Dante
A noite passou me encarando. Fiquei no terraço do casarão vendo as luzes do Luar piscarem como isca de peixe, cigarro atrás de cigarro, e ela na minha cabeça feito tamborim fora de hora. Valentina. Língua afiada, olhar que não baixa, coragem de atravessar paredão a seco.
— Vai dormir não, chefão? — perguntou o Freitas, encostando na mureta, voz baixa.
— Quem dorme é fraco. — respondi, sem tirar os olhos da favela — Quero dupla ronda na Rua dos Telhados. E manda o Sombra trocar rádio com pilha cheia. Hoje a noite tá fofoqueira.
Quando ele saiu, a lembrança dela voltou inteira, a marra, o cheiro limpo de sabonete brigando com o suor de quem rala, a mão quente apertando a minha, sem tremer. Eu tive mulher de tudo que é jeito. Submissa, interesseira, apaixonada, perdida. Nenhuma acendeu pólvora como essa desgraç4.
Desci pro corredor do quarto dela antes do sol nascer. Dois dos meus encostados na porta, postura de estátua.
— Alguém entrou? — perguntei.
— Negativo.
— Ninguém entra. Se ela quiser sair, me chamem. Primeiro eu, depois vocês. Entendido?
— Entendido.
Abri devagar. Ela dormia de lado, cabelo espalhado no travesseiro, a respiração fazendo o lençol subir e descer num ritmo que me deu vontade de atrasar o relógio do mundo. Cheguei perto só pra escutar melhor. O peito dela dizia que tinha tempestade por dentro. Daquelas que eu gosto de atravessar sem capa, sem guarda-chuva, de peito aberto.
Ela abriu os olhos no susto, me encontrou a dois passos.
— Tá maluco? — sussurrou, a voz rouca de sono — Tu brota no meu quarto agora?
— No teu quarto, não. — encostei na parede — No meu casarão. E eu broto onde eu quiser.
— Pretensioso. — ela virou de barriga pra cima e me encarou, sem cobrir a alça da blusa — Vai ficar aí me encarando até quando?
— Até quando tu entender que eu mando.
— Eu entendo que tu manda nos teus. Em mim, não.
Sorri. Dei mais um passos, parei a distância de um pecado.
— Acorda, Valentina. Hoje tu conhece a rotina aqui de cima. Café, andar pelo alto, ver a vista que tu odeia. E depois a gente desce pra eu trabalhar e tu não morrer.
— Que romântico, chefe. — Ela se sentou devagar — Café com sequestro. Combina com o pão?
— Combina com tua marra abusada.
Atrasei o café só pra provocar. Sentei na ponta da mesa, ela na outra. Os meus passavam e fingiam que não viam. Eu estudava cada gesto. O jeito que ela segura a xícara como quem segura o destino pelo pescoço. O pé batendo no chão, impaciente. A boca apertando de raiva quando eu demoro pra falar.
— O que foi? — ela largou a xícara — Tu não cansa de me vigiar? Virei novela?
— Não. — respondi, seco — Tu é a primeira coisa interessante que esse morro me deu em anos.
— Triste pela tua vida.
— Tu vai deixar ela mais animada.
Ela se levantou primeiro, passando por mim rente. Encostei a mão de leve no quadril dela, só dois dedos, teste rápido. Ela gelou no mesmo segundo, mas não afastou. Nem cedeu. Só me olhou por cima do ombro.
— Tira a mão, Dante.
— Me pede direito.
— Tira. A. Mão.
Tirei, rindo. Jogo é assim, avanço um passo, recuo meio, deixo ela achar que tá ganhando. Gosto de ver onde a linha dela vibra. Quero que cruze por vontade, não por ordem. Quando ceder, vai lembrar da escolha toda vez que respirar.
Desci pro pátio com o Freitas no rastro.
— Notícia? — perguntei.
— Piorou. O Falcãozinho da Coroa andou metendo o nome da Valentina na boca. Disse que “a rainha do Luar é só fogo de palha”. Que topa “apagar o braseiro” por conta própria. A fofoca corre solta e só precisou de uma noite.
Parei. O ar ficou menor. Um dos moleques quase trombou em mim, desandou a pedir desculpa. Eu nem ouvi.
— Quem?
— Falcãozinho. Tá achando que vira manchete se te cutucar por ela.
— Ele falou o nome dela?
— Falou.
Eu não gosto de perder tempo com boato. Mas essa não é conversa de rua. É problema. No meu mundo, palavras mexem peça. Mexeu, pagou. Fiquei frio de repente. Frio de matar.
— Puxa o Falcãozinho. — falei, caminhando — Sem holofote. Sem gritaria. Aqui em cima.
Freitas assentiu. Levei meia hora andando no alto do Luar pra esfriar a cabeça e esquentar de outro jeito. Parei no vidro do corredor.
Lá embaixo, Valentina conversava com a cozinheira e duas mulheres da comunidade, cheia de gesto, cheia de vida.
Dei um passo. Ela sentiu. Levantou o rosto. Me achou no reflexo. Não desviou. Aquele olho me chama pra briga e pra cama ao mesmo tempo. E eu fico forte nas duas.
Quando trouxeram o Falcãozinho, jogaram o infeliz de joelho no chão da sala. Moleque com tatuagem m*l curada e sorriso torto de quem acha que tá no filme.
— Fala de novo. — pedi, calmo — Eu gosto de ouvir quem tem coragem.
— Cê tá apaixonadinho, Dante? — ele riu — A favela já sabe, tua rainha é só uma língua grande. Eu apago essa…
Eu levantei a mão e ele calou sem saber por quê. A lua ainda nem tinha subido e eu já tava investido de rei.
— Foi isso que tu falou lá embaixo? Na frente de quem?
— Tinha uns cinco. Espalha rápido, né? — ele tentou rir de novo.
— Espalha. — concordei, chegando devagar — E vai espalhar mais.
Olhei pro Binho, o mais silencioso dos meus. Ele entendeu antes de eu dizer. Tirei o canivete do bolso dele sem pressa. O moleque arregalou o olho.
— Aqui no Luar, cada parte do corpo tem função. — expliquei, como se desse aula — Mão que rouba do meu vira gancho. Olho que espia meu quintal vira sombra. E língua que fala o nome da minha mulher sem licença…
Ele começou a se arrastar pra trás, soluçando coragem de criança.
— Ô, Dante, foi zoeira, porr4… papo de rua…
— A rua é minha. — agachei — E ela é minha. Tu foi duplamente burro.
Apertei o queixo dele. Não fiz espetáculo. Não preciso. Fiz do jeito exato que meu mundo entende, curto, certeiro, sem poesia. Dois dos meus seguraram.
O canivete brilhou e cortou o que tinha que cortar. Grito curto. Sangue mínimo, o suficiente. Um pano enfiado na boca, outro segurando a ferida. O recado já tava escrito no concreto.
— Leva esse otáriø pra enfermaria da Dona Lúcia. — levantei, limpo — Fala que foi acidente com vidro. E avisa no beco que quem fala o nome dela sem pedir perde a língua.
Freitas me olhava com a velha mistura de respeito e receio.
— Pesado, chefão.
— Leve é o caralh4. — olhei pro alto — Pesado é viver sem limite.
Saí da sala com a pulsação no lugar. Sinalizei pra limpar. No corredor, Valentina apareceu na curva. Tinha ouvido alguma coisa, porque os olhos tavam em alerta, a coluna em combate.
— O que tu fez? — ela perguntou, firme.
— Acertei um gambito no tabuleiro.
— Na língua de gente normal, Dante.
— Cortei a conversa de um fofoqueiro.
Ela piscou devagar. Entendeu sem eu desenhar. Senti raiva nela, e outra coisa. Medo, não. Pavor, não. Era adrenalina com lucidez. A mistura certa pra me deixar doente.
— Tu tá louco. — ela sussurrou — Isso é psicopatia.
— Isso é governo.
— Isso é inferno.
— Bem-vinda ao meu. — dei um passo, quase encostando a boca no ouvido dela — E tu já sabe, quando eu escolho proteger, eu protejo até da fala alheia.
— Eu não pedi tua proteção.
— Eu não pedi tua opinião.
Ela mordeu a própria boca pra segurar uma resposta pior. Venceu por um segundo, depois soltou:
— Tu acha que manda em tudo. Mas em mim tu não manda.
— Ainda. — deitei o rosto, respirando o pescoço dela sem tocar — O jogo é longo.
Ela ficou dura, mas não recuou. O cheiro dela bateu no meu cérebro como sirene de madrugada. Minha mão passou na linha da cintura, leve. Teste. Ela respirou fundo como quem segura o fôlego.
— Ou tu me beija logo ou tu sai daqui. — ela disse, irritada — Porque esse vácuo teu me dá gastura.
Ri.
— Tu quer beijo?
— Eu quero que tu pare de fingir que não quer.
— Eu não finjo.
— Então por que não toca?
— Porque eu quero que tu peça. — Endureci a voz — Eu não empurro porta. Eu espero girar a chave.
Ela me fuzilou com os olhos. Virou o rosto primeiro. O salto bateu no piso do corredor como tiro seco. Foi embora, levando meu ar.
Fiquei rindo sozinho, doente e satisfeito. O jogo começou. E começou do meu jeito, sem pressa, sem perdão, sem platéia. Meu morro, minhas regras. Minha mulher, mesmo que ainda não tenha aprendido a palavra, minhas ordens.
Chamei o Freitas de novo.
— Espalha devagar que quem falar o nome dela sem permissão vai mastigar caldo por um mês. Sem exceção.
— Tá falado.
— E manda flor simples pro quarto dela.
— Flor?
— Não pergunta. Faz.
Acendi outro cigarro. A fumaça subiu, a lua também. O Luar respirou pesado, mas em paz. A cidade lá embaixo piscou como sempre. Dentro de mim, não tinha paz nenhuma. Tinha fome. Não de sangue. Dela.
Valentina deve achar que tá presa numa teia. Tá mesmo. Só que não é teia de aranha. É de aço, de fio invisível, de vontade minha. Pode espernear, pode xingar, pode cuspir poesia suja na minha cara. Eu vou dar risada, vou segurar, vou provocar.
— Ninguém fala teu nome. — sussurrei, encarando a noite — Ninguém encosta. Ninguém escolhe por mim.
E quando o Rei do Luar decreta silêncio, até o vento aprende a sussurrar.