5° O Aviso

1177 Words
O som das conversas ainda preenchia o salão, mas para Safira tudo parecia distante, ela não desviou o olhar da mesa à sua frente mas falou. — E por que não? A voz saiu controlada, baixa mas firme o suficiente para cortar o fluxo da conversa ao redor, o rei a encarou. — Não entendi — respondeu, mesmo sabendo exatamente do que se tratava. Safira virou o rosto lentamente em sua direção, os olhos agora não escondiam nada. — Por que eu não posso continuar comandando as tropas… mesmo casada?vou me casar ou morrer? O silêncio se espalhou aos poucos, como uma onda, alguns fingiram não ouvir, outros… ouviram demais, o rei pousou a taça com calma, limpando os lábios com o guardanapo antes de responder, cada gesto calculado, cada segundo… uma forma de reafirmar autoridade. — Porque você terá outras responsabilidades. Simples, direto e irrevogável, Safira sustentou o olhar dele. — Eu já tenho responsabilidades — rebateu, sem elevar o tom — e sempre dei conta delas. O clima à mesa mudou, sutil mas perceptível. — E continuará dando — respondeu o rei — apenas em outro papel. Ela inclinou levemente a cabeça. — Como rainha? — Como rainha! As palavras pesaram, Safira soltou o ar lentamente, como se precisasse segurar algo muito maior do que a própria fala. — Eu não vejo por que uma coisa impede a outra pai. Alguns olhares se cruzaram à mesa, aquilo já não era mais apenas uma conversa o rei se inclinou um pouco para frente. — Porque um reino precisa de estabilidade — disse, mais sério agora — e uma rainha tem deveres que vão além do campo de batalha. — E um reino também precisa de alguém que saiba defendê-lo — retrucou ela, sem recuar. Os olhos dos dois se prenderam duro, direto, perigoso. — Você foi treinada para muito mais do que empunhar uma espada, Safira. — Fui treinada para liderar — corrigiu ela, firme. O rei não hesitou. — E é exatamente isso que fará — Uma pausa — Mas de outra forma. Aquilo soou como uma sentença, Safira apertou levemente os dedos sobre a mesa, sentindo novamente aquela energia pulsar sob a pele, como se reagisse à frustração crescente. — Então é isso? — disse, mais baixa agora — o senhor simplesmente decide… e eu deixo de ser quem sou? — Você não deixa de ser quem é — respondeu o rei, pela primeira vez com um leve peso na voz — você evolui para o que precisa ser. Safira soltou uma pequena respiração pelo nariz, quase um riso mas sem humor algum. — Curioso… — murmurou — porque parece mais que estou sendo reduzida. O silêncio ao redor agora era evidente, mesmo aqueles que tentavam ignorar já não conseguiam o rei a encarou por alguns segundos, mais do que um pai um rei. — Cuidado com suas palavras. O aviso veio baixo mas carregado, Safira sabia exatamente o que aquilo significava e foi aí que ela fez o que mais doía, se calou desviou o olhar, endireitou a postura, a princesa perfeita outra vez. — Como desejar, meu rei. As palavras foram impecáveis, mas vazias e, ainda assim…algo ali não se encerrava porque dentro dela…aquilo não tinha acabado, nem de longe, ao lado, Otávio observava em silêncio absoluto, sem interferir, sem interromper mas atento a cada palavra, a cada reação e, quando Safira finalmente voltou o olhar para a taça à sua frente…ela sentiu de novo, mais forte do que nunca, aquela presença, aquela energia como se algo dentro dela estivesse… acordando e talvez…já fosse tarde demais para impedir, o silêncio ainda pairava pesado quando Safira inspirou, pronta para falar de novo e dessa vez… ela não tinha certeza se conseguiria se conter, mas o rei foi mais rápido. — Já que estamos falando de deveres — disse ele, retomando a postura firme e ampliando a voz o suficiente para envolver toda a mesa — acredito que seja o momento ideal para lembrarmos de outra ocasião importante. A mudança foi brusca, intencional, os olhares se desviaram, aliviados por sair daquele confronto silencioso, Safira percebeu na mesma hora ele estava encerrando aquilo, ali, diante de todos. — Em poucos dias — continuou o rei — celebraremos o baile de dezoito anos da princesa Safira — Alguns murmúrios animados surgiram, era um evento esperado, grandioso — Um marco não apenas para a coroa… mas para nossa tradição — Safira ficou imóvel, ela sabia, claro que sabia, mas ouvir aquilo ali… naquele momento…era diferente — Como manda a tradição de nossa linhagem — a voz do rei ficou ainda mais firme — após o baile, a princesa deverá subir a montanha sagrada — salão silenciou outra vez, agora por um motivo completamente diferente — E tentar domar um dragão. As palavras ecoaram, pesadas, antigas, inevitáveis, Safira não demonstrou reação imediata, mas por dentro…algo se alinhou, algo fez sentido aquela sensação, aquele chamado constante que ela vinha ignorando, não era apenas sobre o casamento, nunca foi, o rei continuou: — Somente assim seu lugar será plenamente reconhecido… não apenas como herdeira… mas como verdadeira rainha. Agora todos olhavam para ela, expectativa,curiosidade, até admiração mas ninguém ali sabia o que realmente significava, Safira lentamente ergueu o olhar e, pela primeira vez desde o início do almoço…não havia hesitação, não havia dúvida, apenas algo firme, quase… instintivo. — E se eu não conseguir? — perguntou, a voz calma demais para o peso da pergunta. O rei não desviou. — Você conseguirá. Não foi um incentivo, foi uma certeza imposta, Safira inclinou levemente a cabeça. — Não foi o que eu perguntei. O silêncio voltou, mais tenso agora, o rei sustentou o olhar dela por alguns segundos. — Então não haverá coroa. Direto, sem suavizar, alguns dos presentes trocaram olhares discretos, aquilo não era apenas tradição, era risco real, Safira deixou o ar escapar lentamente e, para surpresa de muitos…um leve sorriso surgiu em seus lábios, mas não era um sorriso suave era desafiador vivo. — Então talvez seja a primeira coisa hoje… que realmente valha a pena. A resposta cortou o ar, diferente de tudo que ela havia dito até ali, porque dessa vez…não havia submissão, o rei a observou em silêncio e algo em seu olhar mudou novamente aquilo, sim… ele reconhecia era a Safira que ele criou ao lado, Otávio não disfarçou o interesse. — Dragões… — murmurou, baixo, quase para si mesmo — agora isso é algo que eu gostaria de ver você fazer. Safira lançou um olhar rápido a ele. — Não é um espetáculo. — Eu imagino — respondeu ele, encontrando o olhar dela com um leve brilho curioso — mais…é um desafio à altura. Por um breve instante, algo diferente passou entre os dois, não era conexão, mas também não era indiferença e então… aquilo voltou, mais intenso, mais próximo aquela energia dentro dela reagiu de novo, mas dessa vez…não era apenas inquietação, era como um chamado, a montanha, o dragão algo estava esperando por ela e, pela primeira vez…Safira não quis fugir.
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