Boate

1159 Words
Não me lembro quando foi a última vez que saí para me divertir, na verdade eu tinha uma ideia bem diferente de diversão. O lugar era enorme e uma fila de jovens adultos alegres se fazia virar o quarteirão, pessoas bem-vestidas e conversando alto, para superar o barulho vindo de dentro do local. Não precisamos ficar na fila, Virna era amiga do segurança e logo ganhamos nossa pulseira de acesso. A muito tempo eu não entro em um lugar tão luxuoso, frequentava lugares assim quando eu saia com o meu chefe do escritório de advocacia. Luxuria a meia luz, assim defini o lugar observando cada canto enquanto minha amiga me arrastava pela mão multidão a dentro. Paramos no bar, eu fiquei encostada observando cada detalhe: a mobília, as pessoas dançando, o jogo de luzes e ao fundo ouvi minha amiga pedir dois drinques sem álcool. – Vem amiga, vamos ficar paradas naquele canto ali – disse apontando para um local um pouco mais alto e mais escuro – lugar estratégico, dali dá para ver toda a boate. - Concordei com ela, minha missão era chegar, conversar, sorrir e resistir a toda e qualquer situação que me levasse a um passado não muito distante. Nossas conversas eram exclusivamente sobre o que acontecia em nosso entorno, nenhum assunto que não se referisse ao momento que estávamos não era levantado. A roupa de alguém, o gatinho que estava ao lado e coisas do tipo, somente o superficial. – Eu estou bem amiga, incrivelmente melhor do que eu esperava que estivesse – respondi honestamente quando me foi perguntando – Eu não sinto vontade de beber, fumar e nem nada do tipo, só quero dançar e me divertir com minha amiga. – Eu fico muito feliz em saber que você está se sentindo bem, mas você está muito na defensiva, eu sei que não é fácil.. Só tenta se soltar mais, aproveitar e sentir o momento. – Acredite Virna eu estou, nunca fui de ser o centro das atenções eu gosto mais de ficar no meu canto e isso não quer dizer que eu não estou me divertindo, só que me divirto reservadamente. - Então amiga, vamos dançar! E ela me puxou, adentrando a multidão e parando exatamente no meio da pista e então, começou a dançar como se a sua vida dependesse daquilo. Para não ser a única estranha parada ali, comecei a me balançar também, obviamente que nada se comparava a coreografia insanamente exagerada da minha amiga. Manter o ritmo era lucro para mim, eu só espero não ser ridícula aos olhos dos que estavam a nossa volta. Eu estava me divertindo de verdade, eu me senti leve, realmente nenhum tipo de droga ou entorpecente me fazia falta naquele momento eu queria somente me balançar e sorrir. Virna parecia ter sido feita para a pista e os holofotes enquanto eu me esforçava para conseguir seguir o ritmo da música. A cada música tocada a temperatura do ambiente subia, o calor chegava a ser palpável, meu cabelo começou a colar em minha testa e minha boca começou a ficar seca. - Amiga, eu preciso de uma bebida gelada, aposto que estou desidratando de tanto suar. – Você precisa mesmo amiga largar esse drama todo – disse minha amiga sorrindo – Vamos ao bar, também preciso me recompor. Virna me puxou pela mão e contornávamos as pessoas que nem se importava com o calor ou com a lotação, pedimos uma água e nos encostamos no bar, aproveitando para descansar um pouco, os saltos estavam castigando meus pés. – p**a merda, aquele ali não é o doutor Gustavo? Acompanho o olhar curioso e um tanto quanto espantado de minha amiga e não demoro a ver ele, o doutor! Estava a poucos metros da gente e como ele conseguia ficar ainda mais bonito sem seu tradicional jaleco. Fui tirada do meu pequeno transe quando minha amiga comentou aos risos que eu ia começar a babar. Virei os olhos para Virna e voltei a minha atenção para onde o doutor Gustavo estava e a frustração veio com o famigerado amargor na boca, ele estava acompanhando. Ela era linda, loira, alta, aposto que era uma modelo. – Eita amiga, que mudou até as feições! Eu nunca encontrei o doutor Gustavo em qualquer outro lugar que não fosse a clínica, você está bem, né? – Eu estou sim! Seria esquisito se ele não tivesse ninguém né Virna. Ele é rico, bonito, gentil e atencioso, do tipo que não se encontra em qualquer esquina. Só é estranho encontrar nosso chefe assim do nada. – Amiga eu te conheço a pouco tempo mas é nítido o seu interesse por ele, você muda até de postura quando encontra com ele e está tudo bem, é normal depois de tudo o que ele fez por você no seu momento mais frágil e vulnerável. – Eu não sei descrever com precisão o que eu sinto em relação a ele, é mais como um mix de sentimentos sabe e já me peguei fantasiando algo entre a gente em alguns momentos, mas é só isso mesmo, pura fantasia. – E o jeito que ele te tratou e olha para você confunde ainda mais, amiga eu nunca soube de o doutor ter algum fixo nem nada do tipo, na clínica ele nunca apareceu com ninguém, contudo é um tanto quanto óbvio que ele não seria só, como você mesma disse. Tentei não dar mais atenção ao assunto do que deveria, afinal eu já havia falado de mais, sei que Virna não me julgaria e concordei com a parte em que ela disse que seria esperado que eu agisse dessa forma, afinal ele cuidou de mim quando eu estava a esmo, e continua cuidando, ele não me contratou pelo meu espetacular currículo ou vasta experiência. Mesmo constatando todos os fatos ainda era estranho para mim ver ele sorrindo e segurando a mão de alguém. Virna entendendo o poço confuso ao qual eu estava me afundando retirou a garrafa de água que estava na minha mão a depositando no balcão e me puxou para a pista de dança em uma tentativa de me tirar também dos meus pensamentos. – Continua a dançar como se nada estivesse mudado, estamos aqui para nos divertir, lembra? Assenti com a cabeça e foquei em tentar dançar ao ritmo da música sem deixar meu olhar rolar na direção onde estava o sorridente doutor e sua bela acompanhante. Começou a tocar uma música que eu gostava bastante e isso me ajudou e despistar meus pensamentos e pela primeira vez na noite sinto que eu, de fato, me entreguei ao momento e meu corpo até parecia balançar mais leve. Fechei os olhos e continuei a dançar, minha expectativa era prolongar ao máximo essa sensação boa que me acometeu, quem sabe a próxima música é tão inebriante quanto? A vibe não durou muito tempo, começou um empurra, empurra e quando me dei conta eu estava no chão.
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