1. Café.
O elevador abriu no vigésimo segundo andar com um tilintar suave demais para a irritação que Amélia já carregava. Eram 8h22. Ela havia chegado às 7h50, como sempre, organizado a agenda do dia, respondido três e-mails urgentes e preparado o café exatamente do jeito que Adrian exigia: espresso duplo, sem açúcar, em xícara preta de porcelana fina, temperatura precisa. Tinha testado a temperatura com a mão, como fazia há onze meses. Estava perfeito.
Ainda assim, o estômago dela já estava revirado.
Ela atravessou o corredor de carpete cinza, segurando a xícara com cuidado. O escritório de Adrian ficava no final, isolado por portas de vidro fosco. A assistente da recepção, Mariana, levantou os olhos e fez uma careta de solidariedade silenciosa. Amélia respondeu com um meio sorriso cansado e continuou.
Bateu duas vezes na porta e entrou sem esperar resposta. Ele nunca respondia.
Adrian estava sentado atrás da mesa grande de madeira escura, jaqueta do terno pendurada no encosto da cadeira, camisa branca perfeitamente passada, gravata n***a ainda frouxa. Os olhos escuros estavam fixos no monitor. Não ergueu o olhar quando ela se aproximou.
Amélia colocou a xícara à esquerda dele, exatamente onde ele gostava.
— Seu café — disse, voz neutra, profissional.
Ele continuou digitando por mais cinco segundos. Depois, sem pressa, estendeu a mão, pegou a xícara e levou aos lábios. Tomou um gole mínimo. O rosto não mudou. Apenas pousou a xícara de volta na mesa com um clique seco.
— Está frio.
Amélia sentiu o maxilar travar.
— Eu preparei há menos de três minutos.
— Então você preparou errado. Está frio.
Ele finalmente ergueu os olhos. O olhar dele era o mesmo de sempre: avaliador, distante, como se ela fosse apenas mais um item da lista de tarefas. Mas havia algo a mais naquele dia. Um leve brilho no canto da boca, quase imperceptível. Como se estivesse esperando a reação dela.
Amélia respirou fundo pelo nariz.
— Posso preparar outro.
— Não. Esse você bebe.
Ela piscou.
— Como?
Adrian inclinou-se um pouco para trás na cadeira, cruzando os braços sobre o peito. A camisa esticou nos ombros largos. Ele a observava com uma calma quase preguiçosa.
— Você ouviu. Está frio. Eu não bebo café frio. Então você bebe esse e traz outro. Quente. Como deveria ter sido desde o início.
O silêncio se estendeu por dois segundos. Amélia sentiu o calor subir pelo pescoço. Não era vergonha. Era raiva pura, densa, que ela precisava engolir todos os dias.
— Senhor Moreira — começou, voz controlada —, eu preparei o café na temperatura correta. Se esfriou nos segundos que levei para chegar até aqui, talvez o problema seja a distância entre a cozinha e esta sala.
Ele arqueou uma sobrancelha, lentamente.
— Está questionando minha percepção agora?
— Estou apenas apontando um fato.
— Então aponte outro fato: você vai beber esse café. Agora. E depois traz o meu do jeito certo.
Amélia olhou para a xícara preta sobre a mesa. O líquido ainda soltava um fio de vapor. Não estava frio. Estava, no máximo, morno. Ele sabia. Ela sabia que ele sabia.
Ela pegou a xícara. Os dedos tocavam a porcelana quente. Levou aos lábios e tomou um gole deliberadamente longo. O espresso era forte, amargo, exatamente como ele gostava. Engoliu sem fazer careta, embora o gosto ficasse preso na garganta.
— Pronto — disse, devolvendo a xícara vazia sobre a mesa com um leve baque. — Agora vou preparar o seu.
Adrian não respondeu de imediato. Os olhos dele desceram até a boca dela por uma fração de segundo, depois voltaram ao rosto. Havia algo ali — curiosidade, talvez. Ou só o prazer de ver alguém engolir a própria irritação.
— Depressa — murmurou ele. — Tenho reunião às nove.
Amélia girou nos saltos e saiu. A porta se fechou atrás dela com um clique suave demais.
No corredor, ela soltou o ar que estava prendendo. As mãos tremiam levemente, não de medo, mas de raiva. Raiva de ter engolido aquele café. Raiva de precisar do emprego. Raiva do jeito como ele a olhava, como se estivesse testando até onde ela aguentava.
Mariana levantou a cabeça quando Amélia passou pela recepção.
— Outro café?
— Outro café — respondeu Amélia, voz baixa. — E ele fez eu beber o primeiro.
Mariana bufou.
— Um dia você vai jogar a xícara na cara dele.
— Um dia — concordou Amélia, sem sorrir.
Na cozinha executiva, ela preparou o segundo café com precisão cirúrgica. Máquina calibrada. Água filtrada. Tempo exato de extração. Xícara aquecida. Tudo perfeito. Enquanto esperava, apoiou as mãos na bancada fria de mármore e fechou os olhos por um segundo.
Onze meses. Onze meses aguentando aquele homem. Onze meses sendo a única pessoa no prédio que conseguia entregar tudo o que ele pedia e, ainda assim, ser tratada como se fosse incompetente. O pior era que ele parecia se divertir. Não era só exigência. Era algo pessoal. Como se a irritação dela o alimentasse.
Ela odiava isso.
Odiava ainda mais o fato de que, às vezes, quando ele a olhava daquele jeito — avaliando, esperando a reação —, alguma coisa no peito dela reagia. Não era atração. Era tensão. Uma tensão densa, desconfortável, que ela recusava nomear.
Quando o café ficou pronto, Amélia voltou ao escritório. Dessa vez não bateu. Entrou e colocou a xícara nova no mesmo lugar.
Adrian pegou, tomou um gole e assentiu uma única vez.
— Melhor.
Não disse “obrigado”. Nunca dizia.
Amélia ficou em pé, esperando alguma outra ordem. Ele voltou a digitar. Depois de alguns segundos, sem erguer os olhos, falou:
— A pasta da reunião das nove. Você esqueceu de colocar a versão atualizada do contrato no arquivo digital.
— Eu atualizei às 7h55 — respondeu ela, voz firme. — Está na pasta compartilhada, subpasta “Reuniões – Agosto”.
Ele parou de digitar. Levantou o olhar novamente. Dessa vez o brilho era mais claro. Quase um sorriso contido.
— Então porque não está na minha mesa impressa?
— Porque o senhor pediu apenas a versão digital ontem à noite. Eu posso imprimir agora, se preferir.
— Imprima. E traga.
Amélia saiu de novo. No caminho até a impressora, passou a mão pelo rosto. O dia m*l tinha começado e ela já estava exausta.
Adrian observou a porta se fechar atrás dela.
O café estava perfeito. O primeiro também tinha estado. Ele sabia.
Ainda assim, tinha feito ela beber.
Não sabia exatamente por quê. Só sabia que ver Amélia engolir a irritação, manter a postura, responder sem perder o controle… o entretinha. A maioria das pessoas se dobrava ou se quebrava. Ela fazia as duas coisas ao mesmo tempo: se curvava o suficiente para não ser demitida e, ao mesmo tempo, o desafiava com os olhos.
Isso o irritava.
E, de algum modo, o prendia.
Ele olhou para a xícara vazia que ela havia bebido. Os lábios dela tinham deixado uma marca quase invisível na borda. Adrian desviou o olhar, irritado consigo mesmo por ter notado.
Onze meses e ela ainda conseguia tirá-lo do eixo com um simples “senhor Moreira” dito naquele tom controlado. Como se ela estivesse sempre a um passo de dizer o que realmente pensava.
Ele queria ouvir.
E odiava querer.
Quando Amélia voltou com a pasta impressa, ele a pegou sem comentar. Ela ficou em pé por um segundo a mais do que o necessário, esperando. Ele não a dispensou imediatamente. Deixou o silêncio se alongar só para ver se ela se mexia primeiro.
Ela não se mexeu.
— Pode ir — disse ele, por fim.
Amélia saiu. A porta se fechou.
Adrian ficou olhando para o espaço vazio por alguns segundos. Depois voltou ao computador, mas a concentração não voltou tão rápido quanto deveria.
O dia ia ser longo.
E, de alguma forma, ele já estava esperando a próxima vez que ela entraria naquela sala.