Dante
Três dias. Essa foi a promessa que Valentina cuspiu na minha cara, com aquele queixo empinado que parecia desafiar até o próprio destino.
Eu aceitei. Não porque precisava do dinheiro dela, grana aqui é detalhe, eu cato na rua com um estalar de dedo, mas porque eu queria ver se ela ia ter coragem de voltar.
E voltou. Subiu a ladeira com nota miúda, peito estufado e olhar que não tremia. Pagou a dívida do moleque e ainda por cima soltou deboche no meio da minha tropa.
— Tá pago. E antes que venha falar merd4, eu não devo nada pra você. — disse, encarando meus olhos como se estivesse na frente de um espelho e não do dono da favela.
Os homens seguraram o riso nervoso, mas eu só pensei em uma coisa: essa mulher não sabe o que faz comigo. Valentina não é só mais uma. É faca que corta em silêncio. É dinamite que acende sozinha.
Naquela noite, depois que ela sumiu pelas vielas, sentei no terraço do casarão. O vento trouxe cheiro de pólvora e churrasco. Mas o que ficou na minha cabeça foi o cheiro dela, de sabonete barato misturado com suor e coragem. Eu, Dante Ravel, que nunca perdi sono por mulher nenhuma, tava com a mente acesa por causa de uma marrenta baixinha.
De manhã, o rádio chiou. Notícia quente, o morro da Coroa tava se mexendo, sondando território dentro do Luar. Rivalidade antiga, só que agora com ousadia demais. Levantei, vesti a camisa preta, engatilhei minha pistola e chamei meus homens.
— Quero todo mundo no Mirante em vinte minutos. — Minha voz ecoou na sala — Quem atrasar, nem precisa chegar.
Não demoro pra entender o jogo. Conheço cada viela do Luar melhor do que conheço a mim mesmo. Se eles tão rondando, é porque alguém de dentro abriu a boca. Traição fede de longe, e eu sinto o cheiro no ar.
No Mirante, o sol batia nos rostos suados dos meus soldados. Eu desenhei no chão com um pedaço de carvão o mapa da favela.
— A Coroa vai tentar entrar por aqui, pela Rua dos Telhados. — Apontei — Mas a gente já fecha antes. Quero três de vocês espalhados em cada beco. Se ver movimento estranho, não espera. Atira primeiro.
Os caras assentiram, sérios. Sabem que comigo não tem espaço pra erro.
Mas no meio do planejamento, a lembrança dela voltou. O sorriso debochado, a forma como cuspiu “reizinho da favela” sem pestanejar. A coragem de me encarar como se eu fosse só mais um. Minha mão fechou em punho sozinha.
— Chefão, tudo certo? — Freitas, meu braço direito, perguntou.
— Certo nada, irmão. — Respirei fundo — Quero mais, chama o Yuri. O moleque da Valentina. Quero ele aqui até o fim do dia.
Freitas arregalou o olho.
— O irmão dela?
— Isso mesmo. — Olhei fixo — Quero ver se a marrenta aparece de novo. E quero que apareça na minha frente.
À tarde, trouxeram o Yuri. Moleque nervoso, mão tremendo, suado. Eu sentei na cadeira como rei em trono improvisado.
— Três dias atrás, tua irmã me enfrentou como se fosse dona do morro. — Cruzei os braços — Agora você vai pagar a ousadia dela.
— Eu não fiz nada, chefão… — o garoto balbuciou.
— Calado. — Minha voz cortou o ar — Aqui, quando alguém me desafia, eu marco território.
Mandei um dos soldados buscar a Valentina. Não demorou. Ela chegou bufando, descendo a ladeira como tempestade. O sol batia no rosto dela, e o olhar era pura faísca.
— Tá de sacan4gem comigo, Dante? — Ela já chegou atirando palavras — Puxar meu irmão pra esse teu circo de macho armado?
Levantei devagar.
— Tu falou demais aquele dia, Valentina. E ninguém fala comigo daquele jeito sem consequência.
Ela cruzou os braços, queixo empinado.
— Se for me intimidar, vai ter que tentar mais. Eu não abaixo a cabeça pra ninguém.
Os soldados ficaram mudos, esperando a explosão. Eu encostei perto dela, tão perto que senti o coração dela acelerar. Não era medo. Era raiva misturada com algo que ela mesma não queria admitir.
— Agora tu tá na minha mira, rainha. — Sussurrei, só pra ela ouvir — E daqui não tem como fugir.
Ela riu, debochada.
— Na tua mira? Cê acha que eu sou alvo fácil?
— Não, Valentina. — Passei a língua nos lábios, devorando com o olhar — Tu é alvo difícil. E é exatamente por isso que eu quero te acertar.
Os olhos dela brilharam, não de medo, mas de provocação. A favela inteira parecia prever tempestade. Era guerra e desejo, tudo misturado na mesma viela.
No final, liberei o Yuri. Queria que a mensagem fosse clara: não era ele que me interessava, era ela. Valentina. A mulher que ousou me olhar nos olhos sem tremer. A única que me fez sentir algo que não sinto nem quando o sangue jorra quente nas minhas mãos.
Fiquei no alto do morro, observando enquanto ela descia com o irmão pela viela. O cabelo preso, a boca ainda curvada no deboche. Eu podia mandar apagá-la ali mesmo. Podia acabar com a insolência dela em segundos.
Mas não.
Prefiro o jogo. Prefiro o desafio. Prefiro vê-la resistir até o último segundo, porque quanto mais ela resiste, mais eu quero quebrar essa armadura.
Acendi um cigarro e soltei a fumaça pro vento.
— Tu não sabe, Valentina… — sussurrei sozinho, com um sorriso torto — Mas já é minha, quer queira ou não.
E quando o Rei do Luar escolhe um alvo… ninguém escapa.