A Primeira Ameaça

660 Words
Os dias seguintes foram estranhamente silenciosos. E isso preocupava Dante mais do que qualquer tiroteio. Porque homens como Felipe não desapareciam. Eles observavam. Planejavam. Esperavam. E atacavam quando ninguém estava preparado. Naquela manhã, Andréia estava no jardim interno da mansão participando de uma chamada com Levi sobre uma campanha internacional. Fazia semanas que não trabalhava normalmente, e aquilo começava a afetá-la. Ela amava sua profissão. Amava as câmeras. Os desfiles. As viagens. A liberdade. Mas sua vida estava se tornando cada vez menor. Limitada. Controlada. Quando a ligação terminou, ela permaneceu sentada próxima à fonte observando as flores do jardim. Por alguns minutos, tudo pareceu tranquilo. Até seu celular vibrar. Número desconhecido. Andréia franziu a testa. Normalmente ignoraria. Mas algo a fez atender. Andréia: Alô? Silêncio. Um silêncio estranho. Pesado. Então uma voz masculina surgiu do outro lado. Desconhecida. Fria. Homem: A esposa do Dante Valenti tem uma voz bonita. O sangue desapareceu do rosto dela. Seu coração disparou instantaneamente. Andréia ficou imóvel. Homem: Agora eu entendo porque ele enlouqueceu. A ligação foi encerrada. Simples assim. Andréia permaneceu parada por vários segundos. Sem respirar. Sem pensar. Sem conseguir se mover. O celular escorregou de seus dedos. Seu corpo inteiro tremia. Porque ela sabia. Aquilo não era um engano. Aquilo era uma mensagem. Uma ameaça. E alguém tinha conseguido chegar perto o suficiente para conseguir seu número. — Menos de uma hora depois. O escritório de Dante parecia uma zona de guerra. Gabriel analisava registros telefônicos. Rafael conversava com especialistas em segurança. Mateus tentava rastrear a origem da chamada. E Dante... Dante estava parado diante da janela. Imóvel. Silencioso. Perigosamente silencioso. Andréia conhecia aquele silêncio. Era o mesmo que antecedia as tempestades. Dante Valenti: Reproduz de novo. A voz saiu calma. Calma demais. Gabriel obedeceu. A gravação da ligação ecoou pelo escritório. Quando terminou, o silêncio voltou. Pesado. Sufocante. Dante fechou os olhos lentamente. Os punhos cerrados. A mandíbula travada. Toda a sala parecia esperar uma explosão. Mas ela não veio. E isso era ainda pior. Porque quando Dante gritava, descarregava a raiva. Quando ficava quieto... ele planejava. Dante Valenti: Foi Felipe. Gabriel assentiu. Gabriel: Tudo indica que sim. O olhar de Dante escureceu. Algo feroz surgiu em seus olhos. Algo quase predatório. Dante Valenti: Então ele quer brincar. Ninguém respondeu. Porque todos sabiam. Aquilo já não era apenas uma guerra entre mafiosos. Felipe havia cometido o pior erro possível. Ele havia colocado Andréia no meio. E Dante nunca perdoava quem fazia isso. Nunca. — Naquela noite, Andréia encontrou o marido sozinho na varanda do quarto. A cidade brilhava ao longe. Mas ele parecia incapaz de enxergar qualquer coisa além dos próprios pensamentos. Ela se aproximou devagar. Dante nem precisou olhar para saber que era ela. Nunca precisava. Andréia: Você tá me assustando. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. O vento balançava seus cabelos escuros. Dante Valenti: Eu deveria ter acabado com isso antes. Andréia suspirou. Andréia: Não é culpa sua. Pela primeira vez, Dante virou o rosto. Os olhos escuros encontrando os dela. Dante Valenti: É exatamente minha culpa. A resposta saiu imediata. Crua. Honesta. Dante Valenti: Tudo isso existe por minha causa. Ela sentiu o peito apertar. Porque havia verdade naquela frase. Mas também havia culpa demais. Dante aproximou-se lentamente. As mãos encontraram seu rosto com cuidado. Como se ela fosse algo precioso. Frágil. Insubstituível. Dante Valenti: Eu prometi proteger você. Andréia observou seus olhos. E viu algo raro. Medo. Puro medo. Dante Valenti: E alguém conseguiu chegar perto. O silêncio que se seguiu foi doloroso. Porque pela primeira vez desde que o conheceu... Andréia percebeu que Dante não estava apenas com raiva. Ele estava aterrorizado. E homens aterrorizados costumavam fazer coisas perigosas. Muito perigosas. Naquela mesma noite, enquanto Andréia tentava dormir, três carros pretos atravessavam a cidade em alta velocidade. Dentro deles estavam Rafael, Gabriel, Mateus e mais dez homens armados. Todos seguindo ordens diretas de Dante. Ordens simples. Encontrar Felipe. Antes que Dante o encontrasse primeiro.
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