Os dias seguintes passaram carregados por uma tensão que ninguém conseguia ignorar.
A mansão permanecia cercada por seguranças.
Os portões eram monitorados vinte e quatro horas por dia.
Veículos eram inspecionados.
Funcionários eram revistados.
Visitantes praticamente deixaram de existir.
Era como viver dentro de uma fortaleza.
Mas, para Andréia, aquilo começava a parecer uma prisão.
Uma prisão construída com mármore, ouro e medo.
Naquela manhã, ela acordou antes do nascer do sol.
Algo raro.
O quarto ainda estava mergulhado na penumbra quando se virou na cama.
Dante estava acordado.
De novo.
Sentado na poltrona próxima à janela.
Observando a escuridão.
Nos últimos meses, aquilo havia se tornado frequente.
Frequentemente ela despertava durante a madrugada e o encontrava acordado.
Pensando.
Vigiando.
Esperando.
Como se estivesse sempre em guerra.
Mesmo quando estava dentro da própria casa.
Andréia observou o perfil dele por alguns segundos.
Os ombros largos.
O maxilar tenso.
As olheiras discretas.
O olhar distante.
Ele parecia cansado.
Muito mais cansado do que permitia que os outros percebessem.
Andréia levantou-se devagar.
Caminhando até ele.
Quando suas mãos tocaram os ombros dele, Dante fechou os olhos imediatamente.
Apenas por um instante.
Mas ela percebeu.
Percebia tudo quando se tratava dele.
Andréia: Você precisa dormir.
Dante soltou uma pequena risada.
Sem humor.
Dante Valenti: Eu vou dormir.
Andréia arqueou uma sobrancelha.
Andréia: Você sempre fala isso.
Desta vez ele não respondeu.
Porque ambos sabiam que era verdade.
—
Mais tarde, durante o café da manhã, Andréia percebeu que algo estava errado.
Muito errado.
Os homens de Dante estavam estranhos.
Rafael parecia inquieto.
Gabriel estava constantemente verificando mensagens no celular.
Mateus m*l tocou na comida.
Até mesmo Dante estava mais silencioso do que o habitual.
E isso chamou sua atenção.
Porque Dante normalmente dominava qualquer ambiente em que estivesse.
Mas naquela manhã parecia distante.
Concentrado.
Como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça.
Ela observou tudo em silêncio.
Até que o celular de Gabriel vibrou.
O homem olhou para a tela.
E imediatamente empalideceu.
Andréia percebeu.
Dante também.
Gabriel levantou-se rapidamente.
Gabriel: Preciso falar com você.
Dante não fez perguntas.
Apenas levantou.
Os dois saíram da sala.
Rafael e Mateus trocaram olhares.
Um olhar que Andréia conhecia.
Problema.
Grande problema.
—
Quase uma hora depois.
Dante ainda não havia retornado.
Andréia estava na biblioteca quando ouviu passos acelerados pelo corredor.
Então a porta se abriu.
Era Rafael.
O rosto sério.
Mais sério do que ela já tinha visto.
Andréia imediatamente se levantou.
Andréia: O que aconteceu?
O homem hesitou.
Erro.
Grande erro.
Andréia percebeu imediatamente.
Andréia: Rafael.
Ele passou a mão pelos cabelos.
Claramente desconfortável.
Rafael: Encontraram um dos homens de Felipe.
O coração dela acelerou.
Andréia: E?
Rafael permaneceu em silêncio.
Por alguns segundos.
Longos segundos.
Até finalmente responder:
Rafael: Morto.
O ar pareceu desaparecer dos pulmões dela.
Andréia: Meu Deus...
Mas Rafael ainda não havia terminado.
Rafael: Ele tinha uma mensagem.
O estômago dela afundou.
Andréia: Que mensagem?
O homem engoliu seco.
Rafael: Seu nome.
O mundo pareceu parar.
Andréia ficou imóvel.
Sem reação.
Sem palavras.
Sem conseguir respirar direito.
Seu nome.
Ela.
Novamente ela.
—
Naquele mesmo instante.
No escritório principal da mansão.
Dante observava uma fotografia deixada junto ao corpo.
Seus olhos não demonstravam emoção alguma.
Mas todos os homens presentes sabiam.
Aquilo era apenas aparência.
Porque por dentro...
ele estava queimando.
A fotografia mostrava Andréia saindo de uma das sessões de fotos semanas atrás.
Ela sorria.
Distraída.
Sem saber que estava sendo observada.
Sem saber que alguém a seguia.
Sem saber que alguém estudava sua rotina.
Dante sentiu os dedos fecharem ao redor da foto.
Devagar.
Controladamente.
Como alguém tentando impedir a própria explosão.
Gabriel permaneceu em silêncio.
Mateus também.
Ninguém ousava falar.
Até que Dante finalmente ergueu os olhos.
E aquilo foi suficiente para fazer o ambiente inteiro gelar.
Porque havia algo diferente naquele olhar.
Algo sombrio.
Algo perigoso.
Algo que nem mesmo seus aliados gostavam de ver.
Dante Valenti: Há quanto tempo?
Gabriel respondeu imediatamente.
Gabriel: Ainda estamos verificando.
Dante não desviou os olhos.
Dante Valenti: Quero saber tudo.
Sua voz saiu baixa.
Fria.
Controlada.
O tipo de tom que antecedia tragédias.
Dante Valenti: Quero nomes.
Silêncio.
Dante Valenti: Quero rostos.
Outra pausa.
Dante Valenti: Quero cada pessoa envolvida nisso.
Os homens assentiram.
Mas ninguém se moveu.
Porque todos sabiam.
Aquela não era apenas uma investigação.
Era uma caçada.
E quando Dante Valenti começava uma caçada...
alguém sempre terminava enterrado.
—
Naquela noite, Andréia não conseguiu dormir.
A fotografia permanecia em sua mente.
A sensação de estar sendo observada.
Seguida.
Vigiada.
Aquilo a assustava.
Mas o que realmente a aterrorizava era outra coisa.
Dante.
Porque ela conhecia o marido.
Conhecia seus limites.
E conhecia o que acontecia quando alguém ameaçava aquilo que ele amava.
Sentada na cama, observando a chuva bater contra os vidros, ela ouviu a porta do quarto se abrir.
Dante entrou.
Mas algo estava diferente.
Muito diferente.
Não era apenas a expressão fechada.
Nem o silêncio.
Era o olhar.
Os olhos escuros pareciam ainda mais profundos.
Mais frios.
Mais perigosos.
Como se uma decisão tivesse sido tomada.
E Andréia sentiu um arrepio percorrer todo o corpo.
Porque pela primeira vez...
teve a impressão de que a guerra estava prestes a sair do controle.
E quando isso acontecesse...
ninguém sairia ileso.