A mansão Valenti não dormiu naquela noite.
Depois da mensagem recebida por Andréia, algo mudou.
Não apenas em Dante.
Em todos.
Os corredores estavam mais movimentados.
Os seguranças mais atentos.
As portas mais vigiadas.
Até mesmo os empregados pareciam caminhar em silêncio.
Como se sentissem que uma tempestade estava prestes a atingir a propriedade.
E talvez estivessem certos.
Porque Dante Valenti havia chegado ao próprio limite.
—
Pouco depois da meia-noite, o escritório principal permanecia iluminado.
Mapas cobriam a mesa.
Fotografias estavam espalhadas por todos os lados.
Computadores exibiam imagens de câmeras de segurança.
Relatórios chegavam a cada minuto.
Mas nada parecia suficiente.
Gabriel observava o chefe em silêncio.
Há mais de dez anos trabalhava ao lado dele.
E sabia reconhecer quando alguma coisa estava errada.
Muito errada.
Dante estava sentado.
Imóvel.
Os olhos presos na tela de um notebook.
Mas claramente não estava vendo nada.
Porque sua mente permanecia em outro lugar.
Na mensagem.
Na fotografia.
No nome de Andréia.
Gabriel apoiou as mãos na mesa.
Gabriel: Você precisa descansar.
Dante soltou uma risada baixa.
Sem humor.
Dante Valenti: Descansar?
A palavra pareceu absurda.
Gabriel suspirou.
Gabriel: Você não dorme há dias.
Dante fechou o notebook.
Lentamente.
Controladamente.
Como fazia tudo.
Mas Gabriel percebeu.
A tensão nos ombros.
O maxilar travado.
Os dedos fechados.
A calma era apenas aparência.
Por dentro, ele estava desmoronando.
Dante Valenti: Quando isso acabar, eu descanso.
Gabriel não respondeu.
Porque ambos sabiam.
Aquilo estava longe de acabar.
—
Enquanto isso, no andar superior, Andréia permanecia acordada.
A chuva batia contra os vidros da varanda.
O quarto estava escuro.
Silencioso.
Mas sua mente não encontrava paz.
Ela continuava relendo a mensagem.
As mesmas palavras.
A mesma ameaça.
A mesma sensação de invasão.
"Você deveria sorrir mais nas fotos, Andréia."
Aquilo parecia simples.
Mas não era.
Porque mostrava algo assustador.
Mostrava que alguém estava observando.
Estudando.
Esperando.
Ela abraçou os próprios joelhos.
Tentando controlar a ansiedade.
Mas era impossível.
Pela primeira vez desde que conheceu Dante, ela compreendia completamente o medo dele.
Porque agora ela também sentia.
Aquela sensação constante de perigo.
Aquela impressão de que algo r**m poderia acontecer a qualquer momento.
Ela fechou os olhos.
Tentando respirar.
Tentando se acalmar.
Mas então ouviu passos.
Dante.
Ela reconheceria aqueles passos em qualquer lugar.
A porta se abriu.
E ele entrou.
A gravata já havia desaparecido.
As mangas da camisa estavam dobradas.
O rosto cansado.
Os olhos escuros.
Pesados.
Andréia observou enquanto ele caminhava até a varanda.
Sem perceber que ela estava acordada.
Ou talvez percebesse.
Dante sempre percebia.
Ele ficou parado observando a chuva durante alguns segundos.
Depois apoiou as duas mãos na sacada.
A cabeça abaixada.
Como alguém carregando um peso impossível.
Andréia levantou da cama.
Aproximando-se devagar.
Quando tocou suas costas, Dante fechou os olhos.
Apenas por um instante.
Mas foi suficiente.
Ela percebeu.
Ele estava exausto.
Muito mais do que demonstrava.
Andréia: Você não vai conseguir resolver tudo sozinho.
A voz saiu suave.
Dante permaneceu em silêncio.
O vento movimentava seus cabelos escuros.
A chuva continuava caindo.
Constante.
Implacável.
Dante Valenti: Eu preciso resolver.
Andréia apoiou a cabeça em suas costas.
Andréia: Não sozinho.
O silêncio voltou.
Mas desta vez foi diferente.
Mais íntimo.
Mais humano.
Depois de alguns segundos, Dante segurou a mão dela.
Entrelaçando os dedos.
Como se precisasse sentir que ela ainda estava ali.
Real.
Segura.
Viva.
Dante Valenti: Eu não sei viver num mundo onde algo acontece com você.
As palavras saíram baixas.
Roucas.
Sinceras.
E aquilo atingiu Andréia mais do que qualquer declaração de amor.
Porque era verdade.
Crua.
Perigosa.
Mas verdade.
—
Do outro lado da cidade.
Num galpão abandonado próximo ao porto.
Felipe observava diversas fotografias espalhadas sobre uma mesa enferrujada.
Todas mostravam Andréia.
Algumas antigas.
Outras recentes.
Algumas tiradas à distância.
Outras extremamente próximas.
Ele passou os dedos sobre uma das imagens.
Sorrindo.
Um sorriso frio.
Doentio.
Perigoso.
Ao redor dele, vários homens armados aguardavam instruções.
Um deles se aproximou.
Homem: A mensagem funcionou.
Felipe assentiu.
Sem desviar os olhos da fotografia.
Felipe: Eu sei.
Homem: O Valenti está se movimentando.
Finalmente ele sorriu.
Felipe: Ótimo.
O homem pareceu confuso.
Felipe apoiou as mãos sobre a mesa.
Felipe: Porque nunca foi sobre a esposa.
O silêncio tomou conta do galpão.
Felipe continuou:
Felipe: Sempre foi sobre ele.
Os olhos dele escureceram.
Felipe: Quero que Dante tenha medo.
A voz saiu carregada de ódio.
Anos de ódio.
Anos de vingança.
Anos esperando por aquele momento.
Felipe: Quero que ele acorde pensando nela.
Durma pensando nela.
Respire pensando nela.
Até não conseguir mais distinguir amor de paranoia.
O homem permaneceu em silêncio.
Porque pela primeira vez percebeu algo.
Aquilo não era apenas uma guerra.
Era uma obsessão.
Dos dois lados.
E obsessões quase sempre terminavam em tragédia.
—
Na manhã seguinte, a notícia chegou.
Uma pista.
Pequena.
Mas real.
Mateus entrou no escritório carregando uma pasta.
A expressão séria.
O olhar atento.
Dante ergueu os olhos imediatamente.
Mateus colocou diversos documentos sobre a mesa.
Mateus: Encontramos uma movimentação financeira ligada a Felipe.
Pela primeira vez em dias, algo parecido com interesse surgiu nos olhos de Dante.
Mateus continuou:
Mateus: Não é muito.
Mas é o suficiente para localizar um dos esconderijos.
O ambiente inteiro mudou.
Gabriel ficou de pé.
Rafael abandonou o celular.
Todos os olhares se voltaram para Dante.
Porque todos sabiam.
A caçada finalmente tinha começado.
Dante analisou os documentos durante alguns segundos.
Longos segundos.
Então fechou a pasta.
Seu olhar tornou-se frio.
Determinado.
Perigoso.
Dante Valenti: Reúnam os homens.
Gabriel assentiu imediatamente.
Mateus também.
Rafael sorriu pela primeira vez naquela semana.
Porque conheciam aquele tom.
Conheciam aquela expressão.
Conheciam aquele homem.
E sabiam exatamente o que ela significava.
Felipe havia cometido um erro.
Um erro enorme.
Ele transformou a mulher que Dante amava em alvo.
E agora...
o próprio inferno estava vindo atrás dele.