2 - Onde está Anne?

1043 Words
Por Antônio Rocha — Você não voltará à ativa, Rocha. — A voz do homem era firme, inabalável. — Os fatos são claros: você colaborou com um criminoso internacional. Ainda estamos oferecendo imunidade como parte do acordo, mas o seu cargo... isso, infelizmente, acabou. — Nós tínhamos um acordo! — Minha voz soou como um trovão, ecoando na sala. — Eu entreguei Khalid. Ele está preso, e o mundo inteiro viu isso. Você prometeu que eu retomaria meu cargo. Você mentiu, seu... O homem sentado à minha frente continuou com o semblante inabalável, era esse o plano dele o tempo todo e eu caí feito um i****a. — Tenha cuidado com as palavras, Rocha. A imunidade pode desaparecer tão rápido quanto foi concedida. Saia daqui antes que eu perca a paciência e te coloque numa cela ao lado do seu amigo. Minha visão ficou nublada por um instante, aquilo não podia ser real. O gosto amargo da traição queimava em minha garganta, e a única coisa que me impediu de explodir foi o som de batidas leves na porta. A tensão na sala foi momentaneamente quebrada quando a secretária entrou, apressada e com o rosto pálido. — Delegado Rocha... — A voz dela tremia levemente. — Sua filha... Anne foi atacada. Ela está sendo levada para o hospital neste momento. — Como? — Balbuciei, sentindo o mundo parar por um instante. De novo não meu Deus, meu coração apertou em uma dor que me arrancava a alma — Onde a minha filha está? As palavras que se seguiram pareciam um amontoado de palavras sem significado, ainda assim consegui mover o meu corpo para fora da delegacia, e alcançar o meu carro. — O senhor não pode dirigir assim... — uma voz soou, mas não parei pra ver quem era. Liguei o carro e saí cantando pneu, a imagem de Estela me veio à mente de uma forma brutal, e eu continuei dirigindo mesmo com as lágrimas borrando parcialmente a minha visão. Uma vez eu escutei nesses programas motivacionais, ou religiosos, não tenho muita certeza da diferença entre um e outro, que quando passamos pelo mesmo calvário diversas vezes, é porque ainda não aprendemos a lição. — POOOOORRRRAAAAA! QUE DROGA DE LIÇÃO EU TENHO QUE APRENDER? Soquei o volante várias vezes, uma certeza brilhando em minha mente. Se a minha filha morrer, eu morro com ela. Ninguém mais vai sofrer por minha causa. Nunca mais! Estacionei o carro de qualquer jeito na entrada do hospital e entrei empurrando as pessoas que apareciam na minha frente. — Eu sou o Delegado Rocha, trouxeram a minha filha para este hospital e eu exijo vê-la agora — falei com a primeira enfermeira que vi na minha frente. — Venha comigo — a mulher entrou comigo em uma sala pequena, onde uma mulher mais velha fazia algumas anotações, o meu coração batia freneticamente, eu reconhecia aqueles olhares. — O que houve com a minha filha? — Perguntei, forçando uma firmeza que estava longe de sentir, mas seu demonstrasse o meu desespero iriam enrolar mais ainda pra me falar, eu sabia como funcionava aquela merda toda. — Sr. Rocha — a mulher mais velha, provavelmente uma médica, tomou a frente — sua filha chegou aqui em um estado muito crítico. Ela está sendo operada nesse momento, o senhor precisa ser forte. Anne chegou com múltiplos ferimentos de faca e algumas fraturas. Será um milagre se ela sobreviver. Senti o meu corpo estremecer de um jeito como nunca antes. Um milagre? Não, minha filha não. As teimosa lágrimas voltaram a jorrar pelo meu rosto, enquanto a minha mente implorava por uma intervenção divina. — Onde ela está? Por favor, me deixem vê-la... Eu imploro, me deixem ver a minha filha. — Não posso deixar que vá até lá nesse estado — o olhar da médica transparecia a urgência do momento. Ela não sobreviveria. Caso o contrário, eu deveria aguardar que terminassem a cirurgia. Uma dor rascante cortou o meu coração ao meio, e o ar começou a me faltar. — Tome isso — a enfermeira me entregou duas cápsulas e um copo com água, engoli os comprimidos sem cerimônia. — Eu quero vê-la! — Busquei por uma força dentro de mim, que nem eu mesmo sabia ser capaz de possuir. A médica me levou por um corredor até uma outra sala, onde eu vesti todos os aparatos necessários para não contaminar a sala de cirurgia, outro médico me auxiliava. A tensão no ambiente era quase palpável, o silêncio sepulcral corroía cada vestígio de esperança dentro de mim. A culpa é minha, eu convenci o árabe a se entregar. Eu negociei pela segurança de Anne e eles me traíram. O Khalid pelo menos mantinha a minha filha em segurança. Um assassino mantinha a minha filha em segurança, porque ele a amava, isso era inegável. Minha filha não podia morrer, Anne não podia fazer isso comigo. — Podemos ir? — O médico me questionou, seu olhar complacente — A sala de cirurgia possui um vidro, o senhor poderá acompanhar tudo através dele, dependendo do que acontecer durante a cirurgia liberamos a sua entrada, o senhor me entendeu? — Sim — engoli seco e acompanhei o médico por um labirinto de corredores. Quando chegamos próximo ao vidro da sala de cirurgia, olhei atento para o interior. Não havia ninguém sendo operado ali. — Tem alguma coisa errada — o médico falou alarmado, correu em direção a porta e eu o segui. A cena que se desenrolou na minha frente era absurda, haviam cinco pessoas no chão do centro cirúrgico. — Todos mortos! — O médico confirmou o que eu já sabia. — O que aconteceu aqui? — perguntei, tentando entender. Aquilo tudo parecia um filme de terror, passando em câmera lenta na minha cabeça, como um sonho r**m. — Essa era a equipe médica que estava operando a sua filha! A pergunta ficou presa na minha garganta, e uma centelha de esperança surgiu. Anne pode estar viva. Isso tudo pode ter sido apenas uma armação. A Alcateia tentando me mandar um recado, para aceitar que não voltarei ao meu cargo de Delegado. Eles prometeram que não a machucariam, e eu entreguei o árabe conforme o combinado. — Doutor, onde está a minha filha?
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