Verdades Que Sangram

1049 Words
A porta explodiu para dentro. O som foi tão alto que pareceu fazer as paredes tremerem. Madeira se partindo. Homens gritando. Passos rápidos. Armas apontadas. E no centro daquele caos surgiu Dante. Os olhos escuros imediatamente encontraram Andréia. Foi automático. Instintivo. Como se todo o resto desaparecesse. Por um breve segundo. Apenas um segundo. O alívio atravessou seu rosto. Ela estava viva. Sem ferimentos. Ali. Mas então seus olhos encontraram Vittorio. E o alívio morreu. Substituído por algo muito mais perigoso. Ódio. Um ódio tão profundo que Andréia sentiu um arrepio. Porque jamais havia visto Dante olhar para alguém daquela forma. Nem para Felipe. Nem para qualquer rival. Nem para qualquer inimigo. Era pessoal. Profundamente pessoal. Dante deu um passo à frente. Vittorio sorriu. Como se estivesse reencontrando um velho amigo. Vittorio: Faz muito tempo. Dante não respondeu. Os músculos do maxilar estavam travados. As mãos fechadas. Os olhos fixos. Dante Valenti: Fique longe dela. A frase saiu baixa. Mas carregada de violência. Vittorio observou Andréia. Depois voltou a olhar para Dante. Vittorio: Interessante. Mesmo depois de todos esses anos... você continua exatamente igual. Gabriel entrou logo atrás. Rafael. Os seguranças. Todos armados. Todos tensos. Porque aquela situação poderia explodir a qualquer momento. Andréia permaneceu imóvel. Observando. Tentando entender. Sentindo que existia uma história inteira acontecendo diante dela. Uma história da qual nunca fez parte. Até agora. Vittorio abriu os braços. Como se não visse perigo algum. Vittorio: Eu só estava conversando com ela. Dante deu mais um passo. Dante Valenti: Não diga mais nenhuma palavra. O silêncio caiu. Pesado. Violento. Mas Vittorio apenas sorriu. Porque não parecia ter medo. Nem um pouco. E isso deixou Andréia ainda mais desconfortável. Porque homens armados normalmente intimidavam pessoas. Mas não Vittorio. Ele parecia completamente tranquilo. Como alguém que já esperava aquele momento. Como alguém que sabia algo que os outros não sabiam. — Andréia observou Dante. E pela primeira vez percebeu algo estranho. Não era apenas raiva. Era dor. Dor verdadeira. Escondida. Enterrada. Mas ainda viva. Ela nunca tinha visto aquilo nele. Jamais. Dante sempre parecia inabalável. Indestrutível. Mas agora... agora parecia um homem diante de uma ferida antiga. Uma ferida que nunca cicatrizou. Vittorio percebeu a mesma coisa. E decidiu atacar. Não fisicamente. Mas da forma mais c***l possível. Vittorio: Ela sabe? O silêncio tomou conta da sala. Dante permaneceu imóvel. Vittorio sorriu. Vittorio: Não. Claro que não sabe. Gabriel fechou os olhos. Rafael desviou o olhar. E aquilo foi suficiente. Andréia percebeu. Todos sabiam de alguma coisa. Menos ela. A raiva surgiu imediatamente. Andréia: Saber o quê? Ninguém respondeu. Ninguém. O silêncio foi resposta suficiente. E pela primeira vez ela sentiu algo que não sentia havia muito tempo. Traição. — Dante finalmente falou. Dante Valenti: Andréia. Vamos embora. Não era um pedido. Era uma ordem. E normalmente ela obedeceria. Mas não dessa vez. Porque estava cansada. Cansada de perguntas sem respostas. Cansada de segredos. Cansada de ser protegida da própria vida. Andréia: Não. O ambiente congelou. Até Gabriel virou o rosto. Porque ninguém contrariava Dante naquele tom. Ninguém. Andréia respirou fundo. Andréia: Eu quero saber. Dante observou-a. Os olhos escurecendo. Mas ela não recuou. Não desviou. Não baixou a cabeça. E aquilo apenas aumentou a tensão. Vittorio parecia estar se divertindo. O que só piorava tudo. Vittorio: Ela merece saber. Dante virou-se para ele. E naquele instante Andréia teve certeza absoluta. Se não houvesse testemunhas... alguém morreria. — A viagem de volta para a mansão foi um inferno. Ninguém falou. Ninguém. Andréia estava no banco traseiro. Dante ao lado. O silêncio entre os dois parecia uma muralha. Porque ela estava furiosa. E ele sabia. Pela primeira vez desde o casamento, Andréia não queria sua proteção. Queria respostas. E Dante parecia disposto a dar qualquer coisa. Menos isso. — Quando chegaram à mansão, a discussão finalmente explodiu. O momento em que a porta do escritório se fechou. Andréia virou-se. Sem paciência. Sem medo. Sem vontade de fingir. Andréia: Quem é ele? Dante permaneceu em silêncio. Erro. Porque aquilo só alimentou sua raiva. Andréia: Quem é Vittorio? Nada. Andréia riu. Mas era uma risada amarga. Machucada. Andréia: Incrível. Meses escondendo coisas de mim. E eu sou a única i****a nessa história. Dante fechou os olhos por um instante. Tentando controlar a própria irritação. Mas ela continuou. Andréia: Todo mundo sabia. Gabriel sabia. Rafael sabia. Mateus sabia. Todo mundo. Menos eu. A acusação atingiu em cheio. Porque era verdade. E os dois sabiam. Andréia aproximou-se. Os olhos brilhando. Não de medo. De decepção. Andréia: Você mentiu para mim. Dante finalmente respondeu. Dante Valenti: Eu protegi você. A resposta foi o pior erro possível. Porque Andréia explodiu. Andréia: PARA DE USAR ISSO COMO DESCULPA! A voz ecoou pelo escritório. Pela mansão. Talvez por toda a cidade. Anos de frustração acumulada saíram naquele momento. Andréia: Tudo é proteção. Tudo é segurança. Tudo é por mim. Mas você nunca me pergunta o que eu quero. O silêncio caiu. Pesado. Brutal. Dante permaneceu imóvel. Porque parte dele sabia. Ela tinha razão. Mas admitir aquilo significava admitir algo ainda pior. Que estava perdendo o controle. — Andréia respirou fundo. Tentando conter as lágrimas. Mas não conseguiu. Porque a dor era maior. Muito maior. Andréia: Eu não sei mais em quem confiar. A frase atingiu Dante como um disparo. E pela primeira vez em anos... ele sentiu medo. Não medo da guerra. Não medo de Felipe. Não medo de morrer. Mas medo de perder ela. Porque podia enfrentar qualquer inimigo. Qualquer exército. Qualquer ameaça. Mas não sabia lutar contra a decepção nos olhos da mulher que amava. — Longe dali, Felipe observava tudo através de relatórios enviados por seus homens. E sorria. Porque a primeira rachadura finalmente havia aparecido. E rachaduras cresciam. Sempre cresciam. Principalmente quando ninguém conseguia consertá-las. Enquanto isso, em outro lugar da cidade, Vittorio permanecia sentado sozinho. Observando uma fotografia antiga. Uma fotografia onde apareciam três pessoas. Ele. Uma mulher. E um garoto adolescente. O garoto era Dante. Vittorio passou os dedos sobre a imagem. Pensativo. Quase triste. Então sussurrou para si mesmo: — Você ainda não contou a ela. E pela primeira vez desde que reapareceu... Vittorio pareceu preocupado. Porque quando Andréia descobrisse a verdade completa... a guerra deixaria de ser apenas uma guerra. E se tornaria algo muito mais pessoal. Muito mais destrutivo.
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