O silêncio que tomou conta da casa foi sufocante.
Andréia nunca tinha visto Dante daquela forma.
Nunca.
Os olhos dele não estavam fixos em Lorenzo.
Nem nela.
Estavam fixos na caixa aberta sobre a mesa.
Como se aquele objeto fosse uma bomba prestes a explodir.
Lorenzo permaneceu parado.
Calmo.
Enquanto Dante parecia uma tempestade prestes a destruir tudo.
Dante Valenti: Eu disse para nunca mais se aproximar dela.
A voz saiu baixa.
Controlada.
Mas isso era o mais assustador.
Porque Andréia já tinha percebido algo sobre Dante.
Quando ele gritava, ainda havia controle.
Quando falava baixo...
o perigo era real.
Lorenzo não recuou.
Lorenzo: Ela merece saber.
Dante deu um passo à frente.
Dante Valenti: Não.
Andréia levantou-se imediatamente.
Andréia: Eu mereço saber de tudo.
Os dois homens voltaram o olhar para ela.
E naquele instante Andréia percebeu algo.
Nenhum deles queria protegê-la.
Cada um queria protegê-la de uma verdade diferente.
E isso a deixou ainda mais irritada.
Andréia: Chega.
Chega de segredos.
Chega de mentiras.
Chega de decidir o que eu posso ou não saber.
O silêncio caiu novamente.
Pesado.
Lorenzo suspirou.
Dante fechou os olhos por alguns segundos.
E quando voltou a abri-los...
parecia cansado.
Muito cansado.
Como alguém carregando um peso antigo demais.
Andréia observou os dois.
Esperando.
Dante finalmente falou.
Dante Valenti: Você quer saber quem era Vittorio para mim?
Andréia assentiu.
O coração acelerando.
Dante desviou o olhar.
Como se odiasse aquela lembrança.
Como se cada palavra fosse difícil.
Dante Valenti: Quando eu tinha dezessete anos...
ele me acolheu.
Andréia ficou imóvel.
Porque não esperava aquilo.
Nem perto disso.
Dante continuou.
Dante Valenti: Eu não tinha nada.
Não tinha família.
Não tinha proteção.
Não tinha futuro.
Vittorio apareceu quando eu estava no fundo do poço.
A voz permanecia firme.
Mas existia algo escondido ali.
Dor.
Andréia conseguia ouvir.
Sentir.
Dante observou a escuridão pela janela.
Dante Valenti: Eu o admirei.
Confiei nele.
Aprendi com ele.
Durante anos.
O silêncio tornou-se absoluto.
Porque aquela informação mudava tudo.
Vittorio não era apenas um inimigo.
Tinha sido importante.
Muito importante.
Lorenzo permaneceu quieto.
Sem interromper.
Sabendo que aquela parte precisava vir de Dante.
Dante respirou fundo.
Dante Valenti: Eu o considerava família.
A frase atingiu Andréia em cheio.
Porque agora finalmente entendia o ódio.
Entendia a dor.
Entendia o olhar que viu naquele prédio.
Traições sempre doíam mais quando vinham de quem amamos.
Mas então a expressão de Dante escureceu.
Ainda mais.
Dante Valenti: E então ele destruiu tudo.
Andréia sentiu um arrepio.
O ambiente pareceu ficar mais frio.
Dante permaneceu alguns segundos em silêncio.
Como se estivesse lutando contra as próprias memórias.
Dante Valenti: Pessoas morreram.
Pessoas inocentes.
Por causa das escolhas dele.
Por causa da ambição dele.
Por causa da obsessão dele.
Os músculos do maxilar travaram.
Andréia nunca tinha visto tanta raiva contida.
Nunca.
Dante Valenti: Foi naquele dia que eu percebi que o homem que eu admirava nunca existiu.
A frase ecoou pela casa.
Lorenzo abaixou os olhos.
Porque ele também lembrava.
Todos lembravam.
Dante continuou.
Dante Valenti: Eu fui obrigado a escolher.
Ou seguia ele...
ou destruía tudo o que ele construiu.
Andréia sentiu o coração apertar.
Porque pela primeira vez estava ouvindo uma parte real do passado dele.
Sem máscaras.
Sem desvios.
Sem respostas vazias.
Dante parecia vulnerável.
E isso era raro.
Muito raro.
Então Lorenzo falou.
Lorenzo: Mas essa não é a parte que você esconde.
O silêncio explodiu novamente.
Andréia virou-se imediatamente.
O coração disparando.
Porque a reação de Dante foi instantânea.
Os olhos escureceram.
O corpo inteiro ficou rígido.
Como se alguém tivesse tocado numa ferida aberta.
Lorenzo observou-o.
Lorenzo: Ela merece saber.
Dante não respondeu.
Mas dessa vez Andréia percebeu.
Existia algo mais.
Muito mais.
E aquilo não tinha relação direta com Vittorio.
Tinha relação com ele.
Com Dante.
Andréia aproximou-se.
Andréia: O que ele quer dizer?
Silêncio.
Andréia: Dante.
Mais silêncio.
Então ela viu.
Pela primeira vez.
Medo.
Não o medo de perder uma guerra.
Nem de enfrentar um inimigo.
Mas medo de ser visto como realmente era.
E isso a assustou.
Porque significava que a verdade era pior do que imaginava.
Lorenzo caminhou lentamente até a mesa.
Retirando uma fotografia antiga.
Muito antiga.
Ele colocou a imagem diante dela.
Andréia pegou o retrato.
E sentiu o coração falhar uma batida.
Porque na fotografia havia três pessoas.
Vittorio.
Uma mulher.
E Dante.
Muito jovem.
Mas não foi isso que chamou sua atenção.
Foi a mulher.
Porque ela conhecia aquele rosto.
Conhecia muito bem.
Os dedos começaram a tremer.
A respiração falhou.
E o mundo pareceu inclinar.
Porque aquela mulher era sua mãe.