Andréia começou a perceber que havia uma diferença perigosa entre amor e dependência.
E Dante Valenti já não sabia mais separar os dois.
—
A mansão estava silenciosa naquela madrugada.
Silenciosa demais.
Andréia permanecia acordada na enorme cama escura enquanto observava a chuva deslizar lentamente pelos vidros da varanda.
O relógio marcava quase três da manhã.
E Dante ainda não tinha voltado.
Ela suspirou baixo.
Tentando ignorar a sensação estranha crescendo dentro do peito.
Porque mesmo depois de tudo…
ela ainda se preocupava.
Ainda esperava.
Ainda procurava o som dos passos dele pelos corredores.
Aquilo também estava virando obsessão.
O som distante de carros entrando na propriedade fez ela erguer os olhos imediatamente.
Segundos depois…
a porta do quarto se abriu.
Dante entrou em silêncio.
Vestindo preto da cabeça aos pés.
As mangas da camisa social dobradas até os antebraços.
E sangue.
Havia sangue nos dedos dele outra vez.
Andréia sentiu o estômago apertar.
Dante percebeu imediatamente.
Sempre percebia.
Dante Valenti: Não é meu.
A voz saiu baixa.
Rouca.
Cansada.
Ele fechou a porta atrás de si antes de caminhar lentamente até o bar do quarto.
Serviu whisky.
Virou metade do copo de uma vez.
Andréia observava em silêncio.
Porque havia algo errado.
Mais errado que o normal.
E então percebeu.
As mãos dele tremiam discretamente.
Aquilo fez seu coração desacelerar.
Dante nunca tremia.
Nunca.
Andréia levantou devagar da cama.
Andréia: O que aconteceu?
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Os olhos presos no copo.
Escuros.
Perdidos.
Dante Valenti: Felipe tentou chegar perto de você hoje.
O ar pareceu gelar.
Andréia: O quê?
Dante fechou os olhos lentamente.
Como alguém tentando controlar a própria mente.
Dante Valenti: Um dos homens dele tava perto da entrada sul da mansão.
Ela sentiu um arrepio subir pela coluna.
Dante virou o restante do whisky.
Brutalmente.
Dante Valenti: Eu avisei pra ficarem longe de você.
A voz dele estava diferente.
Mais fria.
Mais perigosa.
Mas havia outra coisa ali também.
Medo.
Andréia caminhou lentamente até ele.
Andréia: Dante…
Mas antes que pudesse tocar nele…
ele segurou seu pulso rapidamente.
Forte.
Quase desesperado.
Os olhos escuros encontrando os dela.
Instáveis.
Dante Valenti: Você faz ideia do que acontece comigo quando penso em alguém encostando em você?
O coração dela disparou.
Porque aquele não era o mafioso falando.
Era o homem emocionalmente destruído pela própria obsessão.
Dante aproximou lentamente o rosto.
A respiração pesada batendo contra a pele dela.
Dante Valenti: Eu paro de pensar direito.
A mão dele apertou um pouco mais o pulso dela.
Não o suficiente para machucar.
Mas suficiente para mostrar intensidade.
Possessão.
Descontrole.
Dante Valenti: Eu fico violento.
Andréia engoliu seco.
Os olhos dele estavam escuros de um jeito perigoso.
Como se algo dentro dele estivesse constantemente prestes a explodir.
Dante Valenti: E eu odeio isso.
Silêncio.
Pesado.
Doloroso.
Ela finalmente segurou o rosto dele devagar entre as mãos.
E aquilo desmontou alguma coisa dentro dele imediatamente.
Andréia percebeu.
A tensão nos ombros dele diminuiu.
A respiração desacelerou minimamente.
Como se apenas ela tivesse poder para acalmar o caos dentro dele.
Mas aquilo também assustava.
Porque significava que Dante dependia emocionalmente dela num nível destrutivo.
Andréia: Você precisa descansar.
Ele soltou uma risada baixa.
Sem humor algum.
Dante Valenti: Eu não consigo dormir.
Ela franziu levemente a testa.
Andréia: Por quê?
Silêncio.
Longo.
Profundo.
Então ele respondeu:
Dante Valenti: Porque eu fecho os olhos… e imagino alguém tirando você de mim.
A sinceridade atravessou Andréia como uma lâmina lenta.
Ela percebeu naquele instante que Dante realmente vivia atormentado.
Consumido.
Obcecado.
Ele não amava de forma normal.
Amava como quem estava sempre prestes a perder tudo.
Dante aproximou lentamente a testa da dela.
Os olhos fechados.
Respiração pesada.
Dante Valenti: Você virou minha fraqueza.
Andréia sentiu o peito apertar.
Porque no mundo dele…
fraqueza era sentença de morte.
—
Mais tarde naquela madrugada…
Andréia acordou assustada ao sentir o espaço vazio ao lado da cama.
Ela abriu os olhos rapidamente.
O quarto estava escuro.
Silencioso.
O relógio marcava 4:17.
Ela se levantou lentamente, ainda sonolenta, caminhando pelo quarto até perceber uma luz acesa vindo do closet.
O coração desacelerou.
Ela empurrou a porta devagar.
E encontrou Dante sentado sozinho no chão.
A cabeça apoiada contra a parede escura.
Whisky ao lado.
Arma sobre a perna.
E os olhos completamente perdidos.
Andréia sentiu algo doer dentro dela imediatamente.
Porque aquele homem assustava o mundo inteiro.
Mas naquele instante…
parecia quebrado.
Ela caminhou lentamente até ele.
Dante ergueu os olhos imediatamente.
E ali estava outra vez.
A obsessão.
O jeito como os olhos dele mudavam quando viam ela.
Como se o mundo inteiro desaparecesse.
Andréia se ajoelhou na frente dele devagar.
Andréia: O que você tá fazendo aqui?
Dante demorou alguns segundos pra responder.
Como se estivesse cansado demais até pra organizar os próprios pensamentos.
Dante Valenti: Tentando respirar.
O peito dela apertou fortemente.
Ela observou o rosto dele atentamente.
As olheiras profundas.
O maxilar tensionado.
Os olhos escuros carregados de paranoia constante.
Dante estava desmoronando lentamente.
E ninguém percebia.
Porque monstros também sabem esconder dor.
Andréia segurou o rosto dele cuidadosamente.
Dante fechou os olhos imediatamente ao sentir o toque.
Como alguém desesperadamente necessitado daquilo.
De paz.
De calma.
Dela.
Dante Valenti: Você ainda vai me odiar.
A voz saiu baixa.
Rouca.
Quase vulnerável.
Ela sentiu vontade de chorar.
Porque no fundo…
talvez ele já estivesse começando a odiar a si mesmo primeiro.