3° A Preparação

898 Words
Safira passou a mão pelo rosto molhado, irritada por perceber que, de certa forma, Miriam estava certa. — Ele é um bom príncipe — continuou Miriam, agora mais leve — dizem que é bonito, educado… inteligente, sabe ouvir, sabe falar… o tipo raro um homem desse. Safira arqueou uma sobrancelha. — Está tentando me vender um cavalo ou um marido? Miriam sorriu de canto. — Estou tentando te lembrar que poderia ser pior — Safira afundou um pouco mais na água — Para qualquer outra mulher, talvez — murmurou. Seus olhos se fecharam por um instante. — Mas eu não sou qualquer outra mulher. O tom saiu mais firme agora, mais verdadeiro, Miriam se aproximou da banheira, apoiando-se levemente na borda. — Eu sei — disse, com calma — e talvez seja exatamente por isso que ele foi escolhido, Safira abriu os olhos lentamente, algo naquela frase…incomodou — Ou talvez — completou Miriam — porque seu pai sabe que você não seria facilmente dominada. O silêncio voltou, mas dessa vez diferente, mais denso, mais perigoso, Safira ficou imóvel por alguns segundos, sentindo novamente aquela mesma sensação estranha percorrer seu corpo, sutil… mas crescente, como um alerta. — Eu não vou ser dominada — disse por fim, baixa, mas firme. Miriam sustentou o olhar dela. — Então não seja. Simples assim, mas não era simples, nunca era, Safira apoiou a cabeça novamente, olhando para o teto coberto de vapor, o almoço se aproximava, o noivado também e, no meio de tudo aquilo…algo dentro dela continuava despertando e dessa vez, ela tinha quase certeza…não tinha relação nenhuma com política, casamento ou alianças, era algo mais antigo, mais profundo e muito mais perigoso, o vapor ainda pairava pelo quarto quando Miriam se afastou da banheira e caminhou até um canto onde um tecido cuidadosamente coberto aguardava. — Já que você decidiu não fugir… — disse ela, com um leve sorriso — acho que posso te mostrar isso. Safira nem precisou olhar para saber que não gostaria. — Se for o que eu estou pensando, já odeio. Miriam ignorou o comentário e puxou o pano, o vestido surgiu rosa, delicado, cheio de rendas que se espalhavam como pequenas ondas, camadas de saia que davam volume e movimento, o tecido leve, quase etéreo, não havia um decote exagerado, mas tudo ali gritava nobreza, suavidade… e uma feminilidade que não combinava em nada com o campo de batalha, Safira abriu os olhos, encarando aquilo em silêncio por um segundo. — Isso… — começou, saindo lentamente da banheira — parece uma armadilha. Miriam riu baixo. — É um vestido, lindo por sinal alteza. — É pior — respondeu Safira, pegando o tecido entre os dedos como se estivesse analisando uma arma desconhecida — com isso eu não consigo nem correr. — Exatamente — rebateu Miriam, divertida — hoje você não precisa correr. Safira lançou um olhar atravessado. — Você claramente não me conhece, mesmo com anos juntas você ainda não me conhece Miriam. Mas, mesmo resmungando, deixou que Miriam a ajudasse, ela precisava estar impecavel, mas a cada camada ajustada, a cada fita presa, Safira sentia como se estivesse sendo moldada à força em algo que não reconhecia, o tecido deslizava pela pele, leve demais, delicado demais… vulnerável demais, ainda assim…quando Miriam terminou, deu um passo para trás e a observou com atenção. — Pronto, você esta linda alteza. Safira virou-se devagar para o espelho, e por um instante… ficou em silêncio a mulher refletida ali não era a comandante coberta de poeira e suor, era uma princesa, o vestido caía perfeitamente em seu corpo, a saia rodando em camadas suaves, acompanhando cada pequeno movimento, os detalhes em renda traziam uma elegância quase intocável, e então… o cabelo, Miriam se aproximou, soltando os fios ainda levemente úmidos, ajeitando-os com cuidado até que caíssem pelas costas como uma chama viva, vermelho, intenso impossível de ignorar. Safira respirou fundo. — Eu pareço… — começou, sem saber terminar. — Perigosa — completou Miriam, com um leve sorriso. Safira soltou uma pequena risada. — Disso eu nunca deixo de ser. Miriam ajustou um último detalhe no vestido, alisando o tecido com cuidado. — Não — disse, mais suave — mas agora eles vão ver isso de um jeito diferente. Safira sustentou o próprio reflexo por mais um instante, algo ali ainda não encaixava, mas também…não era totalmente estranho, talvez porque, no fundo, aquela parte dela sempre existiu, só nunca foi necessária, até agora. — Vamos? — perguntou Miriam, estendendo a mão. Safira não pegou a mão, mas caminhou ao lado dela os corredores do castelo pareciam diferentes daquela vez, os olhares que recebia não eram os mesmos do campo de treino, havia admiração, curiosidade… surpresa, ela ignorou todos, seus passos eram firmes, mesmo com o vestido, mesmo com tudo aquilo, conforme se aproximavam do salão, o som de vozes começou a surgir, baixo, contido… formal demais, Safira sentiu o peito apertar levemente, não de medo, mas de antecipação, algo estava errado, aquela sensação outra vez, mais forte, mais presente, ela parou por um breve instante antes da grande porta e Miriam percebeu. — Ainda dá tempo de fugir — sussurrou, quase provocando. Safira soltou o ar pelo nariz, um meio sorriso surgindo. — Agora eu quero ver isso de perto. E sem esperar mais, empurrou as portas, o salão se abriu diante dela e com ele…o começo de tudo.
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