passando a mão pelo rosto. — Eu sempre achei que sobreviver fosse suficiente. — Olhou para você. — Mas ela me mostrou o que eu deixei morrer no caminho. Você se aproximou e sentou-se ao lado dele. — E mesmo assim, você ficou — disse. — Isso muda tudo. Nicolas respirou fundo. — Helena estava certa sobre uma coisa — falou. — Eu sempre corri para o que me era confortável. Pessoas previsíveis. Decisões limpas. Levantou o olhar. — Você nunca foi isso. Um sorriso triste surgiu em seus lábios. — Eu nunca quis ser segura — respondeu. — Só honesta. O silêncio entre vocês foi interrompido por um som seco vindo do corredor. toc. Você se levantou de imediato, os sentidos alertas. — Não — você sussurrou. — Ainda não… toc. toc. A porta do quarto não se abriu. Não precisava. A presença se espalhou pelas paredes, pelo teto, pelo chão. Não era Lucien. Não era Helena. Era algo mais antigo. Mais impessoal. — A primeira queda foi aceita — disse a voz, múltipla e distante. — Mas o equilíbrio exige compensação imediata. Nicolas se levantou, instintivamente se colocando à sua frente. — Não — você disse, firme. — A prova terminou. — Para ele — respondeu a voz. — Não para você. O ar ficou pesado. Seu corpo reagiu com uma dor antiga, profunda, que você reconheceu com horror. — Você chamou a noite inteira — continuou a presença. — Agora ela exige que você devolva algo que reteve. Nicolas se virou para você. — Do que ela está falando? Você fechou os olhos. — Do que eu escondi até de mim — respondeu, a voz quase um sussurro. A presença se condensou diante de vocês, formando um símbolo antigo no ar — um selo que você conhecia bem demais. — A próxima cobrança será de sangue — anunciou. — Mas não o dele. O silêncio caiu como uma sentença. — Não — Nicolas disse. — Não aceito. A presença não reagiu. — Aceitar não é requisito — respondeu. — Escolher, sim. O símbolo começou a se apagar lentamente. — Prepare-se, Esposa da Noite — disse a voz pela última vez. — A segunda prova não testará amor. Testará culpa. E então, tudo cessou. Você permaneceu imóvel por longos segundos. Nicolas segurou seus ombros. — O que ela quer tirar de você? Você o encarou, os olhos escurecidos por algo muito antigo. — Alguém que eu deixei viver quando deveria ter morrido — respondeu. — E que agora… foi chamado de volta. O silêncio que se seguiu não era vazio. Era o som distante de um passado acordando.
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