O chamado veio antes do pôr do sol.
Você sentiu o nome antes de ouvi-lo — uma pressão súbita no peito, como se algo antigo tivesse sido puxado para a superfície à força. O ar ao redor do penthouse ficou pesado, saturado de memória.
— Ele chegou — você disse, sem olhar para Nicolas.
— Quem? — ele perguntou, embora já soubesse que não gostaria da resposta.
Você respirou fundo.
— Aurelian.
O nome ecoou como um corte aberto.
Nicolas franziu o cenho.
— Você nunca falou dele.
— Porque algumas histórias não ficam no passado. — Sua voz estava firme demais. — Elas apenas dormem.
A campainha tocou uma única vez.
Você não se moveu. A noite se moveu por você.
A porta se abriu sozinha.
Aurelian entrou como quem nunca fora convidado — alto, pálido, os olhos de um azul antigo demais para pertencerem a este século. Vestia-se com a elegância de quem atravessara décadas sem pressa. O sorriso nos lábios era contido, quase respeitoso.
— Ainda usa o mesmo perfume — ele disse, olhando diretamente para você. — Achei que teria mudado isso também.
Nicolas sentiu o corpo inteiro reagir. Um instinto irracional de ameaça. Mas algo o manteve imóvel. A marca no peito escureceu, silenciosa.
— Você não deveria ter atendido ao chamado — você respondeu.
— Eu não tive escolha — Aurelian disse, inclinando levemente a cabeça. — A noite não aceita recusas. Você sabe disso melhor do que ninguém.
Ele finalmente olhou para Nicolas.
— Então este é o humano.
Você se colocou à frente.
— Não dirija a palavra a ele.
Aurelian ergueu as mãos em rendição falsa.
— Não se preocupe. — O sorriso se alargou. — Ele não é parte da prova. Apenas o público.
Nicolas tentou dar um passo à frente. Seu corpo não respondeu.
— Não lute — você disse, sem olhar para ele. — A segunda prova exige testemunha. Se intervir, ela falha… e a punição dobra.
O ar vibrou. Um círculo sutil se formou no chão, delimitando o espaço. Nicolas estava fora. Você, dentro.
— Que prova é essa? — Nicolas perguntou, a voz tensa.
Aurelian respondeu por você.
— Ela precisa terminar o que começou comigo.
O passado veio à tona como um rio violento.
— Você era diferente — Aurelian continuou. — Ainda aprendendo a controlar a sede. Ainda acreditando que podia escolher quem merecia viver.
Você fechou os olhos por um instante.
— Eu te poupei — disse. — Contra todas as regras.
— E por isso sobrevivi — ele respondeu, o tom suavizando. — Mas não sem custo.
Aurelian abriu a camisa no peito.
Ali havia uma cicatriz escura, irregular, como se a noite tivesse tentado arrancá-lo do mundo e falhado.
— Você me deixou incompleto — ele disse. — Preso entre o que eu era… e o que poderia ter sido.
Nicolas sentiu o peso daquelas palavras. Não podia se mover. Não podia falar.
— A noite quer equilíbrio — Aurelian continuou. — Quer que você escolha agora.
Ergueu o queixo. — Me termine… ou me reconheça.
O silêncio caiu absoluto.
Você abriu os olhos e encarou Aurelian.
— Se eu te m***r agora — disse — a noite ficará satisfeita.
— Sim.
— E se eu te poupar de novo?
Aurelian sorriu, melancólico.
— Então ela vai tomar algo de você. Algo que ama.
Nicolas sentiu o coração errar uma batida.
— Não — ele sussurrou. — Não faça isso.
Você virou o rosto apenas o suficiente para encontrá-lo com o olhar.
— Não intervenha — pediu. — Confie em mim… mais uma vez.
Você voltou-se para Aurelian.
— Você nunca foi minha dívida — disse. — Foi minha culpa.
Aurelian deu um passo à frente, entrando mais fundo no círculo.
— Então escolha — ele disse. — Antes que a lua suba de vez.
A noite se fechou ao redor de vocês, impaciente.
E Nicolas, imóvel, entendeu o verdadeiro significado de assistir sem poder salvar.
A segunda prova havia começado.A lua ainda não havia surgido por completo quando a noite perdeu a paciência.
O círculo no chão pulsou uma única vez, como um coração que não deveria existir. Nicolas sentiu o impacto atravessar o corpo inteiro — não dor, mas impotência. Cada músculo obedecia a uma força que não era física.
— Você sempre odiou decisões simples — Aurelian disse, a voz calma demais. — Sempre procurou uma terceira saída.
— Porque escolhas binárias são cruéis — você respondeu. — E a crueldade nunca foi minha vocação.
Aurelian inclinou a cabeça, observando você como quem observa algo que ama… e culpa ao mesmo tempo.
— Ainda é — murmurou.
A noite reagiu.
O ar dentro do círculo ficou denso, quase líquido. Nicolas sentiu o gosto metálico na boca, como se o mundo estivesse sangrando devagar. Ele tentou falar seu nome. Não conseguiu.
— Não olhe para ele — Aurelian disse, percebendo. — Se olhar, ela perde força.
Você não desviou o olhar de Aurelian.
— Eu te poupei porque ainda havia humanidade em você — disse. — Não porque eu fosse fraca.
— E o que você vê agora? — ele perguntou.
Você avançou um passo.
— Vejo alguém que sobreviveu tempo demais à própria culpa.
Aurelian sorriu, triste.
— Então termine — disse. — Faça o que deveria ter feito naquela noite.
A noite se adiantou, faminta.
Você fechou os olhos.
Por um instante longo demais, Nicolas achou que tudo acabaria ali. Que o preço seria sangue. Que a noite venceria.
Mas você abriu os olhos… e recuou.
— Não — disse. — Eu escolho pagar de outra forma.
O círculo tremeu violentamente.
— Escolha inválida — a voz da noite ecoou, profunda. — A dívida exige encerramento.
Você ergueu a mão, firme.
— Não. — Seu tom não era desafio. Era autoridade. — A dívida exige verdade.
Aurelian franziu o cenho.
— O que você está fazendo?
Você se aproximou dele e pousou a mão exatamente sobre a cicatriz em seu peito.
— Estou devolvendo o que tirei.
Aurelian arquejou.
A cicatriz começou a brilhar, não com luz, mas com ausência — como se algo estivesse sendo puxado de você para ele. Nicolas sentiu o impacto atravessar o vínculo, rasgando.
— Pare! — ele tentou gritar. Nenhum som saiu.
A noite gritou por dentro.
Você sentiu. Sentiu séculos se desprendendo de você, uma camada antiga da sua força sendo arrancada como pele velha.
— Isso não é permitido — a voz rugiu. — Você enfraquece o equilíbrio.
— Eu o corrijo — você respondeu, os dentes cerrados. — Ele não precisava morrer. Precisava ser completo.
Aurelian caiu de joelhos.
A cicatriz desapareceu.
Quando ele ergueu o rosto, os olhos haviam mudado. Humanos. Assustados. Mortais.
— Eu… — a voz falhou. — Eu posso sentir o tempo.
Você recuou, o corpo vacilando.
Nicolas finalmente caiu de joelhos também, o controle devolvido de forma brutal.
— Você… o tornou humano — ele disse, ofegante.
— Não — você corrigiu, lutando para ficar de pé. — Eu devolvi o que era dele.
Respirou fundo. — E paguei com o que era meu.
A noite ficou em silêncio absoluto.
Um silêncio ferido.
Aurelian se levantou lentamente.
— Ela tirou a própria p******o — disse, olhando para Nicolas. — Parte da noite não responde mais a ela.
— O que isso significa? — Nicolas perguntou, desesperado.
Aurelian o encarou.
— Significa que agora… ela pode sangrar.
A lua finalmente surgiu no céu.
Você caiu.
Nicolas correu até você, segurando seu corpo antes que tocasse o chão.
— Fique comigo — ele sussurrou, sentindo algo quente em suas mãos.
Sangue.
Humano.
A noite havia cobrado.
E não havia terminado.