O dia havia chegado, finalmente havia chegado, diferente de todas as outras provas que Safira enfrentou, aquela não envolvia espada, estratégia ou força física, era algo mais antigo, mais profundo era tradição de gerações.
Ao amanhecer, o céu ainda estava tingido de tons suaves quando Safira deixou o castelo, vestia roupas leves de combate, os cabelos vermelhos presos para trás, o olhar firme, os guardas a acompanharam em silêncio durante a subida pelas trilhas íngremes das montanhas, ninguém falava era um momento sagrado quando alcançaram o limite permitido, o capitão da guarda parou.
— Daqui em diante, Alteza… é um caminho que deve trilhar sozinha, estaremos a sua espera na arena.
Safira assentiu sem hesitar, sem olhar para trás, e ela seguiu o vento nas alturas era mais forte, o ar mais frio, mas havia algo mais ali… uma energia diferente, antiga, quase viva, quando finalmente atravessou a última formação rochosa, ela parou, diante dela se estendia um vale oculto, e nele…dragões.
De todos os tamanhos, cores e formas, alguns descansavam sobre pedras aquecidas pelo sol, outros cruzavam o céu com asas imensas, cortando o vento com imponência, Safira ficou imóvel por um instante, não por medo mas por respeito afinal aquele não era um lugar de humanos era deles, ela deu alguns passos à frente, o coração acelerando.
— Eu estou pronta…eu nasci para isso — sussurrou.
Mas nenhum dragão se aproximou, alguns a observaram, outros simplesmente a ignoraram até que ela sentiu uma presença forte como um puxão invisível dentro do peito, Safira virou o rosto lentamente e então a viu entre as formações rochosas, uma dragoa lilás surgiu, suas escamas refletiam a luz como se fossem feitas de pedra preciosa, as asas eram amplas, elegantes, e seus olhos verdes eram intensos… conscientes, antigos a conexão foi imediata.
A dragoa não avançou com agressividade, não rugiu apenas caminhou até ela… e então abaixou a cabeça em reverência o mundo pareceu parar o coração de Safira disparou.
— Você… me escolheu?
No instante em que deu um passo à frente, algo explodiu dentro dela uma luz, um calor, um brilho intenso surgiu em suas mãos, espalhando-se rapidamente por seus braços como veias de energia viva, Safira ofegou.
— O que é isso…?
O chão ao redor tremeu levemente, faíscas vermelhas dançavam no ar a energia crescia, pulsava, preenchia cada parte do corpo dela era forte demais incontrolável, até que calma uma voz ecoou em sua mente, era a dragoa.
— Não lute contra isso.
Safira fechou os olhos, tentando respirar.
— Eu não sei controlar…não sei o que é isso!
— Eu sei, calma, você só precisa se acalmar e controlar essa força vem de dentro de você.
A dragoa se aproximou mais, encostando o focinho na testa dela, o contato foi como um choque suave a energia respondeu, se estabilizou, o calor deixou de ser caos… e se tornou força Safira abriu os olhos lentamente o brilho ainda estava ali mas agora… obedecia.
— O que eu sou? — sussurrou.
A resposta veio com serenidade.
— Você é mais do que acredita, você é poderosa.
Safira respirou fundo, sentindo a conexão firme entre elas.
— Qual é o seu nome?
— Nyxiara, a sua guardiãn aparti de hoje.
O nome ecoou como um chamado antigo, Safira sorriu pela primeira vez desde que chegou ali um sorriso verdadeiro.
— Então somos nós, Nyxiara, sou Safira.
A dragoa abriu as asas, imponente, sua presença tão forte quanto a Safira, duas forças, duas chamas,duas essências que se reconheceram sem precisar de palavras e naquele instante…Safira deixou de ser apenas uma princesa tentando provar seu valor, ela se tornou algo maior, algo que nem mesmo o reino estava preparado para compreender a herdeira escarlate havia sido escolhida o vento soprou entre as rochas, fazendo as asas de Nyxiara se moverem suavemente.
Safira ainda sentia a energia pulsando dentro de si, mais calma agora, mas viva, presente como se tivesse estado ali o tempo todo, apenas esperando o momento certo para despertar ela observou as próprias mãos, agora sem brilho, sem faíscas, mas sabia que estava ali.
— Isso… é perigoso? — perguntou, ainda tentando entender.
Nyxiara não respondeu de imediato, seus olhos verdes permaneceram fixos nela, profundos, como se avaliassem não apenas a pergunta… mas tudo o que viria depois dela.
— Não é o seu poder que é perigoso — Safira ergueu o olha — São aqueles que desejam controlá-lo.
Um silêncio pesado caiu entre elas, o coração de Safira apertou levemente.
— Meu pai… sabe?
— Não, provavemente não, quando uma criança nasce com esse poder ele só se apresenta no momento de conecção com o dragão.
— E ninguém mais pode saber! A chama escarlate não desperta há gerações, e a ultima vez que despertou… mudou reinos.
O vento aumentou, levantando levemente os cabelos vermelhos de Safira, ela sentiu um arrepio.
— Então… isso é algo que devem temer?
Nyxiara deu um passo à frente imponente.
— Isso é algo que vão querer controlar para beneficios proprios.
Aquelas palavras foram mais pesadas do que qualquer resposta, Safira entendeu, não era medo, era cobiça, reinos, reis, generais… todos desejariam algo assim poder, controle, vantagem, ela fechou a mão lentamente.
— Então ninguém pode saber.
— Exatamente — Nyxiara abaixou a cabeça até ficar próxima ao rosto dela — nem mesmo aqueles em quem você confia.
Safira hesitou por um instante, uma imagem passou pela mente dela rápida, olhos atentos uma presença firme, ela afastou o pensamento.
— Nem meu pai…
— Principalmente ele.
A resposta veio firme sem hesitação, Safira respirou fundo aquilo doeu mais do que esperava mas fazia sentido reis não pensavam como pais quando se tratava de poder.
— Eu vou controlar — disse, decidida. — Vou aprender tudo antes que alguém sequer desconfie.
Nyxiara a observou com aprovação silenciosa.
— Você não está apenas protegendo a si mesma — Safira franziu levemente o cenho — Está protegendo o equilíbrio.
O peso daquelas palavras caiu sobre ela mas, pela primeira vez, não como obrigação e sim como escolha, Safira ergueu o queixo.
— Então será nosso segredo.
Nyxiara abriu levemente as asas.
— Nosso e do proximo escolhido.
— Como assim proximo?
— Tem mais escolhidos por ai.
O vínculo entre elas se fortaleceu naquele instante, não apenas como guerreira e dragão mas como guardiãs de algo maior, algo antigo, algo que, se revelado cedo demais…poderia incendiar muito mais do que apenas um reino e Safira sabia que apartir daquele momento, ela não lutaria apenas contra destinos impostos, mas também contra o perigo de ser descoberta porque a herdeira escarlate agora carregava uma chama…que o mundo jamais deveria ver despreparado.