A tempestade continuou durante toda a madrugada.
O céu parecia desabar sobre a cidade enquanto Andréia permanecia sentada no bunker, incapaz de encontrar uma posição confortável.
As mãos estavam frias.
O coração acelerado.
E a mente completamente dominada por uma única pergunta:
Onde estava Dante?
O relógio avançava lentamente.
Uma hora.
Duas.
Três.
E nada.
O silêncio dentro do bunker era quase tão sufocante quanto o medo que crescia dentro dela.
Rafael permanecia próximo à porta blindada.
Gabriel analisava informações em um tablet.
Os dois tentavam parecer tranquilos.
Mas Andréia percebia.
Eles estavam preocupados.
Muito preocupados.
E aquilo apenas aumentava sua ansiedade.
—
Quando a porta finalmente se abriu, já estava amanhecendo.
Andréia ficou de pé imediatamente.
O coração disparando.
Dante entrou.
E pela primeira vez desde que o conheceu...
ela sentiu medo de verdade.
A camisa preta estava rasgada.
Havia sangue espalhado pelo tecido.
Ferimentos superficiais cobriam seus braços.
O maxilar estava marcado.
E os olhos...
Os olhos pareciam pertencer a outra pessoa.
Escuros.
Vazios.
Gelados.
Como se algo tivesse sido arrancado dele durante aquela noite.
Andréia correu em sua direção.
Andréia: Dante!
Mas ele não respondeu.
Nem desacelerou os passos.
Continuou caminhando.
Em silêncio.
Até parar no centro do bunker.
Os homens ao redor imediatamente desviaram os olhos.
Ninguém falava.
Ninguém se movia.
Ninguém respirava alto demais.
Porque todos ali sabiam.
Dante estava perigosamente perto do limite.
Gabriel foi o primeiro a quebrar o silêncio.
Gabriel: Felipe conseguiu escapar.
O ambiente inteiro pareceu congelar.
Andréia sentiu o estômago afundar.
Porque viu a mudança acontecer.
Foi pequena.
Quase imperceptível.
Mas aconteceu.
Os dedos de Dante se fecharam lentamente.
A mandíbula travou.
Os olhos escureceram ainda mais.
Dante Valenti: O quê?
A voz saiu baixa.
Calma.
E isso era muito pior do que um grito.
Gabriel engoliu seco.
Gabriel: Tivemos uma falha durante a transferência.
Silêncio.
Dante permaneceu imóvel.
Completamente imóvel.
Então sorriu.
Um sorriso frio.
Vazio.
Assustador.
Dante Valenti: Uma falha.
Ninguém respondeu.
Porque não existia resposta correta.
Andréia observava tudo sentindo um aperto crescente no peito.
Ela conhecia aquele sorriso.
E sabia exatamente o que significava.
Problemas.
Muitos problemas.
Dante caminhou lentamente até uma mesa próxima.
Apoiou as duas mãos sobre a superfície.
A cabeça abaixada.
Respiração controlada.
Como alguém tentando não explodir.
Mas então...
a mesa virou.
O estrondo ecoou pelo bunker.
Objetos se espalharam pelo chão.
Vidros quebraram.
Andréia se assustou.
Todos se assustaram.
Mas Dante continuou parado.
Respirando pesadamente.
Os punhos cerrados.
Os olhos fechados.
Como se estivesse lutando contra algo dentro da própria cabeça.
Algo enorme.
Violento.
Destrutivo.
Gabriel não se moveu.
Rafael também não.
Porque nenhum deles ousaria interromper aquele momento.
Ninguém.
Exceto ela.
Andréia caminhou lentamente até Dante.
O coração batendo forte.
Ela sabia que era perigoso.
Mas também sabia que ninguém mais conseguiria alcançá-lo naquele estado.
Quando parou diante dele, segurou cuidadosamente seu rosto.
Dante abriu os olhos imediatamente.
E o mundo pareceu desaparecer.
Porque toda aquela raiva.
Toda aquela violência.
Toda aquela escuridão.
Pararam por um instante.
Só por um instante.
Andréia: Olha pra mim.
A voz saiu suave.
Firme.
Dante permaneceu imóvel.
Observando ela.
Como se estivesse tentando lembrar quem era.
Andréia: Respira.
O silêncio voltou.
Mas diferente agora.
Menos agressivo.
Menos caótico.
Dante fechou os olhos lentamente.
A testa encostando na dela.
Andréia sentiu a tensão do corpo dele.
O peso.
O cansaço.
O medo.
Porque por trás de toda aquela brutalidade existia algo que poucos conheciam.
Dante estava exausto.
E sozinho.
Muito mais sozinho do que permitia que qualquer pessoa percebesse.
Dante Valenti: Eu quase perdi você.
A voz saiu rouca.
Baixa.
Quebrada.
Andréia sentiu o peito apertar.
Dante Valenti: Eles chegaram perto demais.
Os dedos dele seguraram sua cintura.
Fortes.
Como se precisasse ter certeza de que ela ainda estava ali.
Viva.
Segura.
Real.
Andréia: Eu estou bem.
Mas Dante balançou a cabeça.
Lentamente.
Como se aquela resposta não fosse suficiente.
Porque não era.
Não para ele.
Dante Valenti: Hoje.
A voz saiu mais baixa.
Dante Valenti: Mas e amanhã?
O silêncio que veio depois foi doloroso.
Porque Andréia não tinha resposta.
Ninguém tinha.
A guerra estava começando.
E pela primeira vez...
ela percebeu que não era apenas uma esposa tentando salvar um casamento.
Era uma mulher presa no centro de uma guerra capaz de destruir tudo ao redor.
Inclusive eles.