4° Decisão do Rei

1285 Words
As portas se abriram com um som firme, ecoando pelo salão e então… silêncio, as conversas cessaram quase no mesmo instante, como se alguém tivesse arrancado o som do ambiente, todos os olhares se voltaram para a entrada, para ela, Safira manteve o queixo erguido, os ombros alinhados, cada passo calculado, o vestido se movia com leveza ao redor de seu corpo, contrastando com a firmeza da sua postura. Ela sentia cada olhar, cada julgamento, cada expectativa mas não vacilou, nunca vacilava, antes que avançasse muitos passos, o rei já vinha ao seu encontro, a expressão dele havia mudado completamente, o homem rígido do escritório havia dado lugar ao rei impecável diante da corte. E ainda assim… havia algo mais ali, orgulho, ele parou diante dela, analisando-a por um breve instante. — Está… deslumbrante — disse, em um tom mais baixo, quase pessoal. Safira sustentou o olhar dele, sabia exatamente o que fazer, inclinou levemente a cabeça, em respeito. — Agradeço, meu rei. Automático, perfeito e distante, o rei assentiu, satisfeito, e então ofereceu o braço. — Venha, todos estão ansiosos para conhecê-la melhor. Ela aceitou, não porque queria, mas porque sabia o papel que precisava desempenhar, e então começou, nobres, conselheiros, aliados… um a um, Safira sorria no momento certo, inclinava a cabeça na medida exata, dizia as palavras adequadas como se tivesse ensaiado a vida inteira e talvez tivesse mesmo. — Princesa Safira, uma honra… — O reino fala muito de suas habilidades… — Dizem que lidera como um verdadeiro general… Ela respondia a todos, educada, controlada, impecável, por dentro…vazia ou talvez cheia demais, até que chegou o momento final, o único que realmente importava ali, o príncipe, ele estava um pouco afastado, conversando com alguns membros da corte, mas seus olhos já estavam nela muito antes de se aproximarem observando, avaliandouando finalmente ficaram frente a frente, o salão pareceu diminuir ao redor deles. Safira o encarou pela primeira vez desde que ela pisou naquele salão, Otávio era exatamente como diziam, postura impecável, olhar firme, traços bem definidos, havia elegância em cada detalhe… mas também algo mais sutil, algo mais atento do que o comum, ele deu um passo à frente e então, com a formalidade esperada, tomou a mão dela, seus lábios tocaram levemente sua pele, um gesto ensaiado mas não vazio. — Princesa Safira — disse ele, erguendo o olhar para encontrá-la — confesso que nenhuma descrição fez justiça. Ela não puxou a mão de imediato, mas também não correspondeu. — Alteza — respondeu, com a mesma medida de formalidade. Um leve sorriso surgiu nos lábios dele. — Sua presença é… marcante. Safira sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário, avaliando, medindo, sentindo e então retirou a mão com delicadeza. — Agradeço. Simples, educado, encerrando, Otávio percebeu, claro que percebeu mas não insistiu o que, de certa forma… chamou a atenção dela, a maioria tentaria continuar, ele apenas assentiu, como se respeitasse aquele limite invisível que ela havia imposto, interessante mas não o suficiente, Safira desviou o olhar, retomando a postura perfeita, o salão voltou a existir ao redor deles, as conversas retornaram, os olhares continuaram mas algo havia mudado, ela sentia, aquela mesma sensação outra vez, mais forte agora, mais próxima e, ao olhar brevemente de volta para Otávio…teve a estranha impressão de que ele também havia sentido. O salão foi lentamente se organizando à medida que todos tomavam seus lugares à mesa, Safira sentou-se ao lado de Otávio, como esperado, a cadeira parecia desconfortável demais, não pelo estofado… mas pelo peso do que aquilo representava, tudo era calculado, os talheres alinhados, as taças brilhando, os olhares discretos lançados na direção deles, ela manteve a postura impecável como sempre, mas seus sentidos estavam atentos a tudo, ao som, a respiração, aquela sensação crescente que insistia em não desaparecer. O rei se levantou e o salão silenciou imediatamente, Safira nem precisou olhar para saber o que viria. — Hoje — começou ele, com a voz firme ecoando pelo ambiente — celebramos não apenas uma união entre dois jovens dignos…— Uma pausa breve — Mas uma aliança entre reinos — Os olhares se voltaram para Safira e Otávio, ela não se moveu — Minha filha, princesa Safira — continuou — e o príncipe Otávio selarão, a partir deste dia, um compromisso que garantirá força, estabilidade e prosperidade aos nossos povos — As palavras eram fortes, bonitas e vazias para ela — Que este noivado seja o início de uma nova era. O rei fez um gesto sutil e então…Otávio se levantou, o movimento foi calmo, seguro ele se virou para Safira, retirando de um pequeno estojo um anel que capturou a luz do salão no mesmo instante, era belo, impecável, frio, Safira olhou para o objeto por um segundo, aquela era a confirmação o ponto sem retorno, ela ergueu a mão sem hesitar, sem tremer, Otávio deslizou o anel em seu dedo com cuidado, o toque leve, respeitoso. — Com sua permissão — murmurou ele, baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse. Safira não respondeu, mas não retirou a mão o anel se encaixou perfeitamente como se sempre tivesse pertencido ali e, ainda assim…não pertencesse, Otávio soltou sua mão devagar e então o rei ergueu a taça. — Aos noivos. — Aos noivos — ecoaram as vozes pelo salão. O som das taças se chocando preencheu o ambiente, Safira levou a sua aos lábios, mas m*l sentiu o gosto, o mundo parecia… distante, controlado demais como se tudo estivesse sendo conduzido sem que ela pudesse interferir e então, como se nada mais fosse além de um detalhe…as conversas mudaram naturalmente. — Com a união selada — disse um dos conselheiros — imagino que possamos avançar com as estratégias no norte. O rei assentiu. — Sim, inclusive, já antecipei algumas decisões — Safira ficou imóvel, algo na forma como ele disse aquilo…— As tropas precisarão de uma liderança estável neste novo momento — continuou o rei, olhando ao redor da mesa — por isso, convoquei um novo general — O silêncio não foi imediato, mas, para Safira…tudo parou — Ele chegará nos próximos dias para assumir o comando dos exércitos reais — A frase caiu como um golpe, direto, preciso ela não respirou por um segundo, não piscou, nada — Naturalmente — completou o rei — após o casamento, a princesa Safira terá outras responsabilidades a cumprir. O salão permaneceu tranquilo, para todos os outros… aquilo fazia sentido, era esperado, era lógico, para ela…não a mão de Safira se fechou lentamente sobre a taça, com força demais, o cristal quase estalou entre seus dedos, seu olhar se manteve fixo à frente, frio, controlado mas por dentro…tudo queimava, raiva, traição e algo mais, muito mais ela queria falar, queria se levantar, queria dizer que aquilo era um erro, que ninguém conhecia aquelas tropas como ela, que ninguém lutaria por aquele reino como ela lutava, mas não podia, não ali, não na frente de todos porque acima de tudo…ele ainda era o rei e ela sabia exatamente o que era esperado dela, então Safira fez o que sempre fez, se controlou, ergueu o queixo e permaneceu em silêncio, perfeita por fora em ruínas por dentro, ao seu lado, Otávio não disse nada, mas seu olhar… deslizou discretamente até ela, atento como se estivesse esperando exatamente aquele momento, como se soubesse…que aquela história estava longe de ser tão simples quanto parecia. E Safira sentiu mais uma vez, mais forte, mais viva, aquela energia inquieta dentro dela pulsou, como se reagisse à decisão tomada ali, como se recusasse, como se…lutasse e, pela primeira vez desde que entrou naquele salão…Safira teve certeza de uma coisa, aquilo não terminaria em silêncio.
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