– Sabe Virna existem pessoas que nasceram para brilhar e existem pessoas como nós. Eu tive uma infância difícil com pai ausente e mãe depressiva. Uma adolescência infame depois que meu primeiro namorado me fez de i****a. Hoje sei que todos os passos da minha vida foram errados e que não posso jogar a culpa nos acontecimentos pouco felizes, a culpa sempre foi das minhas escolhas.
– Eu me apeguei ao sexo sem compromisso depois melhorei e mudei de emprego, entrei na faculdade. Arrumei outro namorado que me levou as drogas, depois me envolvi com um traficante de alto escalão e até me envolvi em um tiroteio, fui presa por formação de quadrilha e olha que nem era por conta do traficante e sim porque fui em uma festa com uma amiga, depois acabei melhorando e até me casei.
– O cara que levou você no hospital e assinou sua internação aqui depois?
– Sim ele mesmo…
– Mais porque separaram ele parecia tão boa pessoa.
– As aparências enganam minha querida Virna. Ele bebia e muito, me traía e não fazia questão alguma de esconder, engravidei e perdi meu filho, foi aí que começaram as agressões físicas. Até que me estuprou quando sabia que eu não podia f********o por conta da curetagem.
– Sinto muito, de verdade. Você mencionou sobre seus motivos serem mesquinhos porém isso não existe, só sabe o tamanho da dor quem passa por ela e não existe essa de que o meu doeu pior que o seu, mesmo que existam situações diferentes Carol o que conta é como nos sentimos em nosso íntimo e digo mais, conta mais ainda o quanto aguentamos carregar. Tem situações que podemos passar exatamente pela mesma coisa porém reagir de formas diferentes, leva também muito em conta a história de cada um.
– Tudo bem é passado! Nesta época eu já havia perdido a minha mãe e então voltei e cuidei do meu pai até ele falecer, eu tinha saído do emprego para cuidar dele. Entrei em depressão, meu vício por álcool voltou a me dominar, vício este que tenho desde muito cedo diga-se de passagem, arrumei um trabalho de garçonete para me manter, uma amiga até tentou me ajudar, mas não adiantou e não adiantaria, já estava tudo quebrado entende? Até que falhei miseravelmente e o resto você já sabe.
– Desculpem entrar assim meninas – Doutor Gustavo entrou porta a dentro. - Seu marido está aqui.
– Por favor não o deixe chegar até mim, mantenho o que eu disse, não quero vê-lo. Eu não estava proibida de receber visitas?
– Vai ser necessário Carol, ele quer que assine o divórcio e como você sempre demonstrou total aversão acreditei que gostaria de recebê-lo
– Bom eu vou indo, volto mais tarde Carol. - percebi que ela estava fugindo, depois eu pego ela… grande amiga!
– Virna se foi, mas eu fico com você se quiser Carolina.
– Obrigada doutor, sendo assim ele pode entrar e por favor não se deixe levar por qualquer coisa que possa escutar, e me adianto no pedido de desculpas pois tenho certeza de que não será uma visita nem um pouco agradável.
– Fique em paz, não estou aqui para julgamentos, somente para prevenção.
Passaram-se poucos segundos até…
– Carol.....
– Para você é Carolina. Então finalmente vai me dar o divórcio André?
– Vou ser pai, ela exige o casamento ou cria a criança longe de mim. Foi por isso que fui até a sua casa aquele dia, sabe que meu sonho de ser pai é maior do que tudo, bati e você não respondeu, como vi que havia luz acesa e ouvi o rádio ligado eu forcei a entrada. Te ver lá caída e sangrando.... você sempre foi sempre tão alegre Carolina. O que a vida fez de você?
– A vida André? Tem certeza de que foi só ela? Não é homem de assumir a sua parcela de culpa?
– Eu sei que errei com você e peço desculpas por isso, porém não foi para tanto, não precisava atentar contra a própria vida simplesmente porque o nosso casamento não deu certo.
Eu comecei a suar e tremer e Gustavo que até então estava calado resolveu intervir.
– Carolina fique calma, não quero que tenha uma crise. Tem certeza que quer assinar esses papéis – concordei com a cabeça depois de ele me colocar sentada na cadeira – Ok! Senhor por favor, pode passar os papéis para cá?
Gustavo quase arrancou o envelope da mão de André e me deu acompanhado da caneta que havia em seu jaleco.
Sussurro um “obrigada” e começo a assinar vendo que ele já assinou tudo, não leio, não tenho nada a perder. Fico com a cópia que me pertence e o entrego a dele ainda trêmula. Acabo que tenho uma tontura assim que André pega o envelope e quase caio, Gustavo me segurou.
– Entendi.... está sendo a p**a desse ai agora não é? Por isso tantos privilégios.
– Já conseguiu o que queria senhor, agora pode se retirar ou serei obrigado a chamar os seguranças.
André saiu furioso. Apesar de estar muito nervosa estava feliz por enfim estar livre dele.
– Carolina.... você ....?
– Acredite estou bem e estou até feliz por isso. Obrigada por ter ficado e por ter me ajudado.
– Imagina Carolina, você é minha paciente, eu só quero o seu bem.
A esta altura ele estava sentado ao meu lado e olhando profundamente em meus olhos.
Olhando assim de perto, mais lúcida por conta de menor dosagem de remédios eu reparei mais no homem que estava na minha frente.
Gustavo era mais do que lindo, era alto e relativamente forte. Tinha olhos cor de mel e a barba por fazer, o cabelo.... ah o cabelo, era escuro e apresentava um grisalho inicial bem sutil. Era impossível ele ser velho, minhas apostas ficam na genética. E a boca? Um belo convite inegavelmente.
– Prometo pelo menos tentar ficar bem, estou fazendo um bom trabalho até então, não estou?
– Sim Carolina e isso é muito bom. Vou deixá-la descansar, está precisando, qualquer coisa chame por Virna.
Ele disse se levantando e por impulso me levantei e o abracei.
– Obrigada doutor. Por tudo o que fez e faz por mim.
– Imagine Carolina, estou aqui para isso.
Me afastou do abraço, deu um leve afago em meus cabelos e saiu.