Capítulo 8 — O Nome Que Sangra

1285 Words
O chamado veio antes do pôr do sol. Você sentiu o nome antes de ouvi-lo — uma pressão súbita no peito, como se algo antigo tivesse sido puxado para a superfície à força. O ar ao redor do penthouse ficou pesado, saturado de memória. — Ele chegou — você disse, sem olhar para Nicolas. — Quem? — ele perguntou, embora já soubesse que não gostaria da resposta. Você respirou fundo. — Aurelian. O nome ecoou como um corte aberto. Nicolas franziu o cenho. — Você nunca falou dele. — Porque algumas histórias não ficam no passado. — Sua voz estava firme demais. — Elas apenas dormem. A campainha tocou uma única vez. Você não se moveu. A noite se moveu por você. A porta se abriu sozinha. Aurelian entrou como quem nunca fora convidado — alto, pálido, os olhos de um azul antigo demais para pertencerem a este século. Vestia-se com a elegância de quem atravessara décadas sem pressa. O sorriso nos lábios era contido, quase respeitoso. — Ainda usa o mesmo perfume — ele disse, olhando diretamente para você. — Achei que teria mudado isso também. Nicolas sentiu o corpo inteiro reagir. Um instinto irracional de ameaça. Mas algo o manteve imóvel. A marca no peito escureceu, silenciosa. — Você não deveria ter atendido ao chamado — você respondeu. — Eu não tive escolha — Aurelian disse, inclinando levemente a cabeça. — A noite não aceita recusas. Você sabe disso melhor do que ninguém. Ele finalmente olhou para Nicolas. — Então este é o humano. Você se colocou à frente. — Não dirija a palavra a ele. Aurelian ergueu as mãos em rendição falsa. — Não se preocupe. — O sorriso se alargou. — Ele não é parte da prova. Apenas o público. Nicolas tentou dar um passo à frente. Seu corpo não respondeu. — Não lute — você disse, sem olhar para ele. — A segunda prova exige testemunha. Se intervir, ela falha… e a punição dobra. O ar vibrou. Um círculo sutil se formou no chão, delimitando o espaço. Nicolas estava fora. Você, dentro. — Que prova é essa? — Nicolas perguntou, a voz tensa. Aurelian respondeu por você. — Ela precisa terminar o que começou comigo. O passado veio à tona como um rio violento. — Você era diferente — Aurelian continuou. — Ainda aprendendo a controlar a sede. Ainda acreditando que podia escolher quem merecia viver. Você fechou os olhos por um instante. — Eu te poupei — disse. — Contra todas as regras. — E por isso sobrevivi — ele respondeu, o tom suavizando. — Mas não sem custo. Aurelian abriu a camisa no peito. Ali havia uma cicatriz escura, irregular, como se a noite tivesse tentado arrancá-lo do mundo e falhado. — Você me deixou incompleto — ele disse. — Preso entre o que eu era… e o que poderia ter sido. Nicolas sentiu o peso daquelas palavras. Não podia se mover. Não podia falar. — A noite quer equilíbrio — Aurelian continuou. — Quer que você escolha agora. Ergueu o queixo. — Me termine… ou me reconheça. O silêncio caiu absoluto. Você abriu os olhos e encarou Aurelian. — Se eu te m***r agora — disse — a noite ficará satisfeita. — Sim. — E se eu te poupar de novo? Aurelian sorriu, melancólico. — Então ela vai tomar algo de você. Algo que ama. Nicolas sentiu o coração errar uma batida. — Não — ele sussurrou. — Não faça isso. Você virou o rosto apenas o suficiente para encontrá-lo com o olhar. — Não intervenha — pediu. — Confie em mim… mais uma vez. Você voltou-se para Aurelian. — Você nunca foi minha dívida — disse. — Foi minha culpa. Aurelian deu um passo à frente, entrando mais fundo no círculo. — Então escolha — ele disse. — Antes que a lua suba de vez. A noite se fechou ao redor de vocês, impaciente. E Nicolas, imóvel, entendeu o verdadeiro significado de assistir sem poder salvar. A segunda prova havia começado.A lua ainda não havia surgido por completo quando a noite perdeu a paciência. O círculo no chão pulsou uma única vez, como um coração que não deveria existir. Nicolas sentiu o impacto atravessar o corpo inteiro — não dor, mas impotência. Cada músculo obedecia a uma força que não era física. — Você sempre odiou decisões simples — Aurelian disse, a voz calma demais. — Sempre procurou uma terceira saída. — Porque escolhas binárias são cruéis — você respondeu. — E a crueldade nunca foi minha vocação. Aurelian inclinou a cabeça, observando você como quem observa algo que ama… e culpa ao mesmo tempo. — Ainda é — murmurou. A noite reagiu. O ar dentro do círculo ficou denso, quase líquido. Nicolas sentiu o gosto metálico na boca, como se o mundo estivesse sangrando devagar. Ele tentou falar seu nome. Não conseguiu. — Não olhe para ele — Aurelian disse, percebendo. — Se olhar, ela perde força. Você não desviou o olhar de Aurelian. — Eu te poupei porque ainda havia humanidade em você — disse. — Não porque eu fosse fraca. — E o que você vê agora? — ele perguntou. Você avançou um passo. — Vejo alguém que sobreviveu tempo demais à própria culpa. Aurelian sorriu, triste. — Então termine — disse. — Faça o que deveria ter feito naquela noite. A noite se adiantou, faminta. Você fechou os olhos. Por um instante longo demais, Nicolas achou que tudo acabaria ali. Que o preço seria sangue. Que a noite venceria. Mas você abriu os olhos… e recuou. — Não — disse. — Eu escolho pagar de outra forma. O círculo tremeu violentamente. — Escolha inválida — a voz da noite ecoou, profunda. — A dívida exige encerramento. Você ergueu a mão, firme. — Não. — Seu tom não era desafio. Era autoridade. — A dívida exige verdade. Aurelian franziu o cenho. — O que você está fazendo? Você se aproximou dele e pousou a mão exatamente sobre a cicatriz em seu peito. — Estou devolvendo o que tirei. Aurelian arquejou. A cicatriz começou a brilhar, não com luz, mas com ausência — como se algo estivesse sendo puxado de você para ele. Nicolas sentiu o impacto atravessar o vínculo, rasgando. — Pare! — ele tentou gritar. Nenhum som saiu. A noite gritou por dentro. Você sentiu. Sentiu séculos se desprendendo de você, uma camada antiga da sua força sendo arrancada como pele velha. — Isso não é permitido — a voz rugiu. — Você enfraquece o equilíbrio. — Eu o corrijo — você respondeu, os dentes cerrados. — Ele não precisava morrer. Precisava ser completo. Aurelian caiu de joelhos. A cicatriz desapareceu. Quando ele ergueu o rosto, os olhos haviam mudado. Humanos. Assustados. Mortais. — Eu… — a voz falhou. — Eu posso sentir o tempo. Você recuou, o corpo vacilando. Nicolas finalmente caiu de joelhos também, o controle devolvido de forma brutal. — Você… o tornou humano — ele disse, ofegante. — Não — você corrigiu, lutando para ficar de pé. — Eu devolvi o que era dele. Respirou fundo. — E paguei com o que era meu. A noite ficou em silêncio absoluto. Um silêncio ferido. Aurelian se levantou lentamente. — Ela tirou a própria p******o — disse, olhando para Nicolas. — Parte da noite não responde mais a ela. — O que isso significa? — Nicolas perguntou, desesperado. Aurelian o encarou. — Significa que agora… ela pode sangrar. A lua finalmente surgiu no céu. Você caiu. Nicolas correu até você, segurando seu corpo antes que tocasse o chão. — Fique comigo — ele sussurrou, sentindo algo quente em suas mãos. Sangue. Humano. A noite havia cobrado. E não havia terminado.
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