Não conseguia ao menos pensar direito, ainda no chão mantinha meus olhos fechados e sentia muita gente passando por mim, tive sorte de não ser pisoteada. Quando pensei que conseguiria me levantar sinto uma pancada forte em minha nuca e a escuridão me acometeu.
– Vamos Carol, acorde!
Escutava ao fundo a voz de minha amiga, escutava outras vozes também que eu não conseguia reconhecer. Ela me chamava diversas vezes e a cada vez que me chamava eu escutava sua voz mais próxima. Sentia que eu estava deitada em uma superfície mais macia do que o chão que eu estava.
– Finalmente!
Consegui abrir o meu olho e vi Virna, ela estava atrás de minha cabeça, me tirando alguns fios de cabelo do rosto, ela esboçava um pequeno sorriso em meio ao rosto bastante preocupado e segurava um pano na lateral do meu cabelo. Corri o olho e percebi que eu não estava mais no meio da pista de dança, estava em um sofá de um escritório bastante estiloso, e foi quando virei meu pescoço para a esquerda vi que ele estava ali.
– Eu, não me lembro… o que foi que aconteceu?
– Houve uma briga perto de onde vocês estavam, quando um dos homens puxou uma arma foi uma correria insana, no meio do empurra-empurra você foi atingida, o salão se esvaziou rapidamente, foi quando vi Virna gritando desesperada e você caída no chão com a cabeça sangrando.
– Amiga eu fiquei apavorada, então o doutor Gustavo pegou você no colo e o dirigente da boate nos recomendou o seu escritório, precisa de dois pontinhos só, não vai ficar nenhuma marca em seu rosto. - Falou enquanto apontava ao lugar onde estava segundando o pano em minha cabeça, agora que acordou vou pegar o kit no carro do doutor, ele dará os pontos e vamos para casa.
Dito isso minha amiga se levantou e saiu da sala, percebi que ficamos somente eu e o doutor na sala. Assim mais próximo que realmente pude reparar, ele estava ainda mais bonito: cabelos levemente bagunçados, alguns dos primeiros botoes de sua camisa, abertos. Ficamos em silêncio, aguardando Virna voltar.
- Aqui está! - disse abrindo a porta e rapidamente entregando a pasta ao doutor – Já que o senhor não precisa de mim estarei logo ali no corredor conversando com Amorim, ele é dono daqui amiga e é um tremendo gato.
Virna piscou um olho para mim e saiu na mesma velocidade que entrou, ela estava aparentemente bem interessada no tal Amorim, mas eu conheço minha amiga a tempo suficiente para saber que ela tinha segundas intenções, ela queria me deixar sozinha com Gustavo ali.
– Realmente serão apenas dois pontos que vai precisar Carolina, como está bem próximo ao seu cabelo não vai dar mesmo para ver nenhuma marca. - Disse enquanto colocava suas luvas e preparava o material necessário. - Posso?
Fiz que sim com a cabeça quando entendi que ele queria se aproximar, delicadamente ele começou a limpar o local da ferida. Não me lembro de sentir nele esse perfume inebriante, marcante e forte. Eu preciso parar urgentemente com isso ou vou me machucar ainda mais.
Gustavo ficou em silêncio enquanto cuidava do meu machucado e ele não era assim, ele sempre foi bastante gentil e falante, o que será que eu fiz para ele mudar tanto comigo? Sinto falta de nossas conversas, sinto falta de sua presença e companhia, porém tudo mudou assim que recebi minha alta e comecei a trabalhar no hospital.
– Doutor eu fiz alguma coisa errada? - criei coragem em perguntar, ele estava com o rosto muito próximo ao meu em virtude do meu ferimento mas em momento algum ele me olhou nos olhos. Dito isso, ele fez mais dois movimentos e sinalizou como se tivesse finalizado e estendeu a mão para me ajudar a me sentar.
– O que te faz pensar assim Carolina?
– Carolina? O que aconteceu com o Carol? Não conversamos mais desde a minha alta e das poucas vezes que nos encontramos nos corredores do hospital o senhor m*l olha para mim, o que me faz ter total certeza de que eu fiz algo errado, muito errado, para o senhor ter mudado tanto comigo.
Foi a primeira vez que o doutor Gustavo olhou nos meus olhos e manteve o olhar, ainda assim continuava em silêncio, não dando conta da pressão daquele olhar me levantei abruptamente o que me fez tontear e em um movimento ainda mais rápido que foi o meu ao me levantar o doutor me segurou em seus braços, me puxando para bem próximo a si.
– Está ainda mais bonita que antes Carolina e não estou me referindo a maquiagem ou a roupa definitivamente pequena de mais, me refiro a você, conseguiu ganhar peso e está se saindo bem no trabalho. Ouso dizer até que conseguiu curar algumas de suas feridas internas. Está infinitamente mais bonita assim.
O que eu responderia? Eu estava envolta em seus braços fortes, perfume e olhar penetrante, eu m*l conseguia me lembrar do meu nome!
- Mesmo assim, o senhor me afastou, pelo visto estava errada em acreditar que poderíamos ser amigos.
– Carol, eu jamais poderia ser seu amigo, sou seu patrão e o médico que te cuidou, sinto muito se em algum momento fiz você pensar ao contrário. Você estava vulnerável e eu te ajudei contudo foi somente isso.
Porque ouvir isso me doeu mais do que o chute na cabeça? Eu sei que intimamente eu nutria algum sentimento por ele a mais do que amizade, no entanto, eu ainda tinha muita coisa a organizar dentro de mim. Tenho total ciência de quem sou e principalmente, de quem ele é, sei que jamais ele me viria como uma mulher, uma mulher a sua altura.
Não que eu esteja apaixonada, acredito que não seja isso. Acredito que ainda estou sensibilizada por tudo o que passei e ele fez com que eu me sentisse bem e no fundo, eu só gostaria de poder me sentir assim mais vezes.
– Me desculpe doutor Gustavo, se em algum momento passei do limite com o senhor, em momento algum tive a intenção. - Disse olhando fixamente em seus olhos - Não quero que o senhor faça algum m*l juízo de mim, sei quem sou, o que passei e a forma em que nos conhecemos. Eu sou bastante grata como o senhor me ajudou em minha recuperação e quando eu precisava assinar os papéis do divórcio, e do quanto foi gentil em me oferecer a vaga de emprego. Volto a pedir desculpas se em algum momento tomei qualquer tipo de liberdade e aproveito a agradecer pelo que o senhor fez por mim hoje, obrigada por mais uma vez ter me cuidado.
Sorrio, mas tenho certeza que esse sorriso transpareceu a tristeza que eu estava sentindo, me afastei de seus braços e me abaixei para pegar o par de sandálias que estava no chão, voltei meu olhar para ele e percebi que ele olhava fixamente para mim.
– E me desculpe mesmo por estragar sua noite, agora eu vou e o senhor também precisa ir, sua bela acompanhante deve estar a sua espera.
Sem dar tempo de ele dizer qualquer coisa, sai o mais rápido que pude batendo a porta.