Obsessão

901 Words
Andréia começou a perceber que havia uma diferença perigosa entre amor e dependência. E Dante Valenti já não sabia mais separar os dois. — A mansão estava silenciosa naquela madrugada. Silenciosa demais. Andréia permanecia acordada na enorme cama escura enquanto observava a chuva deslizar lentamente pelos vidros da varanda. O relógio marcava quase três da manhã. E Dante ainda não tinha voltado. Ela suspirou baixo. Tentando ignorar a sensação estranha crescendo dentro do peito. Porque mesmo depois de tudo… ela ainda se preocupava. Ainda esperava. Ainda procurava o som dos passos dele pelos corredores. Aquilo também estava virando obsessão. O som distante de carros entrando na propriedade fez ela erguer os olhos imediatamente. Segundos depois… a porta do quarto se abriu. Dante entrou em silêncio. Vestindo preto da cabeça aos pés. As mangas da camisa social dobradas até os antebraços. E sangue. Havia sangue nos dedos dele outra vez. Andréia sentiu o estômago apertar. Dante percebeu imediatamente. Sempre percebia. Dante Valenti: Não é meu. A voz saiu baixa. Rouca. Cansada. Ele fechou a porta atrás de si antes de caminhar lentamente até o bar do quarto. Serviu whisky. Virou metade do copo de uma vez. Andréia observava em silêncio. Porque havia algo errado. Mais errado que o normal. E então percebeu. As mãos dele tremiam discretamente. Aquilo fez seu coração desacelerar. Dante nunca tremia. Nunca. Andréia levantou devagar da cama. Andréia: O que aconteceu? Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Os olhos presos no copo. Escuros. Perdidos. Dante Valenti: Felipe tentou chegar perto de você hoje. O ar pareceu gelar. Andréia: O quê? Dante fechou os olhos lentamente. Como alguém tentando controlar a própria mente. Dante Valenti: Um dos homens dele tava perto da entrada sul da mansão. Ela sentiu um arrepio subir pela coluna. Dante virou o restante do whisky. Brutalmente. Dante Valenti: Eu avisei pra ficarem longe de você. A voz dele estava diferente. Mais fria. Mais perigosa. Mas havia outra coisa ali também. Medo. Andréia caminhou lentamente até ele. Andréia: Dante… Mas antes que pudesse tocar nele… ele segurou seu pulso rapidamente. Forte. Quase desesperado. Os olhos escuros encontrando os dela. Instáveis. Dante Valenti: Você faz ideia do que acontece comigo quando penso em alguém encostando em você? O coração dela disparou. Porque aquele não era o mafioso falando. Era o homem emocionalmente destruído pela própria obsessão. Dante aproximou lentamente o rosto. A respiração pesada batendo contra a pele dela. Dante Valenti: Eu paro de pensar direito. A mão dele apertou um pouco mais o pulso dela. Não o suficiente para machucar. Mas suficiente para mostrar intensidade. Possessão. Descontrole. Dante Valenti: Eu fico violento. Andréia engoliu seco. Os olhos dele estavam escuros de um jeito perigoso. Como se algo dentro dele estivesse constantemente prestes a explodir. Dante Valenti: E eu odeio isso. Silêncio. Pesado. Doloroso. Ela finalmente segurou o rosto dele devagar entre as mãos. E aquilo desmontou alguma coisa dentro dele imediatamente. Andréia percebeu. A tensão nos ombros dele diminuiu. A respiração desacelerou minimamente. Como se apenas ela tivesse poder para acalmar o caos dentro dele. Mas aquilo também assustava. Porque significava que Dante dependia emocionalmente dela num nível destrutivo. Andréia: Você precisa descansar. Ele soltou uma risada baixa. Sem humor algum. Dante Valenti: Eu não consigo dormir. Ela franziu levemente a testa. Andréia: Por quê? Silêncio. Longo. Profundo. Então ele respondeu: Dante Valenti: Porque eu fecho os olhos… e imagino alguém tirando você de mim. A sinceridade atravessou Andréia como uma lâmina lenta. Ela percebeu naquele instante que Dante realmente vivia atormentado. Consumido. Obcecado. Ele não amava de forma normal. Amava como quem estava sempre prestes a perder tudo. Dante aproximou lentamente a testa da dela. Os olhos fechados. Respiração pesada. Dante Valenti: Você virou minha fraqueza. Andréia sentiu o peito apertar. Porque no mundo dele… fraqueza era sentença de morte. — Mais tarde naquela madrugada… Andréia acordou assustada ao sentir o espaço vazio ao lado da cama. Ela abriu os olhos rapidamente. O quarto estava escuro. Silencioso. O relógio marcava 4:17. Ela se levantou lentamente, ainda sonolenta, caminhando pelo quarto até perceber uma luz acesa vindo do closet. O coração desacelerou. Ela empurrou a porta devagar. E encontrou Dante sentado sozinho no chão. A cabeça apoiada contra a parede escura. Whisky ao lado. Arma sobre a perna. E os olhos completamente perdidos. Andréia sentiu algo doer dentro dela imediatamente. Porque aquele homem assustava o mundo inteiro. Mas naquele instante… parecia quebrado. Ela caminhou lentamente até ele. Dante ergueu os olhos imediatamente. E ali estava outra vez. A obsessão. O jeito como os olhos dele mudavam quando viam ela. Como se o mundo inteiro desaparecesse. Andréia se ajoelhou na frente dele devagar. Andréia: O que você tá fazendo aqui? Dante demorou alguns segundos pra responder. Como se estivesse cansado demais até pra organizar os próprios pensamentos. Dante Valenti: Tentando respirar. O peito dela apertou fortemente. Ela observou o rosto dele atentamente. As olheiras profundas. O maxilar tensionado. Os olhos escuros carregados de paranoia constante. Dante estava desmoronando lentamente. E ninguém percebia. Porque monstros também sabem esconder dor. Andréia segurou o rosto dele cuidadosamente. Dante fechou os olhos imediatamente ao sentir o toque. Como alguém desesperadamente necessitado daquilo. De paz. De calma. Dela. Dante Valenti: Você ainda vai me odiar. A voz saiu baixa. Rouca. Quase vulnerável. Ela sentiu vontade de chorar. Porque no fundo… talvez ele já estivesse começando a odiar a si mesmo primeiro.
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