Hospital

1102 Words
Já faz algumas semanas que eu estava aqui. Minhas crises de abstinência começaram a melhorar, mas antes disso tive uma crise tão forte que achei que não aguentaria, na realidade quase ninguém acreditou. Tive uma convulsão e fiquei dois dias desacordada. Junto com a abstinência desenvolvi crise de ansiedade e de pânico. Virna quase não vem me ver depois do dia em que discuti com ela. Doutor Gustavo é um amor, sempre interessado e disposto a me ajudar. O que me deixava melhor era que ninguém me perguntava o que havia acontecido. Eu já estava andando pelo hospital. Era um lugar bastante bonito, parecia até um hotel fazenda. Eles me deixavam caminhar pelo jardim em horário diferente dos outros internos, sim eu era mantida separada pois eu não tenho problemas psiquiátricos e como estou frágil tanto física quanto emocionalmente optaram assim para não correr o risco do meu quadro mental piorar. Esta tarde o tempo estava fechado e decidi não ficar muito tempo lá fora. Quando estava entrando avistei Virna e corri até ela. – Virna por favor me perdoe. Eu sei que fui horrível com você enquanto apenas estava tentando me ajudar. – Tudo bem Carol, às vezes fazemos e falamos coisas sem pensar. Eu perdoo você, você bem sabe que eu já estive nessa mesma situação, você precisa querer superar e querer ajuda, só assim qualquer pessoa consegue te ajudar. – Obrigada, vai voltar a cuidar de mim agora? Nada contra a senhora Isabel, mas eu prefiro muito mesmo que seja você, fora que é uma forma de eu tentar me redimir quanto a minha rispidez. – Tudo bem, vou perguntar ao doutor Gustavo e se ele autorizar já fazemos a troca no próximo turno, tenho certeza que a dona Isabel vai entender. Ela se despediu e continuou o caminho que estava antes de eu a interromper e eu voltei ao meu quarto. Fiquei o resto do tempo no meu quarto procurando não pensar muito no passado nem no futuro e muito menos no passado. Mantinha minha mente no presente. E o meu presente se resumia a passeios no Jardim pela manhã, visitas do doutor Gustavo, conversas com a senhora Isabel e uns livros que ela havia me trazido. Eu tento toda hora fugir da realidade, mas eu sei que em algum momento eu tenho que encará-la, só não estou preparada para isso agora. Sou despertada dos meus pensamentos pelas batidas na porta. Era Isabel com o almoço. Ficamos algum tempo conversando e ela saiu para levar as coisas do almoço, continuei onde estava e puxei o livro para terminar o capítulo. Fiquei sozinha de novo, contudo não por muito tempo, doutor Gustavo veio me ver: – Como está se sentindo hoje Carolina? - Disse puxando uma cadeira e se juntando à mesa comigo. – Estou melhor doutor, obrigada. - Sim eu me sinto estranhamente melhor, não estou acostumada a todo esse tratamento cuidadoso e companhia constante. – Que bom, fico contente por você. Olha só, vim avisar que a Virna virá dentro de alguns minutos, autorizei a troca não por que Isabel não seja boa e sim por que eu acredito de verdade que Virna tem mais a oferecer a você em quesito de vivência e superação. Eu fiquei feliz por saber e me permito sorrir, eles fazem parecer tudo menos complicado, me sinto normal estando com eles. É, realmente eu devo ser muito errada mesmo, me sinto normal dentro de uma clínica psiquiátrica. O doutor que já estava saindo pela porta, voltou somente a metade do corpo para dentro e disse: – Deveria sorrir mais vezes Carolina, fica muito mais bonita assim. Respondi com um sorriso e depois de muitos anos me permito corar. Pouco tempo depois Virna entra no quarto. – Fico feliz que tenha vindo. – Fico feliz por me deixar entrar Carol. - diz se sentando ao meu lado na cadeira. O meu quarto se resumia a cama, uma cômoda, o banheiro e uma mesa com quatro cadeiras. – Logo vão trazer o café da tarde. - Ela disse sorrindo. Ficamos conversando, eu contando os meus dias e ela os dela. Chegou o café e comemos em silêncio. – Posso perguntar o porquê? - disse apontando para o braço esquerdo dela. – Meu pai abandonou a mim e minha mãe, eu tinha cinco anos. Foram tempos difíceis. Quando eu completei nove anos ela trouxe um homem para dentro de casa, ele era bom no começo mas as máscaras sempre caem. Ele abusava de mim Carol. Dos dez aos dezesseis anos, foi quando eu não aguentei mais e tentei contra minha própria vida. Pelo que você pode ver, falhei também. – Sinto muito mesmo, você era somente uma criança. E como foi depois disso? – Minha mãe me encontrou e me levou no hospital e a toda hora me perguntava o motivo e eu me mantinha calada. Até que ela acabou vendo ele em cima de mim logo que saímos do hospital. Ela ficou brava e começou a brigar com ele, foi quando ele pegou uma faca e foi para cima dela, ela foi mais rápida e acabou matando o infeliz. – Na sua frente ai meu Deus. – Sim. Pedi para Deus tirar de mim esse sentimento, mas foi inevitável, fiquei muito feliz. Depois vivemos só nós duas. Ela morreu a pouco menos de um ano, mesmo com tudo o que aconteceu nós fomos felizes. – Pelo menos isso né, e você não pensou em tentar novamente? Tipo logo depois que voltou ou quando sua mãe matou o infeliz, foi muito pesado o que passou, honestamente não sei como você conseguiu aguentar. – Pensei sim, somente enquanto eu estava no hospital. Eu culpava a minha mãe, eu era só uma criança que deveria ser protegida e eu tinha a certeza em mim de que minha mãe sabia, foram anos de violência, porém quando ela lutou muito e acabou fazendo que fez por mim, me deu forças para lutar também. – E você Carol? Qual foi o motivo? Pensa em tentar mais uma vez? Eu fechei os olhos com força e fiquei em silêncio, o famigerado gosto amargo voltou a ocupar minha boca. Parecia que estava prestes a ter mais uma crise, eu precisava segurar … precisava colocar para fora para poder começar a pensar em me libertar. – Não precisa dizer se não quiser. – Eu não quero, mas eu preciso. Eu preciso falar para ver se ameniza a angústia, sei que posso confiar em você e honestamente escutando o que me contou me fez pensar no quão mesquinhos foram meus propósitos, mas vamos lá.....
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD