O Homem Que Não Devia Existir

1065 Words
Andréia permaneceu imóvel. A fotografia tremia levemente entre seus dedos. Por alguns segundos, seu cérebro simplesmente se recusou a processar o que estava vendo. Dante. Vittorio. Juntos. Não como inimigos. Não como pessoas que haviam se cruzado por acaso. Havia i********e naquela imagem. Confiança. Algo que ia muito além de uma simples parceria. O coração dela começou a acelerar. Porque, durante semanas, ouvira aquele nome surgir como um fantasma. Uma ameaça. Um mistério. Mas nunca imaginou encontrar aquela fotografia. Nunca imaginou ver Dante daquele jeito. Mais jovem. Menos frio. Menos endurecido. Quase humano demais. Ela aproximou a foto do rosto. Observando cada detalhe. A mão de Vittorio apoiada no ombro de Dante. O sorriso discreto. A postura confortável. Aquilo não era um retrato de dois homens que se odiavam. Aquilo era um retrato de pessoas que haviam compartilhado algo importante. Muito importante. Andréia engoliu em seco. Então ouviu passos. Seu corpo inteiro congelou. Instintivamente colocou a fotografia sobre a mesa. Exatamente onde estava. Tentando agir normalmente. A porta abriu. Dante entrou. O olhar cansado. Mas bastou vê-la naquele escritório para sua expressão mudar. Levemente. Quase imperceptível. Mas mudou. Dante Valenti: O que está fazendo aqui? Andréia sustentou seu olhar. Andréia: Não consigo dormir. Mentira. Parcialmente. Porque não era o motivo principal. E aquilo a incomodou. Ela nunca mentia para ele. Nunca. Mas nos últimos dias estava começando a acumular segredos. E isso criava uma sensação estranha. Como se uma distância invisível estivesse surgindo entre eles. Dante observou a sala. Depois voltou a olhar para ela. Andréia teve a impressão de que ele estava verificando algo. Como se quisesse saber se ela havia mexido em alguma coisa. A sensação não passou despercebida. E apenas aumentou seu desconforto. Dante aproximou-se. Andréia quase perguntou sobre Vittorio. Quase. As palavras chegaram até sua garganta. Mas não saíram. Porque queria entender primeiro. Queria descobrir por conta própria. Pela primeira vez. Dante aproximou-se dela. Segurando sua cintura. Dante Valenti: Você deveria estar dormindo. Andréia forçou um pequeno sorriso. Andréia: Você também. Um silêncio estranho surgiu. Nenhum dos dois falou sobre o que realmente importava. Nenhum dos dois falou sobre os segredos que estavam escondendo. E talvez esse fosse o primeiro problema real do casamento deles. Não a guerra. Não Felipe. Mas os silêncios. — Na manhã seguinte, Andréia tomou uma decisão. Uma decisão r**m. Talvez perigosa. Mas necessária. Ela precisava descobrir quem era Vittorio. Sem Dante. Sem Gabriel. Sem ninguém. Sozinha. A ideia parecia absurda. Principalmente considerando toda a segurança ao seu redor. Mas justamente por isso parecia certa. Porque estava cansada de depender das respostas dos outros. Queria as próprias respostas. Passou horas planejando. Observando os horários. Os movimentos dos seguranças. As trocas de turno. As rotinas. E quanto mais observava, mais percebia uma coisa. Dante havia transformado a mansão numa fortaleza. Câmeras. Homens armados. Portões. Monitoramento constante. Tudo em nome da proteção. Mas agora Andréia começava a enxergar aquilo de outra forma. Proteção e controle estavam ficando parecidos demais. E isso a assustava. — Enquanto isso, Dante estava em reunião. A tensão dos últimos dias continuava crescendo. A fotografia de Vittorio havia aberto feridas antigas. Feridas que ele não queria revisitar. Gabriel percebeu. Todos perceberam. Mas ninguém comentou. Porque conheciam Dante. Sabiam que existiam assuntos proibidos. E Vittorio era um deles. Gabriel colocou uma pasta sobre a mesa. Gabriel: Encontramos registros financeiros antigos. Dante ergueu os olhos. Gabriel continuou. Gabriel: Empresas fantasmas. Transferências. Contas encerradas. Tudo ligado a Vittorio. Rafael cruzou os braços. Mateus permaneceu atento. Gabriel abriu alguns documentos. Gabriel: E encontramos uma coisa estranha. Dante observou. Gabriel apontou para uma das páginas. Gabriel: Durante três anos, Vittorio financiou discretamente uma fundação. O silêncio tomou conta da sala. Rafael franziu a testa. Rafael: Uma fundação? Gabriel assentiu. Gabriel: Sim. Voltada para jovens modelos iniciando carreira. O ambiente ficou imóvel. Completamente imóvel. Porque todos chegaram à mesma conclusão. Ao mesmo tempo. Andréia. — No início da tarde, Andréia conseguiu algo que parecia impossível. Sair da mansão sem autorização. Não foi um plano brilhante. Nem cinematográfico. Apenas aproveitou uma pequena falha durante uma troca de equipes. Uma distração. Uma janela de poucos minutos. Mas funcionou. Quando entrou no carro, seu coração estava disparado. Não apenas pelo risco. Mas porque sabia exatamente o que aconteceria quando descobrissem. Dante ficaria furioso. Muito. Mas já estava cansada de pedir permissão para viver. Ligou o veículo. Respirou fundo. E dirigiu. Pela primeira vez em muito tempo. Sozinha. A sensação foi estranha. Libertadora. Assustadora. Maravilhosa. Tudo ao mesmo tempo. Durante alguns minutos quase conseguiu esquecer a guerra. Quase conseguiu esquecer os seguranças. Quase conseguiu esquecer Dante. Mas apenas quase. Porque alguém a observava. — Do outro lado da cidade, um homem abaixou os binóculos. Pegando o celular. Homem: Ela saiu. O silêncio durou alguns segundos. Depois uma voz respondeu. Uma voz calma. Fria. Controlada. Felipe: Sozinha? Homem: Sim. Felipe permaneceu em silêncio. Pensativo. Então sorriu. Lentamente. Felipe: Finalmente. — Dante descobriu vinte minutos depois. E a reação foi exatamente a que todos esperavam. O escritório explodiu em tensão. Gabriel jamais o via daquele jeito. Nem durante ataques. Nem durante guerras. Nem durante emboscadas. Mas agora... agora era diferente. Porque envolvia Andréia. E tudo que envolvia Andréia quebrava a racionalidade de Dante. Dante Valenti: COMO ISSO ACONTECEU? O rugido ecoou pelo ambiente. Os seguranças permaneceram imóveis. Ninguém queria responder. Ninguém queria estar ali. Gabriel respirou fundo. Gabriel: Já estamos rastreando o carro. Dante passou a mão pelos cabelos. Furioso. Mas havia algo pior escondido sob a raiva. Medo. Medo genuíno. Porque todos os cenários possíveis passavam por sua cabeça. Acidente. Sequestro. Ataque. Emboscada. E nenhum deles terminava bem. Nenhum. Pela primeira vez em anos, Dante não estava pensando como líder. Como estrategista. Como mafioso. Estava pensando apenas como marido. E isso o tornava muito mais perigoso. — Enquanto isso, Andréia finalmente chegou ao endereço que encontrara. Uma antiga sede da fundação ligada a Vittorio. O prédio parecia abandonado. Velho. Esquecido pelo tempo. Ela desceu do carro. Observando ao redor. Tudo estava silencioso. Mas havia algo estranho. Uma sensação. Como se alguém estivesse esperando por ela. Ainda assim entrou. Determinada. Sem imaginar que naquele exato momento três grupos diferentes se moviam em sua direção. Os homens de Dante. Os homens de Felipe. E alguém muito pior. Alguém que observava tudo desde o início. Em silêncio. Esperando o momento certo para aparecer. E esse momento estava finalmente chegando.
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