Capítulo 4 – A Proteção Forçada

1785 Words
Valentina Acordei com barulho de bota batendo no cimento e rádio chiando na janela. O quarto ainda cheirava a café de ontem, mas a rua já tava com o perfume azedo de madrugada m*l dormida. Ouvi sussurro, ferro arranhando grade, um pigarro de homem que fuma demais. Puxei a cortina e quase xinguei alto. Dois soldados do Dante encostados no nosso portão. Fuzil pendurado, boné pra trás, cara de quem não tem hora. A raiva subiu na mesma velocidade que o susto. — Qual foi, doido? — empurrei a porta da frente, chinelo batendo — Showzinho às sete da manhã, é? Vai fazer selfie também? — Bom dia, Valentina. — o mais baixo, aquele com tatuagem do Cristo m*l feita, deu meio sorriso — O chefão mandou ficar de guarda. — Guarda da tua cara, só se for. Some daqui, mermão. Meu coroa tá dormindo, o Yuri também. — Ordem do Dante. — ele falou, sem me olhar muito — “Proteção total”. — Proteção o cacet3. — Cruzei os braços — Isso é ameaça disfarçada. Se encostar no meu portão eu jogo água fervendo. Eles trocaram olhares, riram de canto, mas não mexeram um músculo. Tava na cara, iam cumprir ordem até o fim da vida ou até eu perder a cabeça. Voltei pra dentro, respirei, botei água pro café e acordei meu pai com beijo na testa. — Ô, minha menina. — ele sussurrou, semi acordado — Barulho de quem lá fora? — Barulho de macho armado achando que é anjo da guarda, coroa. Fica de boa. Eu resolvo. Acordei o Yuri com um tapa de leve no pé. — Levanta, perna de p*u. Hoje tu não sai nem pra padaria. — Que houve? — ele bocejou, cabelo todo no olho. — O “rei” decidiu que agora a gente tem escolta. — Fiz aspas com os dedos — Adivinha quem? — Dante? — ele sussurrou, já desperto. — Ele mesmo, o dono do Luar e da paciência alheia. Mal acabei o café, bateram no portão. Bateram não, tocaram de leve, como se fosse visita de amigo. Fui abrir com a marra na cara. Do outro lado, terno preto impecável, corrente fina no pescoço, olhar que congela água: Dante Ravel. — Bom dia, rainha. — ele disse, e eu quis rir só pra provocar. — Rainha? — abri mais a porta — Tu tá de sacan4gem comigo, né? — Papo reto, a partir de hoje tu não anda mais sozinha. — Ele olhou por cima do meu ombro, varrendo a sala com o olhar invasivo — Aqui é frágil demais. Porta enferrujada, grade bamba. Qualquer um entra. — A minha casa não te diz respeito. — Tudo que respira perto de tu me diz respeito, Valentina. — Tu é maluco. — Sou prevenido. — Deu um passo pra frente, ocupando a entrada sem pedir licença — Pega tuas coisas. — Hã? — Vem comigo. — Eu não vou a lugar nenhum contigo. — Sorri com raiva — A menos que seja pro inferno, e olha… lá tu já mora. Ele riu baixo, sem mostrar dente. — Tu fala bonito quando tá nervosa. — E tu fala grosso quando tem platéia. — Não preciso de platéia. — O olhar dele nem piscava — Preciso de tu num lugar seguro. — Se eu disser não? — Eu digo sim por nós dois. — Isso se chama sequestro. — Chama proteção… — corrigiu, calmo demais — só que tu ainda não gosta do nome. Feeling r**m subiu o pescoço. Não era só medo. Era adrenalina também, aquela que dá nas pernas quando a gente corre no beco e sabe que pode cair. Eu não ia dar gostinho. — Coroa… — gritei pra dentro — fica de olho no Yuri. Já volto. Meu pai apareceu na porta com cara de preocupado. — Filha… — Relaxa, pai. Só vou ali xingar um psicopata e já volto. Dante me encarou, um brilho satisfeito no olho. Fechei o portão atrás de mim, e os dois soldados já abriram caminho como se eu fosse autoridade. Desci a viela ao lado dele, calçada esburacada, paredes grafitadas, o Luar desperto e curioso. Tinha gente que baixava o olhar, tinha gente que seguia a gente com a vista, tinha quem cochichasse “é ela” como se eu fosse capa de jornal. — Tu gosta, né? — falei sem olhar pra ele — De desfilar com gente no teu lado, fazer o povo achar que tu é um príncipe. — Eu gosto de saber onde tu tá. — A voz veio baixa, quase quente — O resto é cenário. — E tu gosta de cenário caro, pelo visto. — Vai ver. Subimos até o alto do morro por um caminho que eu nunca tinha feito. Portões grandes, câmera em cada canto, cachorro que parecia carro de som de tão enorme. Entramos. A mansão do Dante é um tapa de realidade na cara, piso que brilha, quadro caro na parede, vidro pra todo lado refletindo o Luar como se o morro fosse obra de arte. E, lá fora, a pobreza colando no muro como pele. Luxo proibido cercado de tijolo aparente. — Tu construiu um castelo no barranco. — comentei, seca. — É meu trono. — Ele olhou pela janela, dono da vista e do morro. — Bonito pra car4lho. — Levantei o queixo — Pena que fede a prisão. Ele virou pra mim devagar, um sorriso torto no canto da boca. — Tu vai gostar. — Apontou um corredor — Teu quarto é lá em cima. — Meu o quê? — ri alto — Tu tá brincando comigo. — Teu quarto. — Repetiu sem pressa — Ou tu acha que eu ia te trazer aqui pra ficar na sala? — Eu não fico. — Cruzei os braços — Eu não moro contigo, eu não durmo aqui, eu não… — Tu não decide isso. — Decido sim, porr4! — Valentina. — Ele chegou tão perto que eu senti o perfume caro misturado com pólvora — A partir de agora, tu é minha. Eu explodi. — Eu sou tua porr4 nenhuma! — As palavras saíram cortando — Tu é arrogante, maluco, psicopata. Acha que pode encostar na vida de todo mundo, fazer continha com gente, tratar gente como objeto. Mas comigo não. Eu não sou peça do teu tabuleiro, Dante. Eu sou a mão que vira o tabuleiro na tua cara. Ele ouviu tudo com a calma de quem já apaziguou incêndio olhando pra chama. No final, riu. E o riso dele me irrita porque beira o sedutor. — Pode espernear, xingar, me prometer o inferno. — Encostou a ponta do dedo no meu queixo, e eu tive vontade de morder — Eu já escolhi. — Tu não tem esse direito. — Eu comprei esse direito com sangue. — E eu compro de volta com teimosia. — Tu vai cansar. — Duvido. Ele deu dois passos atrás, me medindo de cima abaixo como quem confere joia rara. — Vão avisar teu coroa que tu vai ficar um tempo por aqui. — Fez sinal pro soldado — Mandem cesta de mercado na casa dela todo dia. E reforça segurança no quarteirão. — Nem vem. — Eu puxei o celular — Eu ligo pro meu pai. — Liga. — Ele encolheu os ombros — E diz que tu tá segura. Porque tu tá. — Segura numa gaiola. — Gaiola que voa ninguém devolve. — Tu fala cada merd4 bonita. — E tu transforma insulto em poesia. — Ele sorriu, curto — Gostei. Virei a cara pra não sorrir de volta. Eu não ia dar esse presente pra ele. Fiquei olhando a vista, o morro todo numa moldura de vidro, criança empinando pipa no telhado, roupa colorida tremulando na laje. Aqui em cima, ar-condicionado sussurra. Lá embaixo, o calor lambe a nuca de quem trabalha. — E se eu resolver fugir? — perguntei, só pra ferir. — Te busco. — A resposta foi tão simples que doeu — Em qualquer buraco do mundo. — Que romântico. — Rolei os olhos — Psicopata com Google Maps. — Eu sou o cara que não perde. — Ele deu de ombros — Pior, eu sou o cara que não abre mão. — E eu sou a mulher que não abaixa a cabeça. — A gente vai se divertir. — Tu vai se frustrar. Ele riu outra vez, o desgraçado. Andou até a porta do meu “quarto”, cama enorme, lençol que parecia nuvem, flores numa mesa lateral, um vestido pendurado no cabide como se alguém já soubesse meu tamanho. — Eu não vou vestir isso. — Tu vai vestir o que quiser. — Ele encostou no batente — Só não vai sair daqui sem mim. — Isso é sequestro. — Isso é cuidado. — A voz veio mais baixa, uma linha de calor na espinha — Tu mexeu comigo. O Luar é cova rasa pra quem mexe com o que é meu. — Eu não sou tua. — Ainda. Fiquei sem resposta por um segundo. Ódio. E outra coisa. Uma coisa que acelera o coração do jeito errado. Me segurei no sarcasmo como quem segura no corrimão da escada. — Sai do meu quarto, Rei do Barranco. — “Teu” quarto. — ele repetiu, gostando do som. Depois piscou pro soldado lá fora — Ninguém entra. Se ela tentar sair, avisa primeiro. Se insistir, segura. Com cuidado. — Ai de vocês se puserem a mão em mim. — rosnei. — Só eu ponho. — E disse isso sem pressa, como quem promete tarde de domingo. — Vai embora, Dante. Ele ficou mais um segundo, me olhando como quem decora. Ajeitou o relógio, guardou o celular no bolso e sorriu daquele jeito que dá vontade de jogar vaso na parede. — Bem-vinda ao alto, Valentina. — Que caia a tua mansão, de preferência em cima da tua cara. — Até já. Quando ele saiu, o silêncio ficou barulhento. Eu odiei as cortinas bonitas, odiei o cheiro de flor cara, odiei a vista, odiei o coração batendo mais rápido. Encostei a cabeça na janela. Lá embaixo, a vida seguia normal, e aqui em cima eu tava presa numa caixa de luxo. Apertei o celular na mão. Quis chorar de ódio. Em vez disso, ri de mim mesma. — Tu é føda, Valentina. — sussurrei — Mas esse desgraçado te deixa com adrenalina de primeira. Se fudeü em cinquenta tons de fod4-se diferentes. O peito bateu outra vez, torto, apressado, sem pedir licença. Eu não ia admitir nem sob tortura, mas fazia tempo que nada me acelerava assim. E isso, justamente isso, me deu mais raiva do que medo.
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