4 - Pior Erro da Minha Vida

1047 Words
Por Antônio Rocha — No estado em que sua filha chegou aqui, é impossível que esteja viva. A cirurgia era a única chance que ela tinha, delegado. Não havia como ela ser transferida sem agravar a sua situação. As palavras ecoaram em minha mente. Impossível que esteja viva. Eu balancei a cabeça, recusando-me a aceitar. — Vocês estão mentindo para mim. — Me levantei abruptamente, sentindo a raiva borbulhar em meu peito. — Onde está minha filha? — Sr. Rocha, entenda que... — NÃO! — gritei, cortando suas palavras. — Vocês estão escondendo algo de mim. Sem mais palavras, virei as costas e saí do hospital. Não sabia exatamente para onde ir, mas algo dentro de mim dizia que a minha filha estava viva. Eu fui informado que ela foi atacada no hotel, então é para lá que eu precisava ir. Cheguei ao hotel e fui direto para a sala de segurança. Os seguranças, reconhecendo a fúria em meus olhos, hesitaram antes de me impedir. — Eu quero as imagens de tudo o que aconteceu no quarto em que minha filha estava hospedada. Agora. — Ordenei, minha voz firme. O homem responsável pelas câmeras se mexeu desconfortável em sua cadeira. — Senhor, com todo respeito, acho que o senhor não deveria... — Mostre as imagens. — Meu tom não deixou espaço para negociação. Ele olhou para mim, visivelmente relutante. — Delegado, eu realmente acho melhor que... Puxei minha arma, engatilhando-a e apontando para ele. — Não vou repetir. Mostre. As. Imagens. O homem engoliu em seco, tremendo ao começar a digitar no teclado. A tela à nossa frente piscou e, em poucos segundos, uma gravação começou a ser reproduzida. As primeiras imagens mostravam Helena Bittencourt atacando os policiais que protegiam o quarto. p***a, isso é pior do que eu imaginava. Não tem nada a ver com a Alcateia. — É só isso? — questionei, com o sangue fervendo. — Não, senhor. Há outra câmera no corredor, mas... as cenas são muito fortes. Eu o encarei com os olhos apertados. — Coloque. Agora. Ele hesitou por um momento, mas cedeu, mudando a gravação para a câmera do corredor. O que vi fez o chão parecer desaparecer sob meus pés. Helena Bittencourt arrastava minha filha pelo quarto. Anne estava frágil, tentando resistir, mas não havia forças nela. As imagens mostravam Helena a espancando sem piedade, desferindo golpes de facas e chutes. Quando ela finalmente parou, Anne estava imóvel em uma poça de sangue. Meu estômago revirou, e por um momento, achei que fosse vomitar. — Isso é impossível... — murmurei, minhas mãos trêmulas. — Eu avisei, delegado... — o segurança tentou falar, mas não ouvi mais nada. Helena a deixou praticamente morta. Eu mesmo compreendi o que a médica tentou me dizer. Era impossível que Anne tivesse sobrevivido àquilo. Caí de joelhos, o peso do momento esmagando cada parte do meu ser. A arma que segurava caiu no chão com um estrondo surdo. E então eu chorei. Chorei como nunca havia chorado antes. Por minha filha. Pela injustiça. Pela culpa que me corroía. Anne estava morta. E eu era o único responsável. Por Khalid Shall A luz fraca do bar era o suficiente para manter minha presença discreta, mas eu sabia que não podia me demorar ali. Meu rosto havia estampado cada canal de televisão nas últimas horas, e mesmo com o capuz cobrindo a maior parte, o risco era constante. Ainda assim, quando o vi no canto do bar, afundado em uma cadeira com um copo de uísque vazio à frente, a raiva cresceu dentro de mim. Me aproximei devagar, puxei uma cadeira, sentando-me diante dele. — Comemorando a sua promoção, Delegado? — Se você veio me matar, Khalid, pode ir em frente. — Ele soltou uma risada amarga, erguendo o copo como se brindasse a própria morte. — Eu não vou resistir, e aliás, tudo que eu quero neste momento é morrer. O delegado estava irreconhecível. Os olhos vermelhos me diziam que não eram por causa da bebida, tinha algo errado. — Onde está Anne? A menção do nome dela o quebrou ainda mais. Ele levou a mão ao rosto, sem conter as lágrimas que o dominavam. — Anne está morta. Me levantei e o arrastei pela gola da camisa. Ele não resistiu, o corpo mole enquanto o conduzia para os elevadores. — Em qual andar vocês estão hospedados? — perguntei, tentando controlar a raiva que ameaçava explodir. — Acabou, Khalid... Tudo acabou... — Ele murmurava, sem força na voz. — Qual a p***a do andar? — Primeiro andar. Quarto 108. Quando chegamos, o corredor estava deserto, exceto pela faixa de isolamento amarela que marcava a entrada da suíte. Soltei o Delegado no chão, deixando-o afundar contra a parede, e empurrei a porta para entrar. O cheiro de ferro tomou minhas narinas antes mesmo de eu perceber o estado do quarto. Sangue. Estava por toda parte — no chão, nas paredes, até no espelho. Meu estômago revirou, mas me forcei a continuar olhando. Voltei para o delegado, a raiva borbulhando em minha voz. — O que aconteceu aqui? Ele levantou os olhos, a expressão vazia. — Anne foi atacada... chegaram a levar minha filha para o hospital. Mataram a equipe... que estava operando ela. E o corpo... desapareceu... — Então ela ainda pode estar viva. — Minha voz foi quase um sussurro, como se eu não quisesse quebrar a frágil esperança que surgia. — Não... — O Delegado balançou a cabeça, lágrimas caindo novamente. — Eu vi as imagens do ataque. É impossível que Anne tenha sobrevivido. Mesmo se tivesse sido operada. A minha filha está morta. Ele puxou o celular do bolso, destravou a tela e me entregou. — Veja você mesmo. Com relutância, aceitei o aparelho e apertei o play. As imagens eram terríveis. Foi Helena quem atacou Anne, as imagens que se seguiu era algo que nenhum pai deveria assistir. Os golpes, o sangue, a brutalidade. Helena não a deixou apenas ferida. Ela a massacrou. Minha mão apertava o celular com tanta força que quase o quebrei. A culpa é minha. Eu devia ter matado Helena quando tive a chance. Deixei que ela vivesse, achando que a dor pela morte do filho seria punição suficiente e esse foi o pior erro da minha vida.
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