1 - Vingança
Por Anne Rocha
Olá, eu me chamo Anne, com dois "n". Assim, porque... blá, blá, blá. Se você está aqui, provavelmente, é porque já me conhece.
A anjinha que habita em mim, se escondeu em algum canto escuro da minha mente, mas a diabinha... está pleníssima fazendo a sua manicure, ou seria, afiando as garras?
Vamos lá, eu vou te explicar tudo o que aconteceu nas últimas horas.
Eu recebi uma ligação animada do Khalid querendo me ver, pensando melhor, Khalid não faz o tipo animado. Ele é sério o tempo todo, até quando estamos transando, ele me encara como se estivesse furioso e me fode exatamente assim, com força e com raiva. Esse é o jeito Sr. Shall de amar e eu confesso que adoro.
Mas, voltando ao assunto anterior. Eu estava falando sobre o que aconteceu nas últimas horas.
O Khalid foi preso, cercado na praça a poucos metros do hotel onde estou, e agora não se fala de outra coisa na televisão.
"Delegado Rocha, prendeu nesta tarde um criminoso internacional de alta periculosidade. É sem dúvida, uma das prisões mais importantes de toda a sua carreira... Delegado Rocha, você poderia nos dizer como ocorreu essa operação?"
É incrível a velocidade que o meu pai foi de foragido, para grande homem da lei. A mídia é ridícula. Essas pessoas são ridículas. Operação? Mas que operação? Khalid se deu de bandeja para o meu pai, e agora o grande Delegado ostentava um sorriso orgulhoso diante das câmeras. E eu? Em que momento eles pensaram em como isso me arruinaria.
A foto do Khalid estava estampada em todos os canais de televisão, sua expressão impassível, resignado. Não era algo fácil de olhar. Além do mais falavam coisas horríveis dele. Ele não era um santo, mas porque ninguém falava de como ele era capaz de dar a própria vida pelo que acreditava?
Tive a impressão de ouvir alguém bater na porta do quarto, o meu pai estava com a chave dele, ainda assim os cinco minutos de fama pode ter feito perdê-la. Olhei o meu reflexo no espelho pequeno do banheiro, os meus olhos eram apenas duas bolas vermelhas de tanto chorar. Assoei o nariz e novamente ouvi um barulho na porta, agora bem mais alto, me virei a tempo de ver a figura de uma mulher invadindo a suíte.
O jeito dela não era de alguém que estava querendo uma entrevista.
— Olá, Anne — O meu nome soou quase como um xingamento na sua boca — Deixe eu me apresentar, meu nome é Helena Bittencourt.
O meu coração acelerou no mesmo instante, e o meu corpo enfraqueceu, sentindo o peso do que estava por vir. "Grita, Anne", minha anjinha interior chacoalhava os braços pra que eu reagisse.
Antes que eu pudesse formular o meu pedido de socorro, eu senti a faca encostada no meu pescoço.
— Nem pense nisso. Nós duas temos uma longa conversa... — a respiração dela estava tão acelerada quanto a minha, não por causa do medo, mas de raiva.
— Se acalme, por favor... Abaixa essa faca... — minha voz tremulava em um pânico crescente.
— Eu também implorei, para que o árabe abaixasse a faca que ele colocou no pescoço do meu filho, mas ele não meu ouviu Anne, ele não ouviu os meus gritos de horror quando cortou a garganta do meu filho que sequer podia se defender, porque estava numa cadeira de rodas. Talvez ele escute os seus gritos hoje. Ah, espera, ele foi preso...
— Por favor... não me mate, por favor — o choro veio descontrolado, pulsando, direto da alma.
Eu implorei em pensamento que alguém aparecesse pra me salvar, o meu pai, o segurança do hotel, qualquer um. Eu rezei para ao menos sobreviver aos golpes que atacavam o meu corpo. Eu pedi pra Deus por forças pra me defender. Eu gritei por socorro, ao menos na minha mente eu acredito que gritei. Eu gritei pelo filho em minha barriga.
Eu descobri algo sobre a dor, existe um momento em que a sua mente se desconecta do corpo para proteger a sua sanidade. Eu já não sentia nada, não conseguia enxergar nada, apenas o impacto suave dos golpes contínuos e a umidade do meu corpo se resumindo a uma poça de sangue.
Não faço ideia de quanto tempo aquilo durou, até ouvir alguém gritando:
— Ela ainda está viva, chamem uma ambulância!
Eu cheguei a escutar o som da sirene, a imagem do Khalid dançava na minha frente. Só que eu não conseguia sentir aquele frenesi que aquecia o meu corpo e o meu coração só em pensar nele. Ao contrário disso, eu senti frio, muito frio.
— Ela está parando... — uma voz gritou, enquanto outra voz distorcida me pedia pra lutar.
Lute Anne. Lute Anne.
Mas eu estava cansada demais.
***
— Essa foi por pouco — ouvi uma voz próxima de mim — mas o pior já passou. Saiba que já cuidei de mulheres em situações bem piores que a sua.
Olhei ao redor e o simples esforço de abrir os olhos fez a minha cabeça girar. Ainda assim, tive plena certeza de que não estava em um hospital.
— Onde... estou? — murmurei.
Tudo em mim doía, e eu queria chorar. Mas, até pra chorar seria preciso uma energia que eu não dispunha.
— Eu me chamo Jean, nós te tiramos do hospital. Afinal, quanto tempo você acha que levaria até o próximo ataque? Você não estava segura lá.
Eu apenas escutava tudo tentando entender o que ela dizia.
— Sinto ser portadora de más notícias, mas creio que você já tenha chegado a essa conclusão sozinha. O bebê não sobreviveu, eu juro que tentamos de tudo.
Uma única lágrima grossa escorreu dos meus olhos, e o nó na minha garganta me fazia perder o ar.
— Acalme-se querida, poupe energia. Porque você tem uma escolha importante pra fazer agora. Eu pertenço a uma organização chamada Alcateia, lamento não ter chegado a tempo de impedir esse incidente... se ao menos Khalid tivesse lhe ensinado algo, você não estaria assim agora.
— Khal...
— A uma separação entre os homens e as mulheres da Alcateia, temos o mesmo propósito, mas definitivamente, não trabalhamos juntos. Os homens gostam que as mulheres sejam dependentes da segurança que eles podem nos proporcionar, ao invés de nos ensinar a sermos nós mesmas uma arma letal. Filha de um Delegado, mulher de um soldado da Alcateia e olhe pra si mesma, é de dar pena.
Eu entendi o que ela estava dizendo perfeitamente. E um sentimento r**m me invadiu.
— Escolha? — murmurei.
— Ótimo, estou feliz que está atenta ao que estou falando. Podemos te levar de volta para o hospital, e o patético do seu pai vai fazer o possível para te proteger. Mas como você viu, sempre há falhas. Ou assim que você estiver um pouco melhor, nós te levamos para a sede da Alcateia nos Estados Unidos e você descobrirá por si mesma, como o sabor da vingança é doce.
Me forcei a abrir os olhos, para observar a mulher que falava comigo.
— Meu pai... — Apesar de tudo eu não queria deixá-lo.
— O Delegado Rocha negociou com a Alcateia, a carreira pela cabeça do amor da sua vida.
Arregalei os olhos, espantada.
— E Khalid não se importa tanto assim com você, ele não comete erros e no entanto, o suposto "erro" do Khalid quase te matou. Talvez ele te quisesse morta, só não queria ele mesmo te fazer sangrar. Você já deve ter escutado o discurso sobre não matar mulheres, mas não se aplica a mulheres que são uma ameaça. Deixar a mãe do Hélio Junior viva, não pode ser um simples erro. O que você realmente deseja Anne?
— Vingança! — A palavra saiu amarga e cortante, como o próprio gosto do sangue que ainda sentia na boca. Não era uma escolha. Era a única coisa que me restava.