Amélia abriu a gaveta da escrivaninha com cuidado, como se o barulho pudesse atrair atenção. Tirou o envelope branco dobrado ao meio e leu o valor mais uma vez, mesmo já sabendo de cor. A clínica particular do pai cobrava quinze mil por mês. Quinze mil que o plano de saúde não cobria por completo. Quinze mil que ela pagava sozinha, mês após mês, desde que o acidente o deixara com sequelas neurológicas graves.
Ninguém no escritório sabia.
Ninguém precisava saber.
Ela guardou o envelope de volta, trancou a gaveta e voltou a digitar. Os dedos se moviam com precisão, mas a mente não acompanhava. Cada humilhação, cada café frio, cada olhar de desprezo de Adrian valia aqueles quinze mil. Valia a cama hospitalar limpa, os remédios de última geração, a enfermeira particular que o tratava com dignidade. Se ela perdesse o emprego, o pai voltaria para o SUS. E o SUS, naquele momento, era uma sentença.
Por isso ela aguentava.
Às 12h40, Adrian ergueu a voz sem sequer sair da cadeira.
— Amélia.
Ela apareceu na porta em menos de dez segundos.
— Preciso do almoço do restaurante italiano da Rua Augusta. O de sempre. Não o que fica perto. O outro. O que demora.
Ela já sabia qual. Ficava a quase quarenta minutos de trânsito no horário de pico. Ele sabia disso também.
— Sim, senhor.
— E não demore. Estou com fome.
Amélia pegou a bolsa, o cartão corporativo e saiu sem responder. No elevador, apertou o botão do térreo com mais força do que o necessário. Quarenta minutos de ida. Quarenta de volta. Mais o tempo de espera. Ele tinha restaurantes excelentes a cinco minutos dali. Mas escolhia sempre o mais longe quando queria lembrar a ela quem mandava.
No caminho, o trânsito estava pior do que o previsto. Um acidente na Marginal. Ela ficou parada por dezessete minutos, olhando o relógio no painel do Uber como se pudesse acelerá-lo com o olhar. Quando finalmente chegou ao restaurante, o pedido já estava pronto — ela tinha ligado antes. Pagou, agradeceu e voltou.
Chegou ao escritório às 14h12.
O coração batia rápido demais quando empurrou a porta do gabinete de Adrian. Ele estava sentado, manga da camisa arregaçada até o cotovelo, comendo tranquilamente um prato de salmão grelhado com legumes. O cheiro de comida quente encheu a sala.
Amélia parou no meio do caminho, a sacola do restaurante italiano ainda na mão.
Adrian levantou os olhos, mastigou devagar e engoliu.
— Você demorou.
— Houve um acidente na Marginal. O trânsito—
— Eu não pedi justificativa. Pedi almoço. Como você demorou, eu pedi outra coisa.
Ele apontou com o garfo para a sacola que ela segurava.
— Pode comer o que trouxe. Não vou desperdiçar.
Amélia sentiu o estômago revirar. Não de fome. De humilhação.
— Senhor Moreira, eu posso—
— Sente. Come. Agora.
A ordem veio baixa, mas firme. Ele não gritou. Nunca precisava gritar. Amélia olhou ao redor. Não havia outra cadeira além da de visitas, do outro lado da mesa enorme. Ela se sentou, abriu a sacola e tirou o prato de massa. O molho já estava frio. O queijo derretido endurecido.
Adrian continuou comendo o salmão em silêncio, observando-a de canto de olho. Cada garfada dele parecia deliberada. Lenta. Como se estivesse saboreando mais a situação do que a comida.
Amélia comeu. Não porque quisesse. Porque ele estava esperando. Porque recusar seria pior. O gosto da massa fria grudou na língua. Ela mastigou, engoliu, repetiu. Os olhos ardiam, mas ela não permitiu que nenhuma lágrima aparecesse. Não ali. Nunca ali.
Quando terminou, ele empurrou o próprio prato vazio para o lado e limpou a boca com o guardanapo de linho.
— Pode levar isso embora. E limpe a mesa.
Ela obedeceu em silêncio. Ao sair, sentiu o olhar dele grudado nas suas costas até a porta se fechar.
Às 16h30, Adrian a chamou de novo.
Amélia entrou com o tablet na mão, pronta para anotar qualquer alteração de agenda.
Ele estava de pé, perto da janela, olhando a cidade. A luz da tarde batia no perfil dele, destacando a linha dura da mandíbula.
— Hoje à noite tem um evento. Eu esqueci de avisar.
Ela sentiu o corpo tensionar.
— Que tipo de evento?
— Uma festa. Privada. Começa às vinte horas. Você vai me levar.
Amélia piscou.
— Me levar… como motorista?
— Exato. O motorista particular está de folga. Você dirige bem, não dirige?
Ela dirigia. Mas o carro dele era um sedan preto de luxo que custava mais do que ela ganharia em anos. E dirigir o chefe até uma festa depois de um dia inteiro de humilhações era só mais uma camada.
— Senhor, eu não sabia que—
— Agora sabe. Esteja no estacionamento subterrâneo às 19h45. Roupa social. Nada chamativo. Você não vai entrar na festa. Só vai me deixar e esperar.
Ele se virou. O olhar era o mesmo de sempre: frio, calculado. Mas havia um leve divertimento no canto da boca, como se já estivesse imaginando o cansaço no rosto dela às duas da manhã.
— Alguma dúvida?
Amélia apertou o tablet contra o peito.
— Nenhuma.
— Ótimo. Pode voltar ao trabalho.
Ela saiu. No corredor, apoiou-se por um segundo na parede fria. O pai precisava da clínica. A clínica precisava do dinheiro. O dinheiro vinha daquele emprego. Aquele emprego vinha daquele homem.
Ela endireitou a postura e voltou para a mesa.
Às 19h45 em ponto, Amélia estava no estacionamento subterrâneo. Tinha trocado a blusa do dia por uma social preta mais simples, penteado o cabelo e passado um batom discreto. O carro de Adrian já estava ali, pretinho, impecável. As chaves foram entregues pelo segurança com um olhar de pena m*l disfarçado.
Ela entrou no banco do motorista, ajustou o banco e o retrovisor. O cheiro de couro novo e perfume masculino caro invadiu o nariz. Era o cheiro dele.
Pontualmente às 19h50, Adrian apareceu. Terno escuro, gravata trocada, cabelo perfeitamente arrumado. Abriu a porta traseira e entrou sem dizer uma palavra.
Amélia ligou o motor.
— Para onde? — perguntou, voz neutra.
Ele ditou um endereço em um bairro nobre, longe do centro. Depois se recostou no banco, abriu o celular e começou a digitar.
O silêncio dentro do carro era denso. Amélia dirigia com cuidado, prestando atenção em cada conversão, cada semáforo. De vez em quando, pelo retrovisor, via o perfil dele iluminado pela tela do celular. Concentrado. Intocável.
Ela apertou o volante com mais força.
Mais algumas horas. Só mais algumas horas. Depois ela poderia ir para casa, tomar um banho quente e ligar para a clínica para saber se o pai tinha comido.
Até lá, ela aguentaria.
Como sempre.