Como eu já esperava o doutor não me seguiu, ele não poderia ter sido mais claro quanto ao seu posicionamento: eu não sou absolutamente ninguém para ele.
Quando falhei miseravelmente eu estava para baixo do fundo do poço e quando acordei e tive seu apoio e atenção acreditei que assim como Virna e Isabel também, ele se tornaria um bom amigo, contudo mais uma vez me enganei em relação a outra pessoa.
Não sou hipócrita em negar que em alguns momentos fantasiei um envolvimento a mais porém sempre tive muito o pé no chão quanto a isso e não dava ouvido aos meus devaneios. Hoje a realidade me bateu com um tapa de luva de pelica, ele estava apenas sendo caridoso, ajudando a uma moribunda ter o mínimo de dignidade.
Alcancei a pista de dança a tempo de ver Virna aos amassos com o tal Amorim, eu sorri sinceramente, depois de tudo o que aconteceu em sua vida ela merece ser feliz, nem que seja por pequenos instantes. Ela merece se libertar de vez de seus traumas e aproveitar sua vida, ela é uma mulher linda e inteligente e merece encontrar um sortudo para cuidar dela. Se esse alguém é o tal Amorim, isso já não sei, o que eu sei é que ela precisa se divertir e f********o bom e gostoso até esse alguém chegar.
– Estou indo, pode ficar se quiser, eu vou de táxi.
Virna deu um pulo, estava tão envolvida em seus amassos que nem me ouviu chegar.
– Não amiga, vou com você, até parece que vou deixar você ir embora sozinha. Veio comigo, vai voltar comigo.
Eu sei que ela queria ficar, continuar com seus braços em volta do pescoço do bonitão foi uma dica mais do que boa.
– Fica em paz amiga, já chamei o táxi e vou direto para minha casa, preciso de um banho e de descanso, quem sabe até como alguma coisa. Estou e vou ficar bem, aproveite sua noite! E você – avisei ao seu acompanhante – Espero que cuide bem dela esta noite. Eu vou indo.
Sai pela porta e pelo pouquíssimo movimento na avenida presumi que estávamos madrugada a dentro. Estava sem celular então resolvi caminhar até encontrar um táxi, se eu não encontrasse? Bem eu já estou acostumada mesmo a caminhar.
O ar fresco da madrugada vinha contra o meu corpo me trazendo um desconforto gelado, não sei a quanto tempo estou andando só sei que estou bastante longe de casa ainda. Não vou reclamar do frio, ele está me ajudando a não pensar tanto.
Não posso ficar chateada com o Gustavo, não tenho esse direito visto que ele me ajudou no momento que mais precisei, agora eu estou bem. Ainda em fase de adequação contudo me dou ao luxo de sentir certo orgulho de mim, meu único vício atualmente são minhas caminhadas, não tenho mais crises de abstinência, muito menos pensamentos suicidas.
Finamente chego em casa, estou com fome e meus pés já estão formando bolhas, são quase cinco da manhã, logo vai clarear. Me adianto em preparar um pão, como para matar uma das coisas que me mata e tomo um banho bem quente, logo estou em minha cama, estou exausta!
Sou acordada com batidas frenéticas em meu portão, olho no relógio e não são nem dez da manhã. Hoje é domingo e chega a ser um insulto bater na casa de uma cidadã trabalhadora no domingo antes das dez, me levanto com mais m*l humor que me deitei, jogo uma camiseta larga e velha no meu corpo pois percebo que estava tão cansada ontem que dormi nua.
– E eu achando que não podia ficar pior, o que você quer aqui? - era aquele namorado das drogas da época da faculdade.
– Fiquei sabendo que você retornou do mundo dos mortos e vim matar a saudade. Você está bem mais gostosa agora do que no dia em que fizemos um ménage se lembra? A propósito meu amigo ficou falando de você por muito tempo, dizendo o quanto você é apertadinha e louco para te encontrar novamente. Como você tá bem gostosa eu topo.
Me deu um nojo ouvir e ver ele, parece que por mais que tento mudar e melhorar, os fantasmas do meu passado sempre voltam para me assombrar.
– Olha vou pedir educadamente para você ir embora, você faz parte de um passado do qual eu não me orgulho e não quero mais nenhum tipo de contato.
Percebendo que ele não parava de olhar para o meu corpo, cruzei meus braços na falha intenção de tentar me esconder de seu olhar faminto e tenebroso e parece que esse meu simples ato acendeu ainda mais desejo em seus olhos.
– Eu vou embora, assim que você me pagar o que me deve pela nossa última noite ou você acha que vai usar das minhas paradas e sumir? Sei que agora tem um emprego e tem como me pagar, então só saio quando você entregar a minha grana ou você acha que aquele sexo meia boca na banheira pagou alguma coisa.
Eu acabei de receber o meu primeiro salário, só tirei o que consumi ontem e o resto estava todo guardado para eu poder me organizar e pagar as minhas contas na segunda-feira. Sinto que não devo nada a ele pois quando a gente saiu ele disse que seria tudo por conta dele, contudo não quero prolongar o assunto e muito menos sua visita, peço um minuto e entro em casa.
Retiro trezentos reais da minha bolsa e volto para o portão para entregar o dinheiro a ele, é dinheiro suficiente para pagar as drogas, as bebidas e até aquele pulgueiro onde ficamos.
– Só isso gata? Não é nem a metade do que me deve.
– Você está de s*******m comigo, sabe muito bem que aí tem dinheiro suficiente para cobrir o que gastamos os três juntos.
– Tá certa gata, tem sim, só que você vai me dar mais, pelos juros!
– Eu não vou te dar um centavo a mais do que está aí, não é justo! Eu quero que saia daqui e não volte mais, não temos mais nada do que conversar, agora se me der licença.
Tento fechar o portão, no entanto não consigo. O cretino se colocou a frente e como ele é bem mais forte do que eu não durou muito nossa queda de braço, logo ele entrou e fechou o portão.
– Se não quer liberar mais grana, então aceito o pagamento do juros de outra forma, você está uma delícia, já estou até duro só de te olhar e já sei até o que vou fazer com você.
– Não se atreva a encostar em mim, eu já te paguei e eu quero que saia, ou eu vou começar a gritar.
Não deu tempo de falar ou de fazer qualquer movimento, ele pulou pra cima de mim e tampou minha boca com força, me arrastou para dentro da minha casa e quando eu finalmente consegui morder sua mão para conseguir gritar ele me bateu.
E continuou batendo e batendo, me jogou na minha cama e me sufocou com o travesseiro. Eu me debatia e tentava gritar mas era em vão. Logo me vi amarrada por um moletom e como mordaça ele colocou várias calcinhas dentro da minha boca.
– Sua p*****a, olha o que você está me obrigando a fazer, tudo isso porque não quer pagar o que me deve, você já foi melhor.
Eu chorava enquanto ele revirava minha casa inteira em busca de mais dinheiro, que obviamente encontrou, pegou todo o meu salário e colocou dentro do bolso da frente de sua calça surrada. Eu sabia que não era o suficiente para ele, conhecendo-o como conheço sei que ele quer mais. Ele sempre quer mais!
– Agora que já pagou o que me deve – disse batendo a mão sobre o recente volume em seu bolso – vai abrir essas pernas para mim e me fazer feliz.
Quando ele chegou mais perto, bati com tudo com o meu joelho em seus países baixos e foi nesse momento que ele ficou furioso, só me lembro dos dois primeiros socos em meu rosto e depois eu apaguei.