O Começo do Caos

1017 Words
Andréia acordou com a sensação de que algo estava errado. Não era um pressentimento comum. Era aquele tipo de sensação que se instala no peito e se recusa a ir embora. O quarto ainda estava escuro. O relógio marcava pouco depois das cinco da manhã. Ao seu lado, a cama estava vazia. De novo. Ela suspirou. Nem precisava procurar. Já sabia onde Dante estava. Nos últimos meses aquilo havia se tornado rotina. Ela despertava. Ele não estava. E sempre o encontrava em algum lugar da mansão carregando o peso do mundo inteiro sobre os ombros. Levantou devagar. Vestiu um robe e saiu do quarto. Os corredores estavam silenciosos. Apenas alguns seguranças circulavam pelo andar. Quando chegou ao escritório, encontrou a porta entreaberta. Lá dentro, Dante permanecia sentado diante da mesa. Sozinho. Várias telas iluminavam o ambiente. Mapas. Relatórios. Fotografias. Nomes. Informações. A guerra nunca dormia. E aparentemente ele também não. Andréia observou por alguns segundos antes de entrar. Dante percebeu sua presença imediatamente. Sempre percebia. Mesmo sem olhar. Mesmo em silêncio. Mesmo distraído. Dante Valenti: Você deveria estar dormindo. A voz saiu cansada. Rouca. Andréia aproximou-se lentamente. Andréia: Você também. Um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios dele. Pequeno demais para ser chamado de sorriso. Mas existiu. E isso já era raro. Andréia observou as fotografias espalhadas. Algumas mostravam depósitos abandonados. Outras, empresas de fachada. Locais ligados a Felipe. Dante percebeu seu olhar. Fechou uma das pastas. Como fazia sempre que ela se aproximava demais daquele mundo. Como se tentasse protegê-la até mesmo da verdade. Andréia apoiou as mãos sobre a mesa. Andréia: Você não pode carregar tudo sozinho. O silêncio tomou conta do escritório. Dante abaixou os olhos. Por alguns segundos pareceu mais velho. Mais cansado. Mais humano. Dante Valenti: Eu sei. Mas a resposta soou vazia. Porque ambos sabiam que ele continuaria tentando. — Mais tarde, durante a manhã, Andréia decidiu trabalhar. Precisava se distrair. Precisava sentir que ainda possuía uma vida além daquela guerra. Levi havia organizado uma nova campanha. Algo simples. Algumas fotos. Algumas reuniões online. Nada que exigisse sua saída da mansão. Mesmo assim, a concentração parecia impossível. A mensagem recebida dias atrás continuava presa em sua mente. As fotografias. A perseguição. A sensação constante de estar sendo observada. Quando a chamada terminou, Andréia caminhou até uma das varandas da propriedade. Precisava respirar. O sol finalmente havia aparecido depois de dias de chuva. Os jardins estavam iluminados. Bonitos. Quase tranquilos. Quase. Ela apoiou os braços na sacada. Fechando os olhos. Tentando aproveitar aquele raro momento de paz. Mas não conseguiu. Porque sua mente voltou para Dante. Ultimamente ela vinha percebendo mudanças. Pequenas. Mas preocupantes. Ele estava mais silencioso. Dormia menos. Comia menos. Sorria menos. E isso a assustava. Porque conhecia o marido. Sabia que por trás daquela aparência controlada existia uma tempestade. E a tempestade estava crescendo. — Enquanto isso, do outro lado da cidade, Felipe observava uma tela de computador. Nela havia imagens da mansão Valenti. Fotografias recentes. Movimentações. Relatórios. Tudo cuidadosamente organizado. Um de seus homens entrou no galpão. Homem: Encontramos uma brecha. Felipe ergueu os olhos. Interessado. Homem: Pequena. Mas existe. Felipe levantou-se lentamente. Aproximando-se do painel principal. Ali estavam dezenas de fotografias. Mas apenas uma chamava sua atenção. Andréia. Sempre Andréia. Não porque tivesse interesse nela. Mas porque ela era a única coisa capaz de atingir Dante. E Felipe sabia disso. Muito bem. Felipe: Continue observando. Homem: Quer que avancemos? Felipe permaneceu em silêncio por alguns segundos. Pensando. Calculando. Planejando. Então sorriu. Um sorriso frio. Paciente. Perigoso. Felipe: Ainda não. O homem franziu a testa. Felipe voltou a observar a fotografia. Felipe: O medo cresce melhor quando recebe tempo. O silêncio tomou conta do galpão. Felipe continuou: Felipe: E Dante está começando a sentir exatamente o que eu quero. — Naquela mesma noite, uma nova pista surgiu. Gabriel entrou apressado no escritório. Mateus veio logo atrás. Rafael também. Dante percebeu imediatamente. Algo tinha acontecido. Gabriel colocou uma pasta sobre a mesa. Gabriel: Encontramos um dos depósitos. O ambiente mudou instantaneamente. Toda a atenção de Dante voltou-se para os documentos. Mapas. Coordenadas. Imagens de satélite. Informações recentes. Pela primeira vez em semanas havia algo concreto. Algo real. Dante analisou tudo em silêncio. A tensão crescendo. Rafael aproximou-se. Rafael: Pode ser uma armadilha. Mateus concordou. Mateus: Provavelmente é. Mas ainda assim... era uma oportunidade. A melhor que tiveram até agora. Dante fechou a pasta. Os olhos escuros encontrando os homens à sua frente. Dante Valenti: Preparem a equipe. Gabriel assentiu. Rafael também. Mas antes que alguém saísse da sala, Mateus fez uma pergunta. Mateus: E a Andréia? O silêncio foi imediato. Porque todos sabiam. Toda decisão de Dante começava e terminava nela. Os olhos dele escureceram. Dante Valenti: Dobrem a segurança. Ninguém entra. Ninguém sai. Rafael soltou um suspiro. Já esperava aquela resposta. — Mais tarde, quando Dante entrou no quarto, encontrou Andréia sentada na cama lendo. Ou pelo menos tentando. Porque o livro estava aberto na mesma página há vários minutos. Ela percebeu sua chegada. E imediatamente notou algo diferente. A expressão dele. O olhar. A energia. Andréia fechou o livro. Andréia: O que aconteceu? Dante afrouxou a gravata. Andando lentamente pelo quarto. Dante Valenti: Encontramos uma pista. Ela sentiu o coração acelerar. Porque sabia exatamente o que aquilo significava. Movimento. Ação. Perigo. Andréia observou enquanto ele se aproximava da janela. Pensativo. Distante. Andréia levantou-se. Parando ao lado dele. Por alguns segundos, apenas observaram as luzes da cidade. Silenciosamente. Até que ela segurou sua mão. Dante imediatamente entrelaçou os dedos aos dela. Como se precisasse daquilo. Como se aquele simples contato o mantivesse inteiro. Andréia: Promete que vai voltar? A pergunta saiu antes que pudesse impedir. O silêncio tomou conta do quarto. Dante virou lentamente o rosto. Os olhos encontrando os dela. E naquele instante, Andréia percebeu algo que a assustou. Porque pela primeira vez desde que o conheceu... ele não respondeu imediatamente. Como se soubesse que a guerra que estava prestes a começar seria diferente de todas as outras. Como se soubesse que algumas promessas não podiam ser feitas. E talvez... alguns destinos não pudessem ser evitados.
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