O hospital não ficava muito longe de casa. Dois ônibus de distância precisamente.
Fui bastante apreensiva pelo caminho, sem saber quão violento seria o choque de realidade assim que eu colocasse os pés dentro de casa, eu pensava muitas coisas, infelizmente nenhuma delas era boa.
Decidi não sofrer por antecedência e prestar o máximo de atenção possível no caminho para me distrair.
Não sei dizer em qual das visitas André deixou minha carteira, com algum dinheiro e documentos e a chave da minha casa. Notei que tem uma chave diferente no chaveiro.
Desci no ponto que ficava poucos metros a frente de minha casa e caminhei vacilante até ela, meu coração batia acelerado e minha respiração estava entre cortada.
Abri o portão, ao qual eu nunca trancava, e percebi que minha porta estava remendada e com uma fechadura nova.
Entrei e vi que estava tudo exatamente como eu deixei. Garras jogadas, cinzeiro lotado. Restos de comida na mesa de centro, tomados por verme e a crosta de sangue seco.
Fiquei horrorizada ao constatar o fundo do poço onde eu cheguei, aquela cena fez com que, de fato eu percebesse o quão doente eu estava.
Fiquei envergonhada por mim mesma mais de forma alguma cheguei a me arrepender.
Até agora não entendi o propósito de Deus em mandar André naquele exato momento mais sentia que descobriria, sim Deus … a tanto eu acreditei que ele havia me abandonado e agora acredito de verdade que tem sim um “pra que”.
Limpei ao máximo toda a bagunça que havia, só não consegui me livrar cem por cento da mancha de sangue.
Não havia nada para comer, mas também não tinha fome, eu estava cansada demais para me preocupar com comida. Tomei um banho, troquei meu curativo e fui dormir.
Em sonho, melhor dizendo em pesadelo, revivi os piores momentos da minha vida e também minha experiência de quase morte.
Olhei no relógio e eram três da manhã, decidi tomar um banho e ir caminhando ao trabalho. Assim limpava as lembranças e imagens ruins e ainda chegaria a tempo para o trabalho já que o dinheiro do ônibus eu tinha somente ida ou volta.
Precisamente uma hora e vinte e cinco minutos depois cheguei exausta até o meu trabalho. Havia levado uma mochila com uma troca de roupa pois sabia que chegaria toda suada.
O banho foi relaxante e eu me vi em posse de uma energia que a muito tempo não sentia. A caminhada me fez mais do que bem.
Conheci Suzi a cozinheira, uma bela moça muito simpática por sinal.... aliás simpática até de mais pro meu gosto.
Começamos a preparar o café da manhã dos internos e aproveitamos para tomar o nosso.
– Não são muitos internos o que significa que não é bastante comida. Mais a variedade sempre é. Doutor Gustavo faz questão que todos sejam devidamente alimentados. Proteínas, vegetais, ferro e carboidrato também é claro. O serviço é um pouco puxado mais tenho certeza de que se sairá bem.
– Obrigada Suzi, tenho experiência em lanchonete espero que disponha de alguma paciência para me ajudar.
– Sem problema algum, minha querida, agora vamos. Eles logo vão terminar o café e nós temos muitos legumes para descascar. Venha comigo, vamos até a plantação pegar o que precisamos.
Caramba esse lugar é bastante auto sustentável.
Suzi não estava brincando que o trabalho era realmente puxado mas no fim das contas foi bom. Eu estava exausta e não tive tempo para pensar em nada que não fosse os meus afazeres, o que era muito bom.
Encontrei Virna algumas breves vezes durante o dia contudo não encontrei o doutor Gustavo.
Era fim do expediente e me troquei para voltar para casa, caminhando é claro e posso supor que chegarei tão cansada em casa que tomarei um banho e dormirei.
O que pra mim é ótimo já que não quero voltar para o buraco de onde acabei de sair. E eu sei que se tiver um tempo livre a escuridão que ainda habita uma pequena parte de mim vai tomar proporções das quais não conseguirei obter controle e vou me afundar novamente.
E exatamente assim foram os meus últimos trinta dias. Acordando pela madrugada, caminhando até o trabalho, dando o melhor de mim na cozinha o dia todo e voltando pra casa somente para tomar um banho e dormir.
Virna tem sido uma boa amiga. Insiste que temos que sair e que eu preciso ter uma vida.
– Eu não estou pronta para isso, não ainda.
– Mas isso não é vida Carol. Você está sempre atrás da exaustão. Acredite quando eu digo que sei o que estava fazendo pois já passei por isso.
– Eu estou bem..…
– Bem? Carolina você areou tanto todas as panelas deste lugar que parecem novas. Eu já passei por está fase e eu sei o quanto é seguro, mas já faz mais de um mês. Chega Carol não vou mais deixá-la fazer isso.
– O.k. você venceu, vou procurar algum curso, algo que me interesse.
– Amor hoje é sexta feira e vamos sair. Vamos para alguma balada balançar nosso esqueleto até não aguentar mais.
– Não! Sabe que é muito cedo para eu estar em um lugar onde tenha álcool e drogas. E se eu não resistir?
– Que isso você é forte e precisa confiar mais em si mesma. E tem mais eu estarei lá com você, nada vai sair errado.
– Tá – aceitei sem saber se era o correto. Virna é uma boa pessoa e já passou por muitas coisas, sei que ela quer me ajudar.
– Ótimo vamos para a minha casa nos arrumar, eu te empresto uma roupa.
Virna não morava muito longe. Comemos algo enquanto nos aprontávamos, na verdade ela brincou de boneca comigo.
Unhas, cabelo, maquiagem e roupa. Um vestido preto bastante justo e um pouco curto em minha percepção, porém perfeito segundo minha mais nova amiga.
Nem acreditei no que vi quando me olhei no espelho. Meus olhos castanhos haviam ganhado profundidade, meus cabelos ganharam ondas. Meu corpo foi desenhado pelo vestido e minhas pernas ficaram o máximo por conta do salto, as caminhadas estão me fazendo bem.
– Não sei como agradecer, não sabe o quanto estou me sentindo bem e bonita, e não sabe o bem que está me fazendo.
– Não agradeça ainda… vamos para a festa.
E assim fizemos.